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terça-feira, 28 de julho de 2015

O espantalho das mudanças climáticas

O espantalho das mudanças climáticas


Nesta época de um omnímodo relativismo religioso, moral, político, social, cultural, etc., certezas científicas tidas como incontestes – quase as chamaria de “dogmas” – têm sido brandidas para justificar a necessidade imperiosa de uma revolução radical na sociedade, nas relações políticas e sócio-econômicas, nas formas culturais e até nos modos de ser e de comportar-se dos indivíduos. Tudo na linha de um crescente estatismo – de uma governança mundial, sugerem alguns – de cunho altamente socialista e nivelador, de um estranho “decrescimento” rumo a uma sociedade eufemisticamente designada como “sóbria” (melhor talvez fosse designá-la de miserabilista).

“Dogmas” espantalhos
Assim como outrora, nas propriedades rurais, os espantalhos eram colocados para afugentar os pássaros que vinham assolar os campos cultivados, esses “dogmas” científicos – como, por exemplo, o “aquecimento global” e sua plêiade de hipotéticas desgraças futuras – se tornam verdadeiros espantalhos a atormentar nossa existência diária e a condicionar nossos comportamentos.

Como muitos de nós não possuímos formação científica suficiente para discernir acertos ou erros de tantas dessas “certezas”, corremos o risco de nos tornarmos joguetes nas mãos de homens e de teorias muito extremadas… e pouco científicas.

Cuidado com os falsos profetas
Por este motivo quis hoje trazer ao conhecimento dos leitores do Radar da Mídia uma matéria estampada no New York Times e reproduzida no caderno de Ciência da Folha de S. Paulo (27.jul.2015). O título é sugestivo: "Relação entre mais calor e doenças não é clara". E o subtítulo completa a ideia: "No que se refere à saúde, ainda não se sabe se aquecimento global de fato é uma ameaça".

Na verdade, o “aquecimento global” antropogênico, ou seja, fruto da ação humana, é muito contestado em meios científicos. Diante de certas evidências incômodas, os “aquecimentistas”, jeitosamente, foram mudando seu discurso para “mudanças climáticas”, o que lhes dá um campo de manobra bem mais amplo, pois tudo em tese justifica suas “certezas”.

A história do mundo regista muitas mudanças climáticas, aliás, inerentes ao ciclo vital do Universo. O problema para os “aquecimentistas” é provar que a ação humana gerou tais mudanças. Para evitar comprovações, agitam eles espantalhos de males futuros (secas, doenças, pragas, mortes, etc.). Entretanto, uma vez mais, pesquisas científicas desmentem seus modelos hipotéticos.

Tenhamos, pois, cuidado com aqueles falsos profetas que, em nome de pretensos “dogmas” científicos, nos tentam impingir mudanças sociais, políticas, culturais e até espirituais.

Vamos, então, à leitura do mencionado artigo:

  • "Mudanças climáticas são uma ameaça à saúde humana?

    A lógica poderia sugerir que a resposta é sim: o presidente dos EUA, Barack Obama, usa isso para conseguir apoio para tornar as mudanças climáticas o ponto central de seus últimos meses de governo.

    Na lista da Casa Branca, os casos de asma vão piorar, as mortes ligadas ao calor aumentarão e o número de insetos transmissores doenças, antes confinadas aos trópicos, também. Mas esses pontos expressam uma certeza que muitos cientistas dizem ser ainda inexistente.

    Climas quentes têm efeito na saúde, mas a temperatura é só parte de um conjunto muito complexo de forças.

    Por exemplo, as viagens pelo globo e o comércio –e não mudanças climáticas– trouxeram os primeiros casos de chikungunya para a Flórida.

    As temperaturas podem estar subindo, mas a quantidade de mortes pelo calor, não. O progresso ajuda na adaptação –o fato de o arcondicionado estar mais comum e os tratamentos para doenças do coração, por exemplo.

    Como afirma Patrick Kinney, diretor do programa de clima e saúde da Universidade Colúmbia, ainda é difícil estabelecer causalidades.

    Um estudo comparando Laredo, no Texas, e uma cidade do outro lado da fronteira do México descobriu que a incidência de dengue era muito maior no México, apesar de os mosquitos que transmitem a doença serem mais abundantes no Texas. No Texas, há ar condicionado e janelas que fecham bem, dizem os pesquisadores.

    No Canadá, o número de áreas com carrapatos subiu de duas para treze desde 1997. Insetos como carrapatos e mosquitos não podem regular sua temperatura corporal, por isso são muito sensíveis às temperaturas. Mas o número de carrapatos tem aumentado mais ao sul também, como na Virgínia e na Carolina do Norte, e isso parece ter pouco a ver com o clima.

    Ben Beard, do Centro de Controle e Prevenção de Doenças, diz que o reflorestamento e o aumento da população de veados e pessoas podem ser mais preponderantes. "Provavelmente não é o clima."

    Mas mesmo falar sobre o calor é complicado. Uma revisão recente da mortalidade por calor nos EUA descobriu que a taxa de mortes relacionadas às altas temperaturas diminuiu para menos da metade dos anos 1987 a 2005.

    Em maio, um estudo do "The Lancet" analisou 74 milhões de mortes de 1985 a 2012 em mais de dez países e descobriu que cerca de 8% das mortes foram causadas por temperaturas anormais. Dessas, a taxa de mortes pelo frio (mais de 7%) é muito maior do que a de calor (0,42%).

    Riscos para a saúde por causa da mudança climática são fundamentalmente locais. Os perigos do calor são maiores em Nova Deli do que em Nova York, não porque é mais quente na Índia, mas porque menos gente tem eletricidade, casas resistentes e cuidados médicos modernos. O que torna difícil tirar conclusões".

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O Eixo Cuba-Venezuela e a omissão de Obama

O Eixo Cuba-Venezuela e a omissão de Obama


Recentemente o mundo foi surpreendido pela notícia de que as relações entre os Estados Unidos e Cuba entrariam num progressivo degelo até chegarem a uma normalização completa, ou quase completa. Fruto, em boa medida, de um trabalho de bastidores com o incentivo da diplomacia Vaticana, inspirada pelo Papa Francisco.

Distorção da realidade
Mal a notícia veio a público, a artilharia publicitária progressista desatou-se por esse mundo afora, em noticiários, comentários e análises.

Curiosamente, considerável parte dessas matérias tomava o fato da anunciada reaproximação como se uma injustiça de décadas tivesse cessado. A ditadura castrista era poupada, bem como suas perseguições políticas e religiosas; e se votava um rancor aos Estados Unidos e a sua política de embargo, como se fossem eles os responsáveis pela situação de miséria, decadência e opressão a que o castro-comunismo reduziu a antiga pérola das Antilhas.

Estranhava, além disso, não se mencionar, como cláusula de tal reaproximação, a desmontagem do regime ditatorial dos irmãos Castro e a instauração de um Estado de Direito na ilha-prisão, com o devido respeito às liberdades individuais, a retomada do direito de propriedade, a liberdade de professar e pregar a religião cristã.

Tudo – de passagem seja dito – muito surpreendente, se se leva em consideração a interferência decisiva da diplomacia vaticana para tal aproximação e o subsequente silêncio de Roma a propósito desses temas capitais.

Enfim, somando e subtraindo, toda a operação diplomática e midiática mais parecia o estender de mão a um regime moribundo, para salvá-lo do soçobro.

Aliança Venezuela Cuba
Como é público e notório, durante os anos em que governou a Venezuela, o caudilho Hugo Chávez estreitou, para além de todos os limites, os laços com a ditadura castrista. Hoje são os cubanos que controlam serviços essenciais do Estado venezuelano, além de terem uma posição determinante nas Forças Armadas do País e nas forças policiais e repressivas.

Ora é estarrecedor que, na reaproximação com Cuba, o governo de Obama não tenha exigido a retirada da abusiva influência e interferência cubana na Venezuela.

Neste momento a narco-ditadura comandada por Nicolás Maduro parte para uma repressão sem precedentes contra os opositores, com prisões arbitrárias até de políticos eleitos e execuções sumárias de estudantes.

E o que faz Obama?

Convido-os a ler a perspicaz análise publicada por Héctor E. Schamis, no jornal espanhol El Pais (22.fev.2015), sob o título “Estados Unidos, Cuba y Venezuela”.

Héctor Schamis, argentino de nascimento, Ph.D. em ciência política na Universidade de Columbia, é professor no Centro de Estudos Latino-americanos e no programa “Democracy & Governance” da Universidade de Georgetown.

O texto de seu artigo é revelador, embora suscite algumas ponderações que farei ao final:

  • "Agora foi a vez de Antonio Ledezma – como antes fora a de Leopoldo López – outro peso-pesado, prefeito de Caracas e novo preso político. Cada preso faz parte precisamente dos despojos das muitas guerras que trava o regime, reféns para a negociação final. Isso não se refere apenas à oposição. Também não se trata dos inimigos dentro do próprio chavismo, como Maduro e Cabello. Em última instância as negociações para valer serão com os Estados Unidos e com Cuba. Quanto mais cedo, melhor.

    Pode-se estar indignado com Maduro e com o regime. Mas um pouco dessa indignação, ou pelo menos bastante perplexidade, deveria estar dirigida ao governo de Barack Obama, o qual novamente chega atrasado a uma crise. Por vezes tem-se a impressão de que o Departamento de Estado toma conhecimento das notícias como nós, através dos jornais. Especialmente quando você lêem os tweets de altos funcionários circulando ao mesmo tempo que os nossos, que os de seus colegas, amigos e parentes, e dizendo basicamente o mesmo. A horizontalidade das redes sociais é fantástica, mas não é a maneira mais eficaz de fazer política externa.

    Isto porque é difícil acreditar que a Venezuela não faça parte da longa lista de temas que os Estados Unidos negociam com Cuba. Custa a entender que, uma vez removido o grande obstáculo para a relação dos Estados Unidos com a América Latina – Cuba e o embargo – Obama não use esta importante injeção de capital político – leia-se, legitimidade e credibilidade – para ter uma maior, e não menor, influência na região. Num plano mais abrangente, isso poderia desbloquear essa fatídica paralisia venezuelana. Mas mesmo num plano menor, poderia ter poupado a provação a Antonio Ledezma e à sua família.

    Se Obama não se deu conta disso, e se sua gente no Departamento de Estado se esqueceu de incluir a Venezuela nas negociações com Cuba, ainda estão a tempo. A boa notícia é que Cuba é um Estado a sério, como nenhum outro na América Latina. Negociar com os cubanos é previsível, porque eles têm uma quota suficiente de centralização da autoridade e controle territorial para cumprir seus compromissos. Se não os cumprem é porque não querem, ao contrário do resto da América Latina, onde não há capacidade estatal para tornar efetivo qualquer acordo.

    Cuba quer remessas, turismo e Golden Card da American Express. Será que é tão difícil incluir o desmantelamento da inteligência Bolivariana – que Cuba controla – nessa negociação? Com o subsídio venezuelano chegando ao fim, Cuba precisa de energia e petróleo. Com o boom petrolífero dos Estados Unidos, é impossível negociar a libertação dos presos políticos? Cuba necessita conectividade sem a qual, aliás, não haverá American Express. Não ocorreu a ninguém em Washington que a desarticulação da força de choque, esses camisas vermelhas que só os cubanos podem controlar, poderia ser o preço dessa tecnologia? Além disso se tranquilizaria a oficialidade venezuelana, perturbado pela influência cubana e pela proliferação de forças irregulares.

    E assim, com muitos outros temas. É evidente que esta será uma negociação a três. No fim das contas a oposição venezuelana acabaria competindo com a própria dissidência cubana numa mesa onde os Castro vão taxar muito alto quaisquer de suas concessões. Os democratas cubanos e venezuelanos deveriam coordenar essa negociação. A próxima cimeira do Panamá seria um lugar e um momento adequados. Vale a pena lembrar que esta última crise se precipita depois, e sublinhe-se depois, de iniciadas as negociações entre os Estados Unidos e Cuba. O soft power americano talvez nunca tenha estado tão alto na região.

    Maduro sabe que está perdido, mas se antecipa e adia seu fim inevitável. Frequentemente, é desprezado pela sua falta de preparação e por sua capacidade peculiar para agredir a língua espanhola. No entanto, ele é um ator com um bom senso de estratégia. Seus movimentos quase sempre prolongam suas perspectivas de tempo, parece entender bem a lógica do gambito. Não haverá vitória do regime, sem dúvida, e uma derrota honrosa não está no DNA do chavismo. Neste momento, só os Estados Unidos e Cuba podem terminar com este jogo perverso.

    E têm que se apressar."

Se, como bem aponta o articulista, Cuba é um Estado a sério e, pela centralização do poder (leia-se despotismo) pode garantir qualquer negociação, não as cumprindo se não querem, é impossível acreditar que a presente onda de repressão na Venezuela, iniciada após as negociações com os Estados Unidos, não seja controlada ao milímetro pelo regime dos Castros.

Os sequestros de opositores, a prisão arbitrária de políticos de oposição eleitos, como Antonio Ledezma, as execuções sumárias de estudantes têm a mão da inteligência e da máquina repressora venezuelano-cubana. Como confiar, pois, na honestidade da disposição destes regimes? Estas negociações são uma porta aberta para o fim destes regimes socialo-comunistas tirânicos ou podem se tornar um esteio para o seu prolongamento no tempo? Perguntas para o Departamento de Estado e a diplomacia vaticana.

terça-feira, 29 de junho de 2010

“Sou um soldado muçulmano”!

“Sou um soldado muçulmano”!



Foi há pouco tempo. Talvez até muitos já se tenham esquecido. Mas no dia 2 de maio passado, uma van Nissan Pathfinder começou a fumegar em pleno coração de Nova York. A polícia foi alertada por um vendedor ambulante e rapidamente evacuou a Times Square, esvaziando o centro de Manhattan (foto - reprodução).

Dentro do carro a brigada especial da polícia encontrou diversos materiais explosivos e desativou o artefato que fazia daquele veículo um carro-bomba. Michael Bloomberg, prefeito da cidade, afirmou que a polícia evitou uma tragédia.

Indiciado por terrorismo
As investigações logo identificaram o responsável, Faisal Shahzad, paquistanês de 30 anos, naturalizado americano há pouco mais de um ano. A polícia efetuou a prisão de Faisal, quando este embarcava num vôo para o Dubai, no Aeroporto Internacional John F. Kennedy.

Levado ante um Tribunal Federal, Shahzad se confessou culpado e foi indiciado por terrorismo e por estar "conspirando com o Taliban do Paquistão para causar morte e destruição na Times Square".

“É uma guerra”
O julgamento de Shazad teve início nestes dias, segundo noticia a imprensa. Ao contrário do que se podia esperar, Faisal Shahzad não tentou provar sua inocência, mas reafirmou com jactância sua culpabilidade pelo atentado frustrado.

Como o noticiário é revelador, convido-os a ler alguns trechos da reportagem publicada pela Folha de S. Paulo (22.jun.2010), intitulada Réu se diz culpado no caso Times Square, reportagem que comento em seguida:
  • Num tribunal federal em Manhattan, Shahzad disse à juíza Miriam Goldman Cedarbaum que gostaria de se declarar culpado "mais cem vezes". A sentença está marcada para 5 de outubro. (...)

    "É preciso entender de onde eu venho. Eu me considero um soldado muçulmano", disse ele, acusado de tentativa de usar armas de destruição em massa e de praticar terrorismo transnacional.

    Questionado se não se preocupa com o fato de que poderia ter matado crianças, ele respondeu que os EUA não se importam quando crianças morrem em países muçulmanos.

    "É uma guerra. Sou parte da resposta à aterrorização americana das nações muçulmanas e do povo muçulmano", declarou o acusado, no tribunal.

    "Em nome disso, estou me vingando do ataque. Os americanos só se importam com o seu povo, mas não com as pessoas que morrem no resto do mundo."

    Shahzad reafirmou ter recebido treinamento no Paquistão e atribuiu ao Taleban do país as lições para construir a bomba que pretendia detonar na Times Square, em 1º de maio.

    Ele disse ter escolhido uma noite quente de sábado porque haveria mais gente que pudesse machucar ou matar.
    E descreveu que o veículo usado no atentado, uma perua Nissan Pathfinder, tinha três bombas, e a intenção era que explodissem como uma bola de fogo. (...) "Esperei para ouvir um barulho, mas não ouvi. Então andei até a [estação] Grand Central e fui para casa." (...)

    Ainda de acordo com a CNN, Shahzad também considerava promover ataques no Rockefeller Center, no Grand Central Terminal e no World Financial Center, alguns dos principais pontos de Nova York.

    "Faisal Shahzad tramou e conduziu um ataque que poderia ter levado a sérias perdas de vida, e hoje o sistema de Justiça criminal americano assegurou que ele pagará o preço de suas ações", disse o secretário da Justiça dos EUA, Eric Holder.
Chamo a atenção para o fato de Faisal Shahzad se dizer um “soldado muçulmano” e protestar contra a intervenção em países muçulmanos. Ou seja, a perspectiva dele é primordialmente religiosa e não uma questão de disputa territorial entre países. Além disso, deixa claro que existe uma guerra levada a cabo pelos muçulmanos, uma guerra de caráter essencialmente religioso.

Ressalto ainda a inclemência de Shahzad, que buscou circunstâncias para que seu atentado ferisse ou matasse o maior número possível de civis.

Para muitos no Ocidente tais perspectivas são incômodas, já que abalam suas crenças pacifistas, como também suas convicções laicistas. Mas de que adianta se entricheirar nessas convicções se quem ataca o mundo ocidental o faz por meio da guerra e da guerra religiosa?

Resposta “à mão estendida”
O atentado abortado em Times Square, pela pronta e precisa intervenção da polícia, foi a segunda grande tentativa de um atentado islâmico em território norte-americano, durante a administração do Presidente Barack Obama.

É bom recordar que, em sua postura messiânica, o presidente Obama parecia trazer consigo a fórmula mágica que desmontaria todos os conflitos e congraçaria todos os adversários.

Ele insistiu em estender a mão aos inimigos dos Estados Unidos, e mais amplamente do Ocidente, tentando desarmá-los com sua compreensão e afirmando que seu país não estava engajado numa guerra contra o Islã; fez igualmente questão de abolir, em sua nova estratégia de segurança nacional, as referências à "guerra contra o terrorismo". Mas...

- a resposta à mão estendida foi o punho fechado, não só nas tentativas de ataque aos Estados Unidos, por meio de atentados, mas em muitos outros campos políticos e diplomáticos, bastando recordar as atitudes desafiantes da Coréia do Norte e do Irã;

- ao contrário das crenças de Obama, os promotores de certo terrorismo afirmam que, sim, há uma guerra, e levada a cabo por soldados muçulmanos; ou seja, não uma guerra de nações, mas uma guerra religiosa;

- ainda que o presidente norte-americano evite falar de guerra ao terror, a tática preferencial dessa guerra religiosa continua a ser o terrorismo.

Desprevenção e entreguismo
A postura do Presidente Obama é reveladora de uma mentalidade que desmobiliza e ilude. Sim, o mais perigoso de tal estado de alma é querer iludir-se quanto à realidade e acabar por ser vítima dela.

Diante de Hitler muitos europeus quiseram fazê-lo. Sua atitude, vergonhosa e fatal, ficou consagrada nas palavras de Churchill, o homem que incansavelmente alertava contra a mentalidade acomodatícia, o ambiente de desprevenção, a vaga de entreguismo: "Entre a desonra e a guerra, eles escolheram a desonra, e terão a guerra".

O que se seguiu faz hoje parte de uma das páginas mais negras da História contemporânea. Hitler esfacelou a Europa com sua máquina de guerra e de perseguição... favorecido pelos que lhe estendiam a mão e tentavam desarmá-lo com boa vontade.

Esperemos que o mesmo estado de espírito não conduza o mundo ocidental a desastres e tragédias semelhantes.

Não olhar de frente a realidade pode ser cômodo, pelo menos no primeiro instante. Mas costuma ser a véspera da catástrofe!

É bom ter presentes as palavras de Faisal Shahzad: Eu me considero um soldado muçulmano e isto é uma guerra.


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sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Promessas de Obama viram cinza

Promessas de Obama viram cinza
“E então... como vai indo para você o tal negócio da mudança e esperança?”

Este é um dos adesivos em voga, atualmente, nos Estados Unidos. Não será árduo entrever que diz respeito a Obama e ao cumprimento de suas promessas de campanha.

Obamania

Poucas vezes na história recente se criou tal expectativa em torno de uma figura pública. Desconhecido para muitos, dentro e fora dos Estados Unidos, Obama se tornou uma unanimidade midiática –a Obamania – com seus discursos bem calculados e pouco precisos. Passou a ser portador de uma esperança que muitos enunciavam e poucos saberiam precisar.

A euforia chegou a tal ponto que Obama foi apontado como um “messias”, que viria devolver a “dignidade” aos Estados Unidos e ao mundo, acabar com as ameaças que pairavam sobre o gênero humano, desarmar todos os espíritos e solucionar os problemas universais, munido apenas de seu sorriso e de seu espírito conciliador, com tudo e com todos, especialmente com os adversários.

Messianismo irresistível e vago

Este messianismo irresistível e quase mágico se tinha corporificado no slogan coruscante e vago que fizera furor na campanha: Yes, we can!

Houve até quem comentasse que seu apelo, místico e messiânico, era tão mais atraente e irresistível quanto menos preciso e explícito ele fosse.

8 Leia Obama, messianismo e irracionalidade

Em momentos de euforia como esse – à qual não se pode negar certa dose de irracionalidade – é praticamente impossível apontar a inconsistência das perspectivas para que se acena. Quem o faz se arrisca a ser tachado de “desmancha prazeres”, como se as dúvidas ou perplexidades formuladas fossem presságios de mau agouro, ou tivessem o poder mágico de destruir tais ilusões.

Só resta esperar e, como diz sabiamente o povo, “dar tempo ao tempo”.

E, no caso concreto, não foi preciso muito tempo. A realidade rapidamente tomou o lugar da fantasia!

Frustração com Obama

Como afirma a reportagem do The Wall Street Journal, assinada por Jonathan Weisman, que pretendo hoje comentar com os que seguem o Radar da Mídia, “Obama está vendo suas promessas virarem cinza”.

Para atrair os votos de moderados e até de conservadores, Barack Obama empregou durante a campanha uma linguagem de consenso, velou ao máximo sua linha ideológica e suas propostas mais radicais.

Uma vez instalado na Casa Branca, passou a mostrar seu viés esquerdista, sua propensão ao intervencionismo estatal, sua adesão aos chamados valores da contra-cultura, bem como sua promoção de políticas ditas progressistas, como o aborto.

Para os republicanos - ainda segundo a referida reportagem - os americanos rejeitam as propostas esquerdistas do novo Presidente, motivo de sua queda de popularidade.

Mas, na verdade, o desgaste de Obama vai para além do universo partidário. Muitos que o apoiaram começam a distanciar-se dele, e até mesmo seus correlegionários democratas têm votado contra as propostas presidenciais no Congresso.

“Não me culpem...”

Convido-os, pois, a lerem a matéria do The Wall Street Journal, estampada no jornal Valor (20.ago.2009), sob o título EUA divergem sobre por que Obama perde apoio popular:

  • "O presidente dos EUA, Barack Obama, fez sua campanha no ano passado prometendo acabar com as ásperas divisões partidárias em Washington. Ele não foi o primeiro a prometer uma Presidência suprapartidária: tanto George W. Bush quanto Bill Clinton ofereceram uma mudança similar, mas acabaram vendo a mútua hostilidade entre republicanos e democratas crescer constantemente enquanto ocuparam o cargo.

    Agora, da mesma forma, Obama está vendo suas promessas virarem cinza. Audiências populares iradas, queda no índice de aprovação e a crescente oposição à sua proposta de reforma do sistema de saúde sugerem o retorno antecipado da política de sempre.

    Os críticos de Obama dizem que isso é o resultado inevitável de sua pressão por políticas mais esquerdistas de longo alcance, apesar de ter feito ofertas não definidas para conquistar moderados e conservadores. A Casa Branca culpa os republicanos e comentaristas da mídia conservadora, dizendo que eles procuraram semear a discórdia desde o começo.

    Os dois lados concordam em um ponto: após seis meses de governo de Obama, um crescente número de americanos está se voltando contra o presidente, inclusive alguns eleitores que ele conquistou durante a campanha.

    "Pensei que ele iria nos unir como país. Quando ouvi ´Não há uma América branca, não há uma América negra, há os Estados Unidos da América´, isso ecoou em mim", disse Leah Wolczko, de 42 anos, professora de Manchester, Estado de New Hampshire, que se define como politicamente independente e apoiou Obama, mas não votou em novembro (o voto não é obrigatório). "Mas quando começam a falar de temas específicos, aí temos problemas." Ela se opõe ao que chama de propostas de maior interferência do governo e políticas de grandes gastos públicos de Obama.

    Numa pesquisa do "Wall Street Journal" e da rede de TV NBC feita com 1.011 adultos, entre 24 de julho e 27 de julho, a base de apoio do presidente continuava relativamente alta e ainda firme, com 37% ainda se sentindo "muito positivos" em relação a ele. O índice geral de aprovação ficou em 53%. Mas, desde o início do ano, o conjunto dos que se sentem "muito negativos" mais que triplicou, chegando a 20% em nível nacional, 25% no sul do país, 23% entre aqueles com 65 anos ou mais, e 24% entre os homens de 50 anos ou mais. (...)

    Os números de Obama, porém, "sugerem que está começando a se formar um núcleo anti-Obama", disse o pesquisador Peter Hart, democrata, que faz pesquisas para o Wall Street Journal/NBC News. (...)

    Quando Obama tomou posse, em janeiro, apenas 6% da população se sentiam "muito negativos" em relação a ele, enquanto 43% se sentiam "muito positivos".

    "No dia em que ele foi eleito, ele teve meu pleno apoio, 100%, e meu compromisso de rezar por ele e por sua família", disse Glória Twiggs, aposentada de Kenner, Louisiana, que não votou em Obama. Agora, chateada por questões relativas a aborto e por um voo do avião presidencial para uma sessão de fotos sobre Nova York, em abril, que gerou polêmica, ela tem opinião negativa dele. (...)

    Em janeiro, só 13% dos entrevistados na pesquisa Wall Street Journal/NBC discordavam inteiramente da afirmação de que Obama compartilhava das mesmas posições deles. Isso dobrou para 25%. Também quase dobrou proporção de americanos que discordam inteiramente de que Obama está disposto a trabalhar com pessoas com pontos de vista diferentes dos dele, de 12%, em abril, para 21%.

    Uma parafernália anti-Obama já chegou às lojas, para concorrer com objetos que promovem o presidente e continuam muito vendidos. Há um adesivo que diz: "Não me culpem, votei em McCain"; e camisetas com o dizer: "E então... Como vai indo para você o tal negócio da mudança e esperança?". Três dos cinco livros mais vendidos na lista do "New York Times" desta semana são contra Obama.

    As pesquisas mostram que os americanos tendem a concordar sobre os principais problemas do país: alto custo da assistência médica e número crescente de pessoas sem seguro, dependência do petróleo importado e recessão. Mas conseguir um consenso sobre as soluções é mais difícil, em especial diante do abismo filosófico acerca do papel do governo.

    William D. McInturff, pesquisador republicano e colega de Hart na pesquisa do Wall Street Journal/NBC, definiu a data que marca a ruptura entre o presidente e os que tinham lhe dado o benefício da dúvida: 29 de março. Foi quando Rick Wagoner, presidente da General Motors, foi demitido do cargo a pedido do presidente.

    "O país tem uma divisão permanente acerca do legítimo papel do governo", disse McInturff. "Essa questão se situa bem na linha divisória entre quem se torna republicano e quem se torna democrata."

    Para alguns, a frustração com Obama vem da fraqueza da economia. "Achei que, a essa altura, ele já teria transformado a situação", disse Louis Thornton, 44, de Lancing, no Tennessee, que se identificou como um democrata convicto que está se sentindo "muito negativo" em relação ao presidente.

    Além disso, a opinião de que Obama vem favorecendo minorias apareceu em diversas entrevistas com eleitores. No alvoroço sobre a prisão do professor Henry Louis Gates, da Universidade Harvard, "ele ficou do lado da raça dele, certo? Vamos encarar os fatos", disse Nick Januszczak, 54, caminhoneiro de Hammond, Indiana. Obama disse que a polícia "agiu de forma estúpida" ao prender Gates. O presidente mais tarde se desculpou publicamente pela declaração. "
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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Ao lado de "companheiros" e ditadores

Ao lado de “companheiros” e ditadores

Irã

Lula declarou – contra as evidências – que Mahmoud Ahmadinejad venceu licitamente as recentes eleições no Irã. As autoridades iranianas, pelo contrário, atestaram que milhões de votos foram fraudados.

Para o presidente brasileiro, entretanto, as manifestações de protesto contra a fraude eleitoral não passavam de raiva de perdedor, como em torcida de futebol. As 69 pessoas mortas pela terrível repressão do regime ditatorial iraniano nem sequer mereceram uma leve menção de Lula.

Coréia do Norte

O regime comunista da Coréia do Norte mantém campos de concentração e executa sumariamente adversários políticos. O Conselho de Direitos Humanos da ONU pediu recentemente a condenação do regime por esses motivos. Mas a diplomacia do governo Lula se recusou a condenar Pyongyang, pois acha necessário “dar uma chance” ao regime sanguinário.

Venezuela e FARC

A Venezuela entregou às FARC armas compradas à Suécia pelas Forças Armadas do país e destinadas por tratado a seu uso exclusivo. A Colômbia pediu explicações a Chávez por essa grave ocorrência; a Suécia igualmente.

Chávez foi mais uma vez desmascarado como mentor das FARC. Sem ter o que responder, o caudilho venezuelano encontrou em Marco Aurélio Garcia, o assessor presidencial de Lula, um porta-voz e um defensor nessa situação delicada. Garcia passou a manter contactos internacionais, inclusive com o General James Jones, assessor de segurança do presidente Obama, para justificar o injustificável. E Celso Amorim asseverou, em declarações à Folha de S. Paulo, que a transferência de armas “foi apenas um episódio”.

Honduras

Ao lado do ditador líbio Muhamar Kadhafi, patrono do terrorismo internacional, a quem chamou de “meu irmão”, Lula condenou o “golpe” em Honduras. Enquanto justifica a complacência com a ditadura cubana e o fim da exclusão do regime de Castro da OEA, a diplomacia lulo-petista exigiu a condenação inclemente do governo de Micheletti e a exclusão de Honduras do organismo.

Colômbia e EUA

Estados Unidos e Colômbia estreitam seus laços militares no combate ao narcotráfico e à guerrilha das FARC. Chávez percebendo que sua aliança político-militar com as FARC se vê ameaçada e, em conseqüência, sua estratégia de desestabilização do governo colombiano de Álvaro Uribe e da América Latina em geral corre perigo, desata uma gritaria contra o alargamento do acordo.

Celso Amorim afirma que a Venezuela tem razão em seus receios. Lula logo se torna o porta bandeira do protesto contra o acordo, bem como o articulador dos protestos da América Latina. Fazendo o jogo do “bolivarianismo”, Lula pretende levar Uribe ao banco dos réus na reunião da Unasul, em Quito, golpe que só é frustrado pela hábil maratona diplomática do presidente colombiano.

A atitude de Lula contrasta com o silêncio cúmplice ante as compras de armamento russo efetuadas por Chávez (que chegam a 4,4 bilhões de dólares!) e ante o oferecimento feito pelo presidente venezuelano das bases do país para acolher bombardeiros russos, inclusive com armamento atômico.

The Economist censura Lula

Seria impossível fazer neste exíguo espaço um elenco exaustivo das mais recentes medidas diplomáticas do governo Lula, que revelam sua crescente subserviência aos desígnios de Hugo Chávez e de seu “socialismo do século XXI”.

Tal seqüência de medidas mereceu neste final de semana um editorial da revista britânica The Economist (13.ago.2009), que apontou o viés chavista da política externa do governo Lula e cobrou uma posição firme do presidente do Brasil, com relação à defesa da democracia: “O governo Lula tem demonstrado um enigmático desrespeito pela democracia e pelos direitos humanos fora das fronteiras brasileiras”. E acrescentou: “O Brasil precisa decidir o que realmente defende e quem são seus aliados de fato, ou então arriscar que outros façam essa escolha por ele”.

O viés chavista da política externa

A matéria da importante revista britânica foi glosada pelo jornal O Estado de S. Paulo (15.ago.2009) em Notas & Informações, intitulada A ameaça que Lula incentiva:

  • "Numa das inumeráveis vezes em que se pôs a falar mal da imprensa - que evita ler "porque tenho problema de azia" -, o presidente Lula contrastou o que seria o tratamento injusto a ele dispensado pelas principais publicações brasileiras com o tom amplamente favorável ao desempenho do seu governo nas matérias e comentários sobre o País em muitos dos mais importantes periódicos estrangeiros. (...)

    O presidente, portanto, não terá motivos para acusar de parti pris contra ele o prestigioso semanário britânico The Economist por ter publicado, na edição que começou a circular ontem na Europa e nos Estados Unidos, uma reportagem e um editorial que identificam o inquietante viés chavista da sua política para a América do Sul. "Do lado de quem está o Brasil?", pergunta a revista. Nem Lula correria o risco de acentuar o seu desconforto gástrico se se inteirasse do teor desses textos. Eles o elogiam como um "presidente inspirador", cuja "bonomia e instinto para a conciliação" fazem amigos em toda parte, e por ter barrado a mudança constitucional que o autorizaria a disputar um terceiro mandato consecutivo, "apesar de seus quase sobrenaturais índices de popularidade".

    A Economist também aplaude os esforços do brasileiro para amoldar as instituições multilaterais às mudanças no equilíbrio global de poder (...) Mas - no que não chega a ser uma revelação para os observadores brasileiros - a revista ressalta a perigosa benevolência, quando não a franca simpatia, da diplomacia regional do País em relação a Hugo Chávez. O "gancho", como se diz nas redações, para a abordagem do problema são as investidas do caudilho venezuelano contra o acordo entre a Colômbia e os Estados Unidos para a instalação de três bases militares destinadas a reforçar as defesas do país vizinho no seu combate de décadas contra a guerrilha das Farc e os seus parceiros do narcotráfico.

    Nessa crise fabricada por Chávez para encobrir as evidências de seu apoio bélico ao movimento, o Brasil só não agiu pior do que o equatoriano Rafael Correa, que já não mantém relações com Bogotá, ao exigir garantias de que as bases não teriam outros fins. O papel de linha auxiliar do caudilho, desempenhado pelo presidente e o seu chanceler Celso Amorim, ficou ainda mais gritante porque em momento algum eles manifestaram preocupação com a segurança e a estabilidade regionais ameaçadas pelos acordos militares entre Caracas e Moscou. O próprio Chávez diz servirem para "incrementar nossa capacidade operativa". Lula se comporta como se o inimigo da democracia na América do Sul fossem os Estados Unidos, ou a Colômbia, ou mesmo o governo golpista de Honduras - que destituiu o presidente Manuel Zelaya para evitar que ele atrelasse o país ao chavismo.

    Além disso, ao endossar tacitamente as políticas liberticidas do venezuelano - não passa dia sem que ele, cumprindo as suas promessas, não aperte o garrote no seu desafortunado país -, Lula desnuda a hipocrisia das suas apregoadas convicções democráticas. A versão soprada pelo Itamaraty de que os agrados brasileiros a Chávez teriam apenas o objetivo de moderar os seus planos hegemônicos na região já foi desacreditada pelos fatos, sem falar nas lições da história sobre a futilidade das tentativas de apaziguar apetites ditatoriais. A tragédia é que nenhum outro país sul-americano tem condições comparáveis às do Brasil para frear as aventuras totalitárias de Chávez e seus aliados bolivarianos. Não se pede, como diz a Economist, que o Brasil aja como xerife da América. Mas é do interesse nacional prevenir uma nova guerra fria entre os vizinhos.

    "A maneira de fazê-lo é não confundir democratas com autocratas, como Lula parece pensar", assinala a revista. "É desmoralizar Chávez, demarcando uma clara divisa em favor da democracia - o sistema que permitiu a um pobre torneiro mecânico chegar ao poder e mudar o Brasil." "

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quarta-feira, 18 de março de 2009

A pata, a galinha e os ovos

A pata, a galinha e os ovos
Na minha rotina de acompanhar a mídia, deparei-me há pouco com um artigo no jornal O Estado de S. Paulo (15.mar.2009) que fazia uma espirituosa comparação entre os estilos da pata e da galinha porem ovos.

A galinha põe um ovo pequeno, cacareja e todo o mundo presta atenção; a pata, por seu turno, põe um ovo maior mas, como não chama a atenção, ninguém ou quase ninguém nota.

Dizem até os estudiosos que o ovo da pata é mais nutriente; mas é o da galinha que mais desperta a atenção e o desejo, porque a galinha sempre alardeia seu feito.

Talento mercadológico do PT

O autor do artigo, Gaudêncio Torquato, aplicava tal comparação à maneira de se fazer política e afirmava que o PT “desenvolveu um extraordinário talento mercadológico”.

É fora de dúvida que o lulo-petismo tornou-se especialista em ações de propaganda, pelas quais alardeia os ovos que põe... e até os que não põe, como se os tivesse posto.

Desgaste de popularidade

Ao contrário do que se repete sem cessar a respeito da estratosférica popularidade de Lula (84%!?) - num exercício de subserviência quase cabalístico - quem se detém sobre os fatos, percebe que o Presidente sofre um desgaste crescente, e que se acentua nas camadas mais influentes da população, formadoras de opinião.

8 Leia 84% de popularidade: fantasia carnavalesca

Desgaste este agravado recentemente pela cruel realidade dos efeitos no Brasil da crise econômica mundial, que até agora Lula, com ampla colaboração, tinha conseguido mascarar.

Por isso os marqueteiros (os cacarejadores) do Presidente precisam envolvê-lo em êxitos deslumbrantes no Exterior, com a conivência de certa imprensa rendida ao governismo. São estes “êxitos” próprios a impressionar justamente estas camadas formadoras de opinião.

Lembram-se quando a propaganda eleitoral do PT apresentou imagens de Lula discursando na ONU e sendo aplaudido de pé pelo plenário? Tudo não passou de uma vulgar montagem: o discurso era de Lula, as palmas eram para o Secretário Geral da ONU.

Assim se anunciam os ovos, como disse acima, reais ou imaginários.

Carona no rojão de Obama

E foi o que se deu na recente visita de Lula a Obama. Como alguém disse de modo jocoso, Lula precisava pegar carona no rojão de Obama. E lá foi ele para Washington.

Quem assistisse aos noticiários ou lesse alguns titulares de jornais teria a impressão de que uma nova e inusitada era de relacionamento se inaugurou.

Lula, para reforçar a idéia, ainda anunciou que seriam dados passos “extremamente importantes” e que Obama decidira criar um grupo de trabalho com o Brasil para as reuniões do G-20.

Sem nunca ser afirmado, ficou a impressão de que Obama, um tanto perdido na crise econômica mundial, aguardava alguém como Lula para se aliar e lhe dar rumo na atuação.

É verdade que algumas fotos apresentavam um Obama que não conseguia esconder o sorriso um tanto sardônico, enquanto observava Lula, bastante corado, de olhos intumescidos e rindo de modo alvar.

Declarações genéricas e vagas

Entretanto, quando a atenção se debruça sobre o noticiário mais objetivo dos resultados, nota-se a forte dose de bluff.

As declarações, tanto de Obama quanto de Lula foram formulações de desejos óbvios, genéricos e vagos.

Barack Obama considerou remota a retomada da Rodada de Doha, contrariando a expectativa de Lula que anunciara o momento como “o mais oportuno para a gente (!) discutir a rodada”.

Além disso, o presidente americano deixou claro que os EUA não pensam em abrir tão cedo o mercado americano para o etanol brasileiro, outra das reivindicações de Lula (cfr. Valor, 16.mar.2009).

Clóvis Rossi, na Folha de S. Paulo (16.mar.2009), relembrou que Lula já anunciara, no governo de George W. Bush, uma “parceria estratégica” e se perguntava se há patamar diplomático mais elevado do que esse?

“É inescapável – escreve ele – uma sensação de parte 2 de filme velho nos anúncios feitos após o encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama”.

Expectativa irrealista

Mas, perguntará alguém, se não haverá um pouco de facciosismo deste blog menosprezar o destaque dado ao País com a criação do grupo de trabalho EUA-Brasil, com vistas ao G-20?

Eu me pergunto, mas qual grupo de trabalho? Grupo de trabalho só o da fantasia lulista, o ovo não posto dos cacarejadores.

Bastante esclarecedor, neste sentido, é o texto do editorial do jornal O Estado de S. Paulo (17.mar.2009), que aborda a “expectativa irrealista” do primeiro encontro Obama e Lula:

  • E tanto se esperava que, a partir do noticiário a respeito, é possível formar-se a impressão de que uma nova perspectiva acabou de ser aberta na história das relações Brasil-Estados Unidos.

    Indício disso seria a decisão atribuída aos dois governos de ir para a reunião do G-20, no próximo dia 2, em Londres, com uma estratégia comum, a ser definida nestes dias. Washington e Brasília, de acordo com essa avaliação, levariam aos demais membros do clube das nações responsáveis por 85% da economia mundial uma mesma proposta de ações estruturais para o resgate e a transformação do sistema financeiro em colapso. Não se trata de nada disso. Embora o presidente Lula tenha dito à imprensa que o seu colega americano sugeriu a criação de um "grupo de trabalho" para a formulação de uma "proposta conjunta", Obama falou apenas em reuniões de representantes dos dois lados para "coordenar nossas atividades para fortalecer o crescimento econômico global". Depois, o assessor de Assuntos Internacionais do Planalto, Marco Aurélio Garcia, comunicou que o "grupo" será formado por dois funcionários, um designado pelo secretário do Tesouro, Timothy Geithner, o outro escolhido pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega.

    Garcia - o certo seria o chanceler Celso Amorim, se o trabalho tivesse a magnitude de que foi revestido - tratou ele mesmo de moderar o alcance da iniciativa.
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sábado, 28 de fevereiro de 2009

Obama, o pânico e a intervenção do Estado

Obama, o pânico e a intervenção do Estado
O Presidente Barack Obama começa a mostrar ao que veio!

A revista Newsweek estampou no título de capa, de um de seus recentes números, uma pergunta instigante: "Somos todos socialistas?"

Na controvérsia em torno dessa questão pode estar uma das chaves da atual crise econômica. A tentativa oportunista de uma guinada ideológica.

Crise econômica, política e psicológica

Recapitulemos. Para os simples mortais, como eu, a crise, em sua origem e em seus desenvolvimentos, não é de uma compreensão linear.

Talvez por esse motivo, todos os dias, se multiplicam as opiniões - tantas vezes divergentes - dos especialistas, nos diversos órgãos de comunicação social.

Se bem que para alguns as origens da crise pareçam, à primeira vista, razoavelmente claras e certos desenvolvimentos compreensíveis, parece igualmente inequívoco que não são apenas fatores econômico-financeiros os que atuam na presente situação. Fatores políticos, com fortes doses de condicionantes psicológicas, estão presentes.

Coincidências

Diversos são os aspectos e coincidências que chamam a atenção:

1 - É fato que a crise econômica foi a catapulta que içou definitivamente a candidatura de Obama a uma posição de vantagem.

Até esse momento - e, sobretudo, após a entrada em cena de Sarah Palin, a candidata a vice de John McCain - Obama enfrentava dificuldades.

A tempestade financeira, explorada por uma mídia quase unanimemente pró-Obama, fez uma fatia do centro deslocar-se em sua posição, ou indecisos escolherem seu candidato.

2 - As explicações simplistas e até malévolas para a crise, atribuindo sua responsabilidade ao governo Bush, favoreceram o clima.

Muitos pareciam não querer lembrar que a origem, em boa medida, estava bem mais atrás, nas próprias iniciativas dos Democratas de, por imposição do Estado, obrigarem as instituições financeiras a expandir o crédito, até mesmo àqueles que não possuíam garantias para os mesmos.

3 - Uma outra coincidência é de realçar. A própria instabilidade em larga escala, gerada pela crise financeira, criou o clima ideal para Obama poder aplicar, como plano salvador, um conjunto de medidas intervencionistas e pró-estatistas, que, de outro modo, sofreriam forte oposição.

4 - Sirvo-me de uma imagem para chamar a atenção de uma última coincidência.
Aqueles que já estiveram em uma chácara ou fazenda, quando a tarde vai findando, mais facilmente entenderão o que vou descrever.

A escuridão já quase tomou conta do firmamento e o silêncio parece cercar-nos amigavelmente, transmitindo uma sensação de repouso e serenidade.

De repente, o coachar de um sapo rompe esse silêncio. E, logo em seguida, um outro e mais outro e logo muitos enchem os espaços com seus sons repetitivos, como que numa insurreição monôtona, beneficiando-se de um certo anonimato que a noite lhes confere.

A cena vem-me à mente para simbolizar o que se passou nas hostes da esquerda, quando da eclosão da crise.

Envergonhados pelo fracasso omnímodo das diversas experiências socialistas, numa exploração desonesta da crise, se puseram a repetir incessantemente e a proclamar o fracasso e o fim do capitalismo, querendo atingir na verdade o regime da livre iniciativa e o princípio da propriedade privada, buscando o regresso do Estado omnipresente.

Expansionismo estatal

Fica assim rapidamente descrito o contexto em que Barack Obama apresentou seu pacote de recuperação da economia e sua proposta de Orçamento.

Segundo o Financial Times, reproduzido pelo jornal Valor (27.fev.2009), "Barack Obama apresentou o modelo mais expansionista de envolvimento governamental na economia americana praticado em mais de uma geração, onde o déficit neste ano aparece quadruplicado".

Tal proposta de Orçamento implica em um tremendo aumento da dívida americana. Para especialistas a previsão de déficites orçamentários no plano fiscal é aterradora e cria um risco sério para a moeda americana. A possibilidade de um colapso para o dólar fez o ouro disparar.

Estratégia do pânico

Em suas intervenções públicas, Barack Obama vem acenando continuamente - já desde a campanha eleitoral - com o espectro da "Grande Depressão" e afirma que sem seu pacote intervencionista a economia irá para o abismo e talvez nunca mais se recupere.

Como muito bem escreveu Bradley R. Schiller, no Wall Street Journal (13.fev.2009) agora "a verdadeira catástrofe é a retórica de Obama".

Nesse sentido gostaria de compartilhar com os que lêem o Radar da Mídia, um artigo altamente esclarecedor de João Luiz Mauad, administrador de empresas, publicado em O Globo (26.fev.2009), sob o título "Estratégia do pânico":

  • " O intervencionismo está novamente em voga. Por toda parte, há especialistas defendendo enfaticamente que os governos gastem fortunas, ainda que a maioria dos governos não disponha dessas fortunas. Do leigo ao bispo, do peão ao empresário, quase não há quem duvide de que esta é a fórmula da felicidade.

    A palavra de ordem é gastar, ainda que muitas vezes ela venha maquiada pelo eufemismo “dar liquidez”. A quimera do momento é evitar a recessão, custe o que custar.

    Num livro lançado há pouco nos EUA, Neither Liberty nor Safity, o economista e historiador Robert Higgs reúne inúmeras evidências históricas que demonstram como a insegurança econômica, a vulnerabilidade a inimigos externos ou internos e as catástrofes ambientais foram usadas através dos tempos para expandir o tamanho do Estado e a intervenção dos governos na esfera privada.

    O livro é bastante didático ao explicar, por exemplo, como os governos — malgrado sua indelével vocação para a ineficiência e o desperdício de dinheiro alheio — crescem exponencialmente em momentos de crises (reais ou fabricadas), e por que raramente retornam ao seu tamanho depois que elas cessam.

    Segundo Higgs, nossa constituição física e psicológica nos predispõe ao medo, seja ele oriundo de ameaças reais ou potenciais, inclusive aquelas que existem somente em nossa imaginação. Infelizmente, os políticos entendem perfeitamente esta peculiaridade da natureza humana, e a exploram de forma eficiente.

    Eles sabem que dependem do pânico para assegurar a submissão da sociedade, o consentimento popular aos ditames oficiais e a cooperação afirmativa com suas aventuras. “Esta crise nos dá oportunidade de fazer coisas que não podíamos fazer antes”, confessou ao The Wall Street Journal o primeiro-secretário de Obama, Rhan Emmanuel.

    Como seu assessor, o presidente também sabe que a disseminação do pânico é o caminho mais fácil para impor decisões controversas e, não raro, oportunistas.

    Para fazer passar esse verdadeiro assalto ao bolso dos americanos, por exemplo, Mr. Obama vem utilizando a estratégia de superestimar as previsões de desemprego, ciente de que a estabilidade no trabalho é algo caro à maioria dos homens, o que os torna predispostos a pagar o preço que for necessário, ainda que sem qualquer garantia de que a mercadoria adquirida lhes será entregue.

    Se acreditarmos em alguns dos mais influentes formadores de opinião, seremos levados a concluir que os EUA passam por depressão pior do que a dos anos 30. É interessante notar que, além dos indefectíveis pedidos de mais verbas, o alarmismo aparece quase sempre acompanhado de estatísticas estapafúrdias, como a recente divulgação de que o número de demitidos, em 2008, teria sido o maior desde a Segunda Guerra.

    Ora, não é preciso ser nenhum perito para compreender que há algo muito estranho com tal comparação, afinal a população americana economicamente ativa naquela época era menos da metade da atual. Assim, quando expressos em termos relativos, tanto a taxa de desemprego quanto o número de novas demissões ainda estão distantes até mesmo dos índices da recessão de 1981-82. Em estatística, comparar números brutos, independentemente do universo pesquisado, é um exemplo típico de desonestidade intelectual. Uma outra estratégia, utilizada amiúde para dar credibilidade às ações pretendidas, é apelar para a existência de supostos consensos. A exemplo do que ocorre há anos com o aquecimento global, agora o governo americano informa que “há consenso” entre economistas sobre seu plano para estimular a economia. Errado! O Cato Institute divulgou um abaixo-assinado com mais de 300 assinaturas de proeminentes economistas, entre os quais 3 Prêmios Nobel, que recusam esse consenso. Pior: muitos acham que o voluntarismo estatal só irá piorar as coisas.

    Ademais, é importante compreender que não estamos diante de questões meramente econômicas, mas essencialmente morais. Milhões de indivíduos que nada fizeram de errado, bem como seus filhos e netos, serão forçados a pagar a conta dos equívocos de investidores e governantes no mínimo imprudentes, sem qualquer garantia de que os tais planos de salvamento, apoiados muito mais sobre os pilares do messianismo político do que da ciência econômica, realmente funcionarão. Estará morto aquele mundo em que as escolhas tinham consequências? Onde a insensatez era penalizada e a prudência premiada?"

Creio que, aos poucos, a apreensão e até a decepção vai substituindo o clima de torcida eufórica e inconseqüente que cercou a vitória de Obama.

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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

De volta, com novidades!

De volta, com novidades!
Depois de uma longa ausência, estou de volta ao Blog!

Há muito para comentar, pois o Radar da Midia já detectou muitos e bem variados assuntos de interesse: há o caso da brasileira na Suíça, o referendo de Chávez, as dificuldades de Obama, as ajudas de Lula a Cuba, os incêndios na Austrália.

E o blog volta com novidades, como essa aí à direita: notícias breves, publicadas no Twitter.

Ainda que atrasado - e bem atrasado - um feliz 2009 a todos!

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quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Lula, obamania e ditadores

Lula, obamania e ditadores
Três dias antes da eleição presidencial norte-americana, Lula foi, uma vez mais, a Cuba.

A viagem teve um fim claro: lançar a corda ao regime dos irmãos Castro (Fidel e Raul), que afunda a olhos vistos.

Atualmente o empenho do presidente e da diplomacia "companheira" é salvar o regime ditatorial de Cuba. A ajuda não visa dar bem estar à população, mas preservar do soçobro o regime comunista que há décadas oprime os cubanos: "A presença de Lula em Cuba é um importante sinal político para Raúl Castro, que enfrenta o pior momento de sua gestão", afirmou a Folha de S. Paulo (29.out.2008).

Notem que os apelos dirigidos pelo presidente brasileiro a Barack Obama são para que este acabe com o bloqueio econômico ao regime, que Lula considera inaceitável. Inaceitável não é o regime comunista ditatorial, inaceitável é o bloqueio norte-americano! Por que Lula não pede a Raul Castro que acabe com o regime ditatorial e dê plena liberdade, inclusive econômica, a Cuba?

Indisfarçável afinidade com o ditador
Diante de um grande mural com a figura do guerrilheiro Che Guevara, Lula manifestou sua indisfarçável alegria com a visita à Ilha-prisão. Ao lado de Raul Castro (carrasco de tantos opositores) Lula brincou e riu desbragadamente, demonstrando a grande afinidade de idéias, de convicções e de propósitos.

Fez ainda uma visita de duas horas ao ditador Fidel Castro, a quem uma vez mais cobriu de rasgados elogios. O presidente parece sentir uma recorrente necessidade de haurir algum misterioso eflúvio da personalidade do ditador cubano, além de seus sombrios conselhos políticos. Há uma indisfarçável afinidade entre Lula e Fidel.

Presidente negro: ganho extraordinário
Já prestes a sair de Cuba, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao lado de Raul Castro, manifestou sua torcida pela vitória do democrata Barack Obama: "Da mesma forma que o Brasil elegeu um metalúrgico, a Bolívia, um índio, a Venezuela, o Chávez, e o Paraguai, um bispo, seria um ganho extraordinário se a maior economia do mundo elegesse um negro". A preferência de Lula foi, posteriormente, elogiada pelo próprio Fidel.

A viagem de Lula, como sua declaração sobre a preferência por Obama, são esclarecedoras. E muito!

Obamania, ditadura e racismo
Em primeiro lugar demonstram como o apreço de Lula pela democracia é relativo. Lula é cúmplice, admirador e defensor de ditadores, como Fidel.

Nunca é demais insistir: Lula e o PT não acreditam no regime de liberdades democráticas. Aproveitam-se dele para atuar, governar e, se possível, acabar com a democracia. Suas práticas de governo e a orientação da atual diplomacia do Brasil, são provas disso.

Em segundo lugar, ao comparar Obama a Evo Morales e Chávez, Lula pretendeu elogiar o primeiro e deixou ver quem são as figuras políticas que admira e acha exponenciais. Ou seja, dois protoditadores, que aos poucos vão implantando, nos respectivos países, regimes autoritários, com desrespeito aberto às instituições do Estado de Direito, à lei e às liberdades.

Além disso, sua declaração teve conotação profundamente racista: o ganho extraordinário é a eleição de um negro! Já tive a oportunidade de comentar como é racista o anti-racismo de muitas esquerdas: o essencial da figura de Obama é sua cor e não sua agenda política.

8 Leia Obama, messianismo e irracionalidade

Mas a manifestação de preferência de Lula também é reveladora do cariz da chamada Obamania. Comparar Obama a Evo Morales e a Chávez, é esclarecedor do que muitos adeptos desta onda esperam do novo presidente norte-americano.

É claro que Barack Obama não pode ser responsabilizado pelas declarações do presidente Lula. Mas também é verdade que muitos dos obamaníacos, pelo mundo, alimentam esperanças semelhantes às de Lula.

Lula-aqui, Evo-ali, Obama-lá
A propósito das declarações de Lula e da natureza da obamania, o escritor Augusto de Franco, publicou na Folha de S. Paulo (17.nov.2008) um contundente artigo, intitulado Lula-aqui, Evo-ali, Obama-lá.

  • "Em parte por concepção, em parte por esperteza, Lula resolveu contrair a obamania. Nas vésperas da eleição americana, ele declarou: "Da mesma forma que o Brasil elegeu um metalúrgico, a Bolívia, um índio, a Venezuela, o Chávez, e o Paraguai, um bispo, seria um ganho extraordinário se a maior economia do mundo elegesse um negro". É ruim.

    Salva-se nessa lista de admirações só o próprio Obama. Os outros são ou serão protoditadores ou ditadores, com exceção de Lula, que é apenas um líder neopopulista manipulador. É ruim também. Mas é menos pior.

    A esperteza de Lula é usar a obamania para legitimar a lulomania. Ou a evomania. Ou a chavezmania. São manias de não gostar da democracia. (...)

    Para entender, é preciso ver que Lula não quer ser chefe de governo. Nunca quis. Ele quer ser condutor de rebanhos, guia de povos. Quer palanques extraordinários, não a ordinária rotina das tarefas administrativas. (...) Quem gosta de conduzir o povo pela mão são os sociopatas (e genocidas, como Mao, o "guia genial dos povos") e os vigaristas (como certos pastores e palanqueiros).

    A democracia não precisa de líderes extraordinários, superhomens, caudilhos carismáticos que eletrizam as multidões e arrebatam as massas em nome de um porvir radiante. (...)

    Mas Lula, significativamente, tem especial predileção pela palavra: assim como a vitória de Obama seria "extraordinária", aquele seu primeiro ministério, detonado pelas suspeitas e acusações formais de crime, roubo e formação de quadrilha, ele também o qualificava como "extraordinário".

    Quem precisa de coisas extraordinárias, mitos fundantes (líderes ungidos, predestinados a cumprir um papel redentor), utopias fantásticas (reinos milenares de seres superiores ou regimes universais de abundância) são autocracias, não democracias.

    Quase dois terços dos americanos não foram votar no mulato Obama. Dos que foram votar, quase a metade preferiu o macho branco caucasiano McCain. (...) [Obama] nem vai governar o tempo todo lembrando a sua condição extraordinária de negro. Se fizesse isso, seria um negro de araque.

    Já Evo é um índio de araque, nesse particular, igualzinho a Lula, um metalúrgico de araque. Sim, ele o foi, mas não é mais. Há muito tempo. Aliás, já passou mais tempo como profissional do palanque (...).

    Quem pode viver disso não é a política (democrática), mas aquela ideologia sociológica que pretendia encontrar na extração social alguma razão para explicar e legitimar o comportamento do agente. (...)

    A empulhação se generalizou, em parte baseada na visão equivocada de que a origem de classe ou de raça ou cor tem alguma coisa a ver com a democracia. (...) Uma pessoa deve ser escolhida pelas suas opiniões, não por sua extração, origem, identificação antropológica.

    Lula-aqui, Evo-ali e Obama-lá são movimentos regressivos. Obama não tem culpa. Ao contrário de Lula e de Evo, ele está convertido à democracia. Mas a obamania, assim como a lulomania e a evomania, aborrece a democracia."

Após a leitura deste excelente artigo, concluo. Se bem que ninguém tenha ouvido a Barack Obama declarações de cumplicidade com ditadores, uma pergunta não quer calar: por que a eleição de Obama despertou esperanças tão nefastas em ditadores, protoditadores ou simpatizantes de ditadores?

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quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Obama, messianismo e irracionalidade

Obama, messianismo e irracionalidade
"A histeria continua", escreveu-me uma pessoa conhecida e leitora deste blog, que vive nos Estados Unidos. Ela se referia ao frenesi que tomou conta da mídia com a eleição de Barack Obama.

Aliás, a histeria já era anterior, pois os índices de cobertura mediática tinham se tornado de uma parcialidade descarada. Nas primeiras páginas dos jornais americanos, segundo Diogo Mainardi, em artigo para a Veja (5.nov.2008), Barack Obama recebeu 45% de cobertura positiva, John McCain apenas 6%.

Além de a imprensa engajada ter tido o cuidado de abafar qualquer fato que pudesse prejudicar o candidato democrata e posto sob holofotes qualquer pequeno evento que abalasse a candidatura John McCain / Sarah Palin.

Unanimismo inexplicado
Não é meu propósito, neste momento, discutir qual seria o melhor candidato. Prefiro chamar a atenção para uma série de circunstâncias e fatos que envolvem a eleição de Obama e convidar os que lêm o Radar da Mídia a refletir sobre eles.

Uma tão grande e gratuita unanimidade em torno de uma figura pública, quase desconhecida, me deixa naturalmente desconfiado. Mais desconfiado, ainda, quando me dou conta de que tal unanimismo provém de uma onda publicitária massiva, a qual encerra em si contradições gritantes.

Parece que um sopro misterioso se desatou pelo mundo em prol de Obama - agora pomposamente chamado por quase toda a imprensa de Barack HUSSEIN Obama - e muitos o comentam, o elogiam, tecem louvores, embora poucos na realidade o conheçam.

Vejo pessoas que afirmam convictas de que ele resolverá a crise financeira (com que credenciais?), que alcançará a conciliação e a paz (qual paz?), que trará um mundo novo (que mundo?). Ninguém explica, mas todos repetem.

Obamania publicitária
A France Presse se referiu a uma Obamania a nível mundial, sem que se conheçam sequer as suas idéias.

8 Leia Obama e o antiamericanismo

Essa mistificação da figura de Obama é tão acentuada que se chega mesmo a atribuir ao presidente eleito uma característica messiânica. Silvio Berlusconi, o primeiro-ministro italiano, afirmou: "A opinião pública se mostrou positiva perante Obama, ele é considerado um messias".

O curioso é que a figura de Obama é considerada tão mais messiânica, quanto mais desconhecidos são seu programa ou suas propostas.

Mas isso é irracional, dirá alguém; e talvez um exagero seu. Respondo que, na verdade, é irracional mesmo, mas que exagero meu não é, pois quem o constata são aqueles mesmos que lhe tecem louvores.

Messianismo, atraente e impreciso
Permito-me aqui reproduzir algumas linhas de um dos artigos mais elogiosos aparecidos na imprensa a respeito da eleição de Barack Obama (O Estado de S. Paulo, 7.nov.2008). Seu título: O resgate moral da América; seu autor: João Mellão Neto. A simples leitura bastará para constatar a irracionalidade desse messianismo:

  • "Obama não tem nenhuma experiência administrativa. É senador há somente três anos e provavelmente nem conhece o prédio do Senado por inteiro. Ninguém tem como dizer qual é o seu plano de governo. Suas palavras são messiânicas e não têm, ao menos, um mínimo de detalhamento. Dele se conhece apenas a recorrente palavra de ordem: "É preciso mudar, acredite, você pode fazê-lo!"

    Ora, Obama jamais esclareceu quais são as mudanças que vai fazer. Seu discurso é, mal comparando, como uma meia de nylon: entra fácil em qualquer pé. Mesmo assim, ele é fascinante, arrebata todas as platéias a que se dirige. (...)

    Sua pregação, imprecisa e atraente, na sua boca, é irresistível. Seu apelo - místico e messiânico na dose exata - se multiplica ainda mais na medida em que se recusa a explicitá-lo. Ele se acha o agente das mudanças. Obama, acreditam todos, é o presidente ideal para realizá-las. Por seu passado, sua determinação e seu destemor, no imaginário popular é um messias providencial que vai empreender as mudanças que se fazem necessárias."

As palavras acima - elogiosas! - são reveladoras das contradições fundamentais que permeiam as esperanças em Obama.

Jânio de Freitas, membro do Conselho editorial da Folha de S. Paulo, em artigo para o jornal (6.nov.2008), intitulado À espera de Obama, também insiste nesse ponto:

  • "As esperanças postas em Barack Obama, convictas e ardentes, no entanto são também difusas. Não traduzem identificação com pontos programáticos do candidato, que procurou ser tão superficial e generalista quanto possível. O que faltou nem sequer lhe foi cobrado, contando só com hipotéticos preenchimentos por comentaristas, tão vagos quanto o candidato de sua simpatia.O desprendimento entre as esperanças e as esperáveis propostas objetivas e precisas, ao menos a respeito de problemas extremos como a guerra no Iraque e o terrorismo, deve-se talvez ao fato de que o apoio a Obama tem raízes sobretudo emocionais, sentimentais mesmo, humanitárias."

Diante do lado emocional e irrefletido de todo este oba-oba em torno da figura e da eleição de Obama, gostaria ainda de convidá-los a debruçarem-se sobre mais algumas das contradições e irracionalidades deste fenômeno.

Presidente negro
Logo no momento em que se conheceu a vitória de Obama, a mídia, comentaristas políticos e personalidades, colocaram seu foco no fato de Obama ser o primeiro presidente negro dos Estados Unidos.

"Ridiculamente, ele está sendo tratado por todos como um Nelson Mandela, e os Estados Unidos, como uma África do Sul dos tempos do apartheid. Calma", afirmou Diogo Mainardi em seu podcast.

Os arautos do fim do racismo foram, a meu ver, profundamente racistas na sua avaliação. Explico-me.

Martin Luther King acusava a sociedade americana de julgar as pessoas, não pelo seu caráter, mas pela cor de sua pele. Ora, aqueles mesmos que neste momento recordam a figura de Luther King para exaltar a vitória de Barack Obama, estão cometendo o erro que aquele líder condenava. Consideram como histórica a vitória de Obama, não por seu caráter pessoal ou sua agenda política, mas pela cor de sua pele.

O racismo subitamente desapareceu
Uns dias antes da eleição, os jornais e revistas estavam repletos de análises sobre o racismo americano e como, provavelmente, seria ele o fator a derrotar Obama.

Obama venceu... e de repente, do dia para a noite, na mídia, o racismo foi trocado pela "superação" do racismo. O povo americano já não era mais racista. Como se deu essa metamorfose brusca e fulminante? Apenas com a eleição de Obama. O fator que "explicaria" a derrota do Senador democrata, diante de sua vitória, se eclipsou.

Quem não percebe em tudo isto uma estranha manipulação de fatos e opiniões?

Negros e negros
Para me manter ainda na questão relativa à cor do novo Presidente.

O Presidente Bush teve, em seus oito anos de governo, dois secretários de Estado negros. Colin Powell e atualmente Condoleeza Rice, dirigiram a importante política externa norte-americana.

O posto é talvez um dos mais salientes na política americana e, portanto, internacional. Porque essa mesma mídia, que hoje se enternece com a vitória do primeiro negro, nunca escreveu sequer uma breve linha de elogio ao Presidente Bush por sua escolha, ou exaltou a condição de negro dos dois secretários de Estado, como faz agora com Obama?

Porque Condoleeza Rice é diferente de Obama? É que para os anti-racistas há negros e negros. Duvidam?

Sob o título Intelectuais negros dizem que agenda importa mais, a Folha de S. Paulo (6.nov.2008) traz as declarações do economista Marcelo Paixão, co-autor do "Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil".

Ao elogiar Obama, por sua agenda tolerante, progressista e por ser um candidato de esquerda, foi explícito: "Acho que Obama sendo candidato, portando essa agenda, é que me deixa feliz. Porque se fosse Condoleeza Rice substituindo Bush eu não estaria feliz".

Então... a eleição histórica de um negro só é histórica se ele tiver um tipo de agenda de esquerda.

Inimigos entusiastas
Uma outra estranheza ressalta dos noticiários. Muitos dos anti-americanos ferrenhos passaram a louvar Obama e a declará-lo uma esperança parra os Estados Unidos.

Sinceramente, não consigo entender este fenômeno. Como inimigos dos Estados Unidos, que odeiam o país, não por birra ou idiossincrasia, mas porque se opõem de modo fundamental aos valores que a sociedade americana encarna, de repente, aclamam o presidente eleito como uma promessa?

É como se tais indivíduos alimentassem uma esperança inconfessada de que Obama represente e traga consigo uma agenda destrutiva dos valores americanos, que eles tanto execram.

Não acham tudo isto muito estranho, incompreensível? Eu acho!

O candidato de Wall Street
Obama é apontado como homem fora do establishment, de família pobre, ao contrário de Bush, um típico wasp (white, anglo-saxon, protestant), favorecedor dos desmandos de Wall Street e dos ganhos fabulosos de seus executivos, o que teria gerado a crise financeira americana.

Entretanto, Obama, o homem da "mudança" que viria "moralizar" esses desmandos financeiros, é apresentado como o candidato de Wall Street e chama para seu staff econômico Warren Buffet, o bilionário mega-investidor, um dos ícones do "cassino" financeiro tão criticado.

O Presidente eleito escolheu ainda, como chefe de Gabinete, o deputado Rham Emanuel. "Rhambo", como é conhecido pela dureza de sua atuação política, se tornou famoso pela breve carreira de investidor em Wall Street onde ganhou milhões de dólares. Sua campanha a deputado federal foi financiada por doadores como UBS, JPMorgan, Goldman Sachs, Citibank, Lehman Brothers, Merrill Lynch, Morgan Stanley e Bank of America, como informa Fernando Rodrigues, na Folha de S. Paulo (8.nov.2008). A bem dizer, Wall Street em peso.

Na verdade, as contradições são gritantes, mas ninguém parece prestar atenção nelas.

Dois guarda-roupas
Não seria difícil desfilar aqui outras contradições presentes no clima emocional criado em torno da eleição de Barack Obama. Comento apenas mais uma.

Quem não se recorda do escândalo montado pela mídia em torno do guarda-roupa de Sarah Palin, desde que esta anunciou sua candidatura a vice na chapa de John McCain. Entretanto, essa mesma mídia, achou lindo que Michelle Obama (ela, que não era candidata a nada) investisse pesado no seu guarda-roupa, desde o início da corrida presidencial.

Michelle Obama desfilou, em suas aparições públicas, modelos e mais modelos de autoria de famosas estilistas; foi capa da revista de moda Vogue e elogiada pela Vanity Fair. Falou-se até no "estilo Michelle".

Dois pesos, duas medidas. Mais uma curiosa contradição a somar a tantas outras.

"Esperança venceu o medo!"
Diante das múltiplas contradições, irracionalidades e do messianismo que marcam a eleição de Barack Hussein Obama, gostaria de fazer uma última reflexão. E para ela convido especialmente aqueles que, embaídos pelos slogans vagos, fáceis e sedutores, pelas promessas ocas e indefinidas, manifestam um entusiasmo que lhes é difícil até de explicar.

Lá, como cá, foi dito que a "esperança venceu o medo". Em 2002 Lula venceu. O momento era histórico, um homem simples, sem estudos, triunfava. Seria presidente. A atmosfera parecia também encher-se de um sopro de promessas e esperanças, como agora.

Bem... quantas coisas vieram! O "mensalão", prática de uma quadrilha política, instalada no governo e no PT, para impor ao país um projeto político autoritário (termos utilizados no processo em curso no STF);

o incentivo aberto aos "movimentos sociais" (MST, à cabeça), impunidade garantida à violação da propriedade privada, das leis e da Constituição;

repetidas tentativas de censurar a imprensa;

projetos para desarmar os homens de bem, enquanto o crime organizado campeia e o Brasil se torna uma das principais rotas internacionais da droga;

apologia do terrorismo como legítimo direito de luta política, feita há poucos dias pelo ministro da Justiça, um dos líderes mais importantes do PT;

política externa desvairada, com fracassos sobre fracassos, a humilhação do País diante dos regimes "companheiros" (Bolívia, Equador, etc.) e a sujeição dos interesses nacionais aos preceitos ideológicos do grupo no poder, com conivência aberta com regimes ditatoriais e organizações terroristas.

"Mudança", "sim, nós podemos"! Que surpresas saltarão detrás destes imprecisos slogans? Espero que os primeiros arrependidos não sejam precisamente aqueles que hoje, de modo irrefletido, mais se entusiasmam com eles.

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sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Obama e o antiamericanismo

Obama e o antiamericanismo
Quem nestes dias lê os jornais, assiste a noticiários de TV, ou acessa portais de notícias da Internet (para não falar de blogs), se depara com inúmeras matérias relativas às próximas eleições americanas.

E não é muito difícil perceber que as preferências, as simpatias, as complacências dirigem-se quase sempre a Barack Obama.

Obama é apresentado como carismático, alguém que vai trazer uma "mudança". Uma "mudança" para os Estados Unidos e o mundo, uma "mudança" que ninguém é capaz de precisar, mas que parece quase mágica.

Um despacho da France Presse até asseverava que a "Obamania" invadiu o mundo, mas essa popularidade não significa que suas idéias sejam conhecidas.

8 Leia Obama e a mudança

Enquanto todas as simpatias midiáticas se dirigem, com evidente parcialidade, ao candidato democrata, todas as antipatias e até desprezos se dirigem ao campo conservador, ao candidato McCain e, sobretudo, a sua vice, Sarah Palin. Esta última tem sido alvo de ataques que, se dirigidos a outra pessoa, facilmente seriam qualificados de preconceituosos.

Curiosamente, muitos daqueles que torcem hoje, de maneira desalmada, por Barack Obama, são aqueles mesmos que alimentam um antiamericanismo doentio. Afirmam que o candidato democrata acabará com a "estupidez" americana.

Afinal quem pode deslindar estas contradições? Esse antiamericanismo é mesmo antiamericano, ou se volta apenas contra um modo específico de ser americano? O que significa mesmo a "estupidez" americana? Será um modo de ser, pensar e agir que desagrada a um esquerdismo ora explícito, ora difuso, que acaba por influenciar muitos ingênuos?

Em artigo publicado na Folha de S. Paulo (31.out.2008), sob o título Dilemas do antiamericanismo, Dom Bertrand de Orleans e Bragança, Príncipe Imperial do Brasil e tetraneto de Dom Pedro I, esclarece muitas dessas dúvidas:

  • "De partida para os Estados Unidos, onde proferirei palestra no encontro nacional de "supporters" da TFP norte-americana, decidi debruçar-me sobre o fenômeno do antiamericanismo.

    Na minha juventude, os Estados Unidos espargiam pelo mundo um intenso fascínio. A americanização estampava-se nos modos de ser, vestir e se comportar de muitos de meus contemporâneos.

    A nação norte-americana era portadora de uma modernidade que arredava a tradição considerada "démodé". Uma atmosfera de otimismo e despreocupação inconseqüentes, de progresso risonho, envolvia seu povo e conquistava o mundo.

    Hollywood tornara-se foco desse modo de ser felizardo, auto-suficiente, um tanto vulgar e igualitário e moralmente tolerante.

    Vieram as batalhas culturais dos anos 60 e 70, que culminaram simbolicamente com a derrota no Vietnã. Tal derrota, sofrida mais no campo interno do que na frente de batalha, fruto da propaganda e da mentalidade libertária e pacifista, causou um abalo na estrutura psicológica do norte-americano e assinalou uma inflexão decisiva na sua história.

    Tais inflexões não se dão de chofre nem têm como determinante um único fato. Elas germinam, estendem suas raízes, desabrocham e se consolidam ao longo de anos, às vezes, décadas. Mas determinados acontecimentos têm o condão de cristalizá-las.

    Derrotado, o americano médio se encontrou diante do infortúnio, o qual traz muitas vezes consigo a reflexão saneadora e salvífica.

    Enquanto nas profundidades da mentalidade americana se operava uma rotação fundamental, permanecia, em larga escala, a propensão ao gozo da vida, à displicência, ao comodismo, que se traduzia, ante a ameaça da hecatombe nuclear que assombrava o clima propagandístico da Guerra Fria, no slogan capitulacionista: "Melhor vermelho do que morto".

    O espírito derrotista levou norte-americanos a queimar sua própria bandeira, num sinal público de menosprezo e hostilidade em relação aos valores que constituem o fundamento da nação.

    Mas a metamorfose que se gestava nas profundidades foi emergindo com força incoercível, consolidando, segundo me parece, uma das transformações psicopolítico-sociais de maior vulto na história contemporânea. Em amplos e importantes setores da nação norte-americana brotou um conservantismo político, um senso de coerência, honra e pugnacidade, a par de tendências profundas, saudosas da tradição, tonificantes dos valores familiares e ávidas dos princípios perenes da civilização cristã. Tal transformação incidiu igualmente nas escolhas da linguagem, dos trajes, das maneiras, das residências, dos objetos de utilidade ou de decoração etc.

    Curioso é notar que, paralelamente a tal mudança, o antigo fascínio pelos Estados Unidos foi sendo substituído por um sentimento de acrimônia e até mesmo de hostilidade. O antiamericanismo passou a ser militante em vastos círculos dirigentes e difuso em certas camadas do público.

    Os Estados Unidos, considerados outrora fonte da modernidade, passaram a ser apontados como retrógrados e obliterados, e contra eles se alimentaram parcialidades, má-vontades e intransigências.

    No presente momento, um fato desconcertante irrompe em cena. Esses focos de propaganda e militância antiamericana são agitados por um verdadeiro oba-oba pró-Barack Obama: o homem da "mudança", de uma "mudança" que ninguém se abalança a definir, nem ele próprio, mas que esses círculos parecem almejar para os Estados Unidos e o mundo.

    Como esse antiamericanismo rançoso se transmuta e se torna pró-americano? Dou-me conta de que ele não constitui uma manifestação simplista de nacionalismo ou de antiimperialismo, mas traz involucrada profunda animadversão ideológica. Volta-se contra um certo tipo de EUA.

    Revela um mal-estar ante o fato de parte muito considerável e dinâmica da sociedade americana (com forte pujança entre os jovens) ter aderido a tendências, ideais e princípios conservadores, no sentido mais amplo do termo.

    A torcida pelo candidato democrata é, para mim, sintoma do desejo desenfreado de certas máquinas político-propagandísticas de inverter essa conjuntura. A eventual vitória de Obama será o fruto de uma gigantesca operação de propaganda, à qual não faltaram ingredientes variados, até turbulência financeira. Mas terá ela a capacidade de alterar a realidade profunda da opinião pública norte-americana?"
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terça-feira, 21 de outubro de 2008

Obama e a "mudança"

Obama e a "mudança"
Dei a este blog o nome de Radar da Mídia. Um nome que transmite a idéia de detectar nela notícias relevantes, comentários oportunos, tendências marcantes.

Confesso que este Radar também detecta muitas vezes na mídia fatos e posturas surpreendentes.

Distorções, inverdades, contradições
Para dar um exemplo, bem recente. Não entendo como órgãos de imprensa - tidos como sérios - continuam a repetir que o PT foi o grande vitorioso das recentes eleições municipais, quando tal afirmação contraria a evidência mais elementar dos números e da realidade eleitoral (leia abaixo Eleições 2008: dogma virtual).

Há certas distorções, inverdades, silêncios, contradições que surpreendem, sobretudo em órgãos que se pretendem imparciais.

Histeria
O mais gritante exemplo, nos últimos tempos, é a verdadeira histeria pró-Obama que tomou conta da mídia, quase no seu todo.

Uma histeria tão desproporcionada que parece encerrar em si alguma coisa não revelada. Afinal qual a razão de tanta torcida?

A histeria tem sido de tal monta que, há pouco, obrigou o vetusto "O Estado de S. Paulo" a um vexame jornalístico.

Um titular na primeira página anunciava a derrota de Sarah Palin no debate dos candidatos a vice. No dia seguinte um novo título, na primeira página, afirmando que Sarah Palin tinha ido muito bem no debate. Uma reviravolta.

Fiquei com a sensação de um título (o primeiro) produzido de antemão, antes da própria realização do debate.

Mudança: um slogan mágico
Agora um novo fato, pela contradição que encerra, é característico desse histerismo da mídia.

A frenética campanha pró-Obama tem insistido muito em que o candidato democrata é o homem da "mudança". Uma "mudança" que nem ele, nem ninguém define muito bem, mas que se tornou quase um slogan mágico.

Obama traria a renovação aos Estados Unidos. Seria a resposta às tão "desastrosas" políticas do Presidente Bush, com alvo preferencial na guerra do Iraque que, contra toda a evidência, a mídia continua a qualificar como perdida.

Apoio de Colin Powell
O Senador do Illinois, Barack Obama, acaba de receber o apoio de Colin Powell, ex-Secretário de Estado e uma das mais importantes figuras do primeiro governo Bush. O candidato democrata já promete um lugar no seu governo ao novo adesista.

O general Colin Powell, foi exatamente uma das bête-noire da guerra do Iraque (que Obama condenou), o homem que na ONU defendeu a invasão do país, com base em dados de inteligência que comprovariam a existência de armas de destruição em massa.

Curiosa a "mudança" que Obama promete. Recebe, como decisivo, o apoio de uma das figuras de proa do governo que ele critica e de um artífices do lance de política externa que ele mais atacou.

Curiosa também a "mudança" da mídia.

Colin Powell, atacado outrora sem piedade, passou agora a ser o "general que dirigiu com glória a primeira guerra do Golfo", "um militar laureado", "um influente político conservador" (até conservador passa a ser bonito!).

O que diria a mídia se Colin Powell tivesse dado seu apoio a John McCain?

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