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quinta-feira, 30 de março de 2017

Ruptura da ordem constitucional na Venezuela

Ruptura da ordem constitucional na Venezuela


1. Lilian Tintori, esposa do oposicionista venezuelano e preso político, Leopoldo López, denunciou nesta quinta-feira, dia 30 de Março, no Twitter e no Facebook que Nicolás Maduro eliminou o Poder Legislativo no país vizinho: "É um golpe de Estado que a ditadura está dando através do Tribunal Supremo de Justiça (Sala Constitucional), porque está anulando a força da Assembleia Nacional e a vontade de todos os venezuelanos que votamos. A nossa Assembleia Nacional, eleita por 14 milhões de venezuelanos, decidiu desconhecer a ditadura e declarar-se em rebelião".

2. Para entender o ocorrido, vale a pena percorrer a notícia no site da revista Veja (30.3.2017). Na noite da última quarta-feira o TSJ autorizou o Presidente Maduro a criar uma joint venture do setor petrolífero sem autorização do Parlamento. A decisão oficializou a invasão das prerrogativas do Legislativo pelo Judiciário, controlado por Maduro.

3. Alegando uma imaginária situação da "desacato" e de "invalidade" de decisões do Congresso, a “Sala Constitucional garantirá que as competências parlamentares sejam exercidas por esta Sala ou pelo órgão que ela determinar”. Ou seja, na prática está eliminado o Congresso e reforçada a ditadura socialista de Maduro.

4. Em comunicado, a oposição venezuelana afirmou que “essa decisão inconstitucional, que nós rejeitamos, é outro passo no desmantelamento da democracia da Venezuela”.

5. A oposição venezuelana conclamou a população para as ruas e pediu que os militares rompam o silêncio sobre as violações dos direitos no país.

6. É bom prestar atenção... por aqui o STF se sente cada vez mais no direito de invadir as prerrogativas do Congresso, como nestes dias no caso do aborto. Caminharemos, aos poucos, para uma fórmula venezuelana de uma ditadura de 11 togados?

7. O governo do Peru, através da sua Chancelaria, comunicou que, devido ao rompimento da ordem constitucional e democrática na Venezuela, "o Governo do Peru decidiu retirar de maneira definitiva o seu Embaixador na República Bolivariana da Venezuela".

8. Pergunta ao Itamaraty: qual será a postura da diplomacia brasileira diante de mais esse grave passo da ditadura chavista na Venezuela? Esta semana havia notícias de uma tendência a contemporizar com o ditador Maduro...

9. A ruptura institucional e o reforço da ditadura foi o resultado prático do "diálogo" promovido pelo Papa Francisco na Venezuela, após abençoar o ditador Maduro no Vaticano. Não faltou quem, dentro e fora da Venezuela, advertisse para o perigo de um "diálogo" que só reforçaria a posição de Nicolás Maduro. O tempo acabou encarregou-se de o confirmar...

(foto Reuters: O presidente da Assembleia Nacional, deputado Júlio Borges, rasga a cópia da sentença proferida pela Suprema Corte da Venezuela)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O Eixo Cuba-Venezuela e a omissão de Obama

O Eixo Cuba-Venezuela e a omissão de Obama


Recentemente o mundo foi surpreendido pela notícia de que as relações entre os Estados Unidos e Cuba entrariam num progressivo degelo até chegarem a uma normalização completa, ou quase completa. Fruto, em boa medida, de um trabalho de bastidores com o incentivo da diplomacia Vaticana, inspirada pelo Papa Francisco.

Distorção da realidade
Mal a notícia veio a público, a artilharia publicitária progressista desatou-se por esse mundo afora, em noticiários, comentários e análises.

Curiosamente, considerável parte dessas matérias tomava o fato da anunciada reaproximação como se uma injustiça de décadas tivesse cessado. A ditadura castrista era poupada, bem como suas perseguições políticas e religiosas; e se votava um rancor aos Estados Unidos e a sua política de embargo, como se fossem eles os responsáveis pela situação de miséria, decadência e opressão a que o castro-comunismo reduziu a antiga pérola das Antilhas.

Estranhava, além disso, não se mencionar, como cláusula de tal reaproximação, a desmontagem do regime ditatorial dos irmãos Castro e a instauração de um Estado de Direito na ilha-prisão, com o devido respeito às liberdades individuais, a retomada do direito de propriedade, a liberdade de professar e pregar a religião cristã.

Tudo – de passagem seja dito – muito surpreendente, se se leva em consideração a interferência decisiva da diplomacia vaticana para tal aproximação e o subsequente silêncio de Roma a propósito desses temas capitais.

Enfim, somando e subtraindo, toda a operação diplomática e midiática mais parecia o estender de mão a um regime moribundo, para salvá-lo do soçobro.

Aliança Venezuela Cuba
Como é público e notório, durante os anos em que governou a Venezuela, o caudilho Hugo Chávez estreitou, para além de todos os limites, os laços com a ditadura castrista. Hoje são os cubanos que controlam serviços essenciais do Estado venezuelano, além de terem uma posição determinante nas Forças Armadas do País e nas forças policiais e repressivas.

Ora é estarrecedor que, na reaproximação com Cuba, o governo de Obama não tenha exigido a retirada da abusiva influência e interferência cubana na Venezuela.

Neste momento a narco-ditadura comandada por Nicolás Maduro parte para uma repressão sem precedentes contra os opositores, com prisões arbitrárias até de políticos eleitos e execuções sumárias de estudantes.

E o que faz Obama?

Convido-os a ler a perspicaz análise publicada por Héctor E. Schamis, no jornal espanhol El Pais (22.fev.2015), sob o título “Estados Unidos, Cuba y Venezuela”.

Héctor Schamis, argentino de nascimento, Ph.D. em ciência política na Universidade de Columbia, é professor no Centro de Estudos Latino-americanos e no programa “Democracy & Governance” da Universidade de Georgetown.

O texto de seu artigo é revelador, embora suscite algumas ponderações que farei ao final:

  • "Agora foi a vez de Antonio Ledezma – como antes fora a de Leopoldo López – outro peso-pesado, prefeito de Caracas e novo preso político. Cada preso faz parte precisamente dos despojos das muitas guerras que trava o regime, reféns para a negociação final. Isso não se refere apenas à oposição. Também não se trata dos inimigos dentro do próprio chavismo, como Maduro e Cabello. Em última instância as negociações para valer serão com os Estados Unidos e com Cuba. Quanto mais cedo, melhor.

    Pode-se estar indignado com Maduro e com o regime. Mas um pouco dessa indignação, ou pelo menos bastante perplexidade, deveria estar dirigida ao governo de Barack Obama, o qual novamente chega atrasado a uma crise. Por vezes tem-se a impressão de que o Departamento de Estado toma conhecimento das notícias como nós, através dos jornais. Especialmente quando você lêem os tweets de altos funcionários circulando ao mesmo tempo que os nossos, que os de seus colegas, amigos e parentes, e dizendo basicamente o mesmo. A horizontalidade das redes sociais é fantástica, mas não é a maneira mais eficaz de fazer política externa.

    Isto porque é difícil acreditar que a Venezuela não faça parte da longa lista de temas que os Estados Unidos negociam com Cuba. Custa a entender que, uma vez removido o grande obstáculo para a relação dos Estados Unidos com a América Latina – Cuba e o embargo – Obama não use esta importante injeção de capital político – leia-se, legitimidade e credibilidade – para ter uma maior, e não menor, influência na região. Num plano mais abrangente, isso poderia desbloquear essa fatídica paralisia venezuelana. Mas mesmo num plano menor, poderia ter poupado a provação a Antonio Ledezma e à sua família.

    Se Obama não se deu conta disso, e se sua gente no Departamento de Estado se esqueceu de incluir a Venezuela nas negociações com Cuba, ainda estão a tempo. A boa notícia é que Cuba é um Estado a sério, como nenhum outro na América Latina. Negociar com os cubanos é previsível, porque eles têm uma quota suficiente de centralização da autoridade e controle territorial para cumprir seus compromissos. Se não os cumprem é porque não querem, ao contrário do resto da América Latina, onde não há capacidade estatal para tornar efetivo qualquer acordo.

    Cuba quer remessas, turismo e Golden Card da American Express. Será que é tão difícil incluir o desmantelamento da inteligência Bolivariana – que Cuba controla – nessa negociação? Com o subsídio venezuelano chegando ao fim, Cuba precisa de energia e petróleo. Com o boom petrolífero dos Estados Unidos, é impossível negociar a libertação dos presos políticos? Cuba necessita conectividade sem a qual, aliás, não haverá American Express. Não ocorreu a ninguém em Washington que a desarticulação da força de choque, esses camisas vermelhas que só os cubanos podem controlar, poderia ser o preço dessa tecnologia? Além disso se tranquilizaria a oficialidade venezuelana, perturbado pela influência cubana e pela proliferação de forças irregulares.

    E assim, com muitos outros temas. É evidente que esta será uma negociação a três. No fim das contas a oposição venezuelana acabaria competindo com a própria dissidência cubana numa mesa onde os Castro vão taxar muito alto quaisquer de suas concessões. Os democratas cubanos e venezuelanos deveriam coordenar essa negociação. A próxima cimeira do Panamá seria um lugar e um momento adequados. Vale a pena lembrar que esta última crise se precipita depois, e sublinhe-se depois, de iniciadas as negociações entre os Estados Unidos e Cuba. O soft power americano talvez nunca tenha estado tão alto na região.

    Maduro sabe que está perdido, mas se antecipa e adia seu fim inevitável. Frequentemente, é desprezado pela sua falta de preparação e por sua capacidade peculiar para agredir a língua espanhola. No entanto, ele é um ator com um bom senso de estratégia. Seus movimentos quase sempre prolongam suas perspectivas de tempo, parece entender bem a lógica do gambito. Não haverá vitória do regime, sem dúvida, e uma derrota honrosa não está no DNA do chavismo. Neste momento, só os Estados Unidos e Cuba podem terminar com este jogo perverso.

    E têm que se apressar."

Se, como bem aponta o articulista, Cuba é um Estado a sério e, pela centralização do poder (leia-se despotismo) pode garantir qualquer negociação, não as cumprindo se não querem, é impossível acreditar que a presente onda de repressão na Venezuela, iniciada após as negociações com os Estados Unidos, não seja controlada ao milímetro pelo regime dos Castros.

Os sequestros de opositores, a prisão arbitrária de políticos de oposição eleitos, como Antonio Ledezma, as execuções sumárias de estudantes têm a mão da inteligência e da máquina repressora venezuelano-cubana. Como confiar, pois, na honestidade da disposição destes regimes? Estas negociações são uma porta aberta para o fim destes regimes socialo-comunistas tirânicos ou podem se tornar um esteio para o seu prolongamento no tempo? Perguntas para o Departamento de Estado e a diplomacia vaticana.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Dilma legitima os crimes políticos de Maduro

Dilma legitima os crimes políticos de Maduro



Quando se menciona o papel de um mediador, entre indivíduos, instituições, empresas, grupos políticos ou países em posições antagônicas, vem-nos à mente uma figura isenta e sem compromissos com as partes, que possa debelar injustiças, abrandar posturas hirtas, harmonizar interesses opostos, alcançar acordos.

Ao longo de anos no poder, a diplomacia lulo-dilmo-petista criou diversas figuras bizarras, entre elas a do mediador-cúmplice. Em vez de isento, o mediador-cúmplice é comprometido por inteiro com uma das partes, inclusive com suas injustiças, arbitrariedades e até crimes e se propõe dessa forma buscar o “entendimento”.

É o que ocorre presentemente com a diplomacia brasileira – cada vez mais subjugada e degradada pelo petismo – na situação que vive a Venezuela.

Sem espaço para o desacordo
Todos os regimes totalitários – comunistas, nacional-socialistas, etc. – consagram o princípio de que as instituições e o conjunto da população se devem submeter ao projeto ideológico emanado do Estado, a serviço de um partido ou de uma organização política.

Não há, nessa perspectiva, espaço para o desacordo e todos aqueles que o manifestam são declarados inimigos do povo, conspiradores, traidores, a serviço de interesses escusos ou até de algum inimigo externo, de algum fantasmagórico imperialismo.

Assim se dá na Venezuela de hoje. A política é uma exclusividade do regime e dos fiéis ao “chavismo”. Todo aquele que, na relativa liberdade ainda reinante, se tornar opositor, passa a ser imediatamente visto como inimigo do povo, a ser esmagado; e qualquer manifestação pública de desacordo, um ato golpista e um atentado à pátria bolivariana.

A “ordem democrática” petista
Esta pervertida visão da democracia é endossada por Dilma Rousseff (a Presidente em exercício), por Lula da Silva (o Presidente de fato) e pelo Partido dos Trabalhadores.

De acordo com essa abjeta cartilha ideológica, qualquer protesto, ainda que seja de uma inofensiva estudante empunhando um cartaz, só pode ser considerado um ato de violência; as execuções de manifestantes – na sua maioria com um tiro na cabeça – um ato de defesa contra a “traição à pátria”; e a mediação como o inequívoco apoio ao regime “chavista”, liderado por Nicolás Maduro. É o que, cinicamente, Dilma Rousseff qualifica de manutenção da ordem democrática.

Sabotagem na OEA em prol da Unasul
Foi animado por esta postura ideológica que o Brasil votou contra o envio de observadores da OEA (Organização dos Estados Americanos) à Venezuela e se opôs a uma reunião de chanceleres, no âmbito da organização, para debater os eventos naquele país.

Fazendo eco à retórica “chavista”, a diplomacia brasileira justificou sua atitude alegando que uma intervenção da OEA, pela presença dos Estados Unidos nos quadros da organização, poderia agravar os conflitos. Enquanto o Brasil – dito seja de passagem – finge que não vê a presença crescente de cubanos no controle de organismos do Estado venezuelano, inclusive nas Forças Armadas.

Dilma Rousseff apostou, pois, por uma reunião da Unasul – solicitada por Nicolás Maduro – a fim de “mediar” a crise na Venezuela.

O resultado não podia ser outro. A Unasul (União de Nações Sul-Americanas), concebida desde sua origem para apoiar a integração sul-americana bafejada pelo projeto bolivariano, deu respaldo ao regime de Maduro e à chamada Conferência Nacional pela paz, convocada por este último; um simulacro de diálogo montado como arma de propaganda, enquanto o regime prende opositores, sem o devido processo legal, e a Guarda Nacional Bolivariana e os “colectivos” (forças paramilitares e gangues armadas) continuam a perseguir e executar manifestantes nas ruas, e a invadir residências sem qualquer mandato.

Projeto de poder socialista e autoritário
As atitudes da Presidente Dilma Rousseff, e de sua diplomacia, deixam patente que o governo petista é animado – e sempre o foi – por um projeto socialista e autoritário de poder.

No passado muitos repetiam, ardilosamente, que as vias do lulismo eram diversas das do chavismo e que a moderação de Lula continha o radicalismo de Chávez. O tempo se encarregou de demonstrar que o lulo-petismo (hoje na versão Dilma Rousseff) sempre tentou acobertar e salvar em suas crises o “chavismo” (hoje na versão Nicolás Maduro). Quando o regime da Venezuela descamba para a repressão assassina e para a catástrofe econômica, a diplomacia conduzida por Dilma Rousseff e inspirada pela nefasta figura de Marco Aurélio Garcia, tenta cimentar na América do Sul a ditadura do “socialismo do século XXI”, amparada por Cuba, Rússia e China.

Dilma degrada a diplomacia
O jornal O Estado de S. Paulo estampou ontem (13.mar.2014) um editorial inequívoco a este respeito, que gostaria de compartilhar com os leitores deste blog. Seu título: Dilma degrada a diplomacia:

  • A presidente Dilma Rousseff definitivamente rebaixou o Brasil à condição de cúmplice de regimes autoritários na América Latina. Não bastasse a reverência (e o vasto financiamento) à ditadura cubana, Dilma agora manobra para que os atos criminosos do governo de Nicolás Maduro contra seus opositores na Venezuela ganhem verniz de legitimidade política.

    Em vez de honrar as tradições do Itamaraty e cobrar do regime chavista respeito aos direitos humanos e às instituições democráticas, a presidente desidratou a única iniciativa capaz de denunciar, em um importante fórum internacional, a sangrenta repressão na Venezuela, que já matou duas dezenas de pessoas. Mandou o representante do Brasil na Organização dos Estados Americanos (OEA) votar contra o envio de uma missão de observadores à Venezuela e impediu que a entidade reunisse seus chanceleres para discutir a crise.

    Como todos os líderes populistas da região, Dilma considera que a OEA é quintal dos Estados Unidos. O falecido caudilho Hugo Chávez costumava referir-se à organização como "instrumento do imperialismo", entre outros nomes menos simpáticos. Para o governo petista, contaminado pelos ares bolivarianos, uma decisão da OEA sobre a Venezuela poderia ser considerada inoportuna e com potencial para acirrar as tensões. Assim, a título de não melindrar Maduro, premiam-se a brutalidade e a indisposição para o verdadeiro diálogo democrático.

    Manietada pelo Brasil e por seus parceiros bolivarianos, a OEA limitou-se a emitir uma nota cuja anodinia mal disfarça a tentação de apoiar Maduro. O comunicado manifesta "solidariedade" ao presidente e dá "pleno respaldo (...) às iniciativas e aos esforços do governo democraticamente eleito da Venezuela" no "processo de diálogo nacional" - como se fosse autêntica a pantomima a que os chavistas chamam de "Conferência de Paz". Estados Unidos, Canadá e Panamá votaram contra essa nota, pela razão óbvia de ela não refletir os compromissos da OEA com a democracia e os direitos humanos.

    O passo seguinte da manobra, este ainda mais escandaloso, foi convocar uma reunião de chanceleres da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) para acertar o envio de um grupo de "mediadores" para a Venezuela. A Unasul, como se sabe, é instrumento dos governos bolivarianos - desimportante, ela hoje só existe para dar reconhecimento a governos claramente antidemocráticos, em nome de uma certa "integração latino-americana".

    Assim, os tais "mediadores" da Unasul não farão nada além do que deles se espera, isto é, fazer vista grossa às ações violentas de Maduro. Ao anunciar a iniciativa, Dilma explicou, em seu linguajar peculiar, que a ideia é "fazer a interlocução pela construção de um ambiente de acordo, consenso, estabilidade, lá na Venezuela". Ora, que "diálogo" é possível quando não se pretende exercer a necessária pressão diplomática sobre Maduro, que reprime manifestantes usando gangues criminosas e encarcera dissidentes sem o devido processo legal?

    Portanto, a constituição de uma comissão na Unasul para a Venezuela tem o único objetivo de deixar Maduro à vontade, sem ser constrangido a recuar e a ouvir as reivindicações da oposição - que basicamente protesta contra a destruição da Venezuela pelo "socialismo do século 21".

    Percebendo o truque, os oposicionistas venezuelanos trataram de enviar uma carta à Unasul em que pedem aos países-membros que observem os acontecimentos no país "com objetividade" e que a entidade "não seja usada como um instrumento de propaganda". Mas é justamente disso que se trata: se tudo ocorrer conforme o script bolivariano, a Unasul vai respaldar o governo Maduro, revestindo-o de legitimidade - o que, por conseguinte, transforma a oposição em golpista.

    Ao tratar de forma leviana este grave momento, em respeito a interesses que nada têm a ver com a preservação da ordem democrática na região, o Brasil torna-se corresponsável pela consolidação de um regime delinquente.
(A ilustração que encima este post é de uma campanha lançada na Venezuela e que se espalhou pelas redes sociais - twitter: @_calavera_)

segunda-feira, 17 de maio de 2010

“Meu coração está com Dilma”

“Meu coração está com Dilma”

Já não causa estranheza a ninguém a desenvoltura com que o Presidente venezuelano, Hugo Chávez, se intromete na política interna de outros países latino-americanos.

O caso hondurenho
Honduras foi talvez dos casos mais paradigmáticos, com a tentativa protagonizada por Manuel Zelaya de alterar a Constituição do país e perpetuar-se no poder, com o apoio explícito do caudilho venezuelano.

Impedido pelos poderes hondurenhos de prosseguir seu golpe, Zelaya tentou convulsionar o país, articulando hordas de movimentos sociais, orientados de fora por Chávez, e se alojou na embaixada brasileira em Tegucigalpa, transformada em quartel-general de sua tentativa de insurreição, com o beneplácito solícito do governo Lula.

Os jornais noticiam agora que Hugo Chávez se encontrou novamente com Zelaya e que este último foi a Cuba. Que nova surpresa estarão preparando?

Argentina, Bolívia, Equador
Na Argentina a interferência do presidente venezuelano tem sido aberta e envolveu até financiamento, por meios escusos, da campanha eleitoral da atual presidente argentina, Cristina Kirchner.

A Bolívia a bem dizer tornou-se um protetorado de Hugo Chávez. Evo Morales, o presidente boliviano, desloca-se em aeronaves militares venezuelanas. Agentes da petrolífera venezuelana estiveram envolvidos no assalto às instalações da Petrobrás, que Lula definiu como um ato de soberania (!) da Bolívia. E Chávez ameaça até militarmente todo e qualquer um que, a seu ver, “desestabilize” o governo de Morales.

O Equador é outro país cujo presidente, Rafael Correa, segue a cartilha chavista e está sempre pronto a alinhar-se às aventuras e interesses do caudilho venezuelano.

Nicarágua, Peru, Paraguai
Poderia aqui falar da Nicarágua, onde Daniel Ortega tenta consumar um golpe constitucional e lança nas ruas suas turbas dos movimentos sociais (chavistas) para cercar e atacar o Congresso, onde a oposição lhe faz frente.

Poderia ainda mencionar o Peru, o Paraguai – países nos quais Chávez tentou interferir de algum modo no processo político – e a lista não estaria completa.

Na Colômbia a defesa das FARC
No momento, Hugo Chávez interfere de maneira totalmente desabrida no processo eleitoral colombiano, cujo primeiro turno da eleição presidencial ocorre no final deste mês.

Além de acusar de “mafioso” a Juan Manuel Santos, o candidato apoiado por Álvaro Uribe e ex-ministro da Defesa, Chávez lançou uma advertência aos colombianos de que a eleição de Santos manteria a turbulência na região e poderia levar a um conflito entre os dois países. Tudo para defender a sobrevivência das FARC, o grupo narco-terrorista que hoje tem no território venezuelano um verdadeiro santuário.

Onde está a “púdica” Unasul, criação da diplomacia lulo-petista, tão “ciosa” da soberania equatoriana “violada”, quando o exército colombiano, numa operação espetacular, eliminou um dos principais cabecilhas das FARC, Raul Reyes, que se resguardava atrás das linhas fronteiriças, para dali organizar ataques à Colômbia?

Onde está o Presidente Lula, um dos “homens mais influentes do mundo”, segundo a revista Time, para se insurgir contra esta ingerência descabida de Chávez em assuntos internos da Colômbia?

Ninguém ouviu nem ouvirá o Presidente Lula dizer nada.

Nem o Brasil escapa
Mais ainda, Lula permite que Chávez faça o mesmo no Brasil e aproveita a ocasião para elogiar o mandatário venezuelano, menosprezando sua entranhada relação com a ditadura castrista, seu apoio às FARC e a outros grupos terroristas, a perseguição que move a opositores e à imprensa não alinhada com sua ideologia.

Hugo Chávez esteve novamente no Brasil, há cerca de três semanas, e em entrevista declarou seu apoio à candidata de Lula e do PT: “Meu coração está com Dilma. Mando um beijo para você, Dilma”.

A leniência de Lula com a interferência de Chávez no processo eleitoral brasileiro, bem como os elogios feitos ao caudilho venezuelano, indicam insofismavelmente um caminho e uma meta.

Terceiro mandato chavista
Muitos afirmam com ênfase que Lula demonstrou magnanimidade de estadista ao renunciar ao terceiro mandato. É afirmação com a qual não concordo e que, a meu ver, não tem base nos fatos. O Presidente tentou por mais de uma vez, sobretudo através de aliados, lançar o balão do terceiro mandato, mas de todas as vezes esbarrou em uma vigorosa reação de setores da sociedade que o impediram de concretizar seu desígnio, tão ao gosto do chavismo imperante em outros países.

Na impossibilidade de um terceiro mandato, Lula aposta na candidata Dilma Rousseff, uma voluntariosa imposição sua ao PT. E a eventual vitória de Dilma funcionaria como um terceiro mandato oblíquo, cujos contornos chavistas se vão delineando. O PNDH3 é o roteiro. Por isso Hugo Chávez não hesita em dizer que seu coração está com Dilma.

Repito, a interferência do venezuelano no processo político brasileiro é uma afronta, mas também um sinal do tipo de esperança que Chávez e Lula depositam na possível vitória de Dilma Rousseff.

Chavismo cordial
Há dias, Arnaldo Jabor, em sua coluna semanal em O Globo (4.maio.2010) apontou esta meta. O título é significativo, o autor insuspeito: “O chavismo cordial”. São trechos deste artigo que hoje compartilho com os que acompanham o Radar da Mídia.
  • "Dilma Rousseff tem de ser ela mesma. Seu duro passado de militância política lhe deixou um viés de rancor e vingança, justificáveis. Ela tem todo o direito de ser uma típica "tarefeira" da VAR-Palmares, em via de realizar o sonho de sua juventude, se eleita. Ela tende para a estatização da economia, restos de sua formação leninista; ela tem o direito de ser irritadiça, pois o País é irritante mesmo. Seus olhos fuzilam certezas sobre como consertar a pátria amada. Ela pode achar que democracia é "papo para enrolar as massas", ela pode desconfiar dos capitalistas e empresários, ela pode viver gostosamente a volúpia do poder que conquistou, ela pode ignorar a queda do Muro de Berlim, o fim da guerra fria, ela pode amar o Lula, seu símbolo do operário mágico que encarnou na prática a vazia utopia do populismo "revolucionário". Ela pode tudo, mas tem de assumir sua personalidade.

    Meu Deus, como eu entendo a cabeça da Dilma, mesmo sem conhecê-la pessoalmente... Conheci muitas "Dilmas" na minha juventude, quando participei da fé revolucionária de nossa geração. Para as "Dilmas" e "Dirceus" do passado, a democracia é uma instituição "burguesa" (Lenin: "É verdade que a liberdade é preciosa; tão preciosa que precisa ser racionada cuidadosamente"). (...) Nós éramos os fiéis de uma "fé científica", uma espécie de religião da razão praxista, que salvaria o mundo pelo puro desejo político - éramos o "sal da terra", os "sujeitos da história". (...)

    Essa frente unida do autodeslumbramento de Lula com a massa sindicalista pelega quer transformá-la em uma "Dilma" que não existe. Uma nova pessoa, um clone dela mesma. Isto é muito louco. (...)

    A finalidade da faxina que marqueteiros e "pt-psicólogos" fazem na moça é esta: criar alguém que não existe e que nos engane, alguém que pareça o que não é. Afinal, que querem esconder? Querem uma reedição "Dilminha paz e amor"? (...) Dilma é uma loba em pele de cordeiro?

    Isso é grave. O PT não se envergonha de criar uma pessoa artificialmente fabricada em quem devemos votar? Será que seguem ainda a máxima de Lenin: "Uma mentira contada mil vezes vira uma verdade"?

    Querem que ela seja uma sorridente "democrata", uma porta colorida para a invasão da manada de bolchevistas que planejam mudar o País para trás, na contramão da tendência da economia global. Eu os conheço bem... A crescente complexidade da situação mundial na economia e na política os faz desejar um simplismo voluntarista que rima bem com o fundamentalismo islâmico ou com a boçalidade totalitária dos fascistas (...).

    Nesta eleição, não se trata apenas de substituir um nome por outro. Não. O grave é que tramam uma mudança radical na estrutura do governo, uma mutação dentro do Estado democrático. Vamos viver um pleito pretensamente "revolucionário", a tentativa de um Gramsci vulgar (filósofo que dizia que os comunistas devem se infiltrar na democracia para mudá-la). (...)

    Não esqueçamos que o PT combateu o Plano Real até no STF, como fez com a Lei de Responsabilidade Fiscal, assim como não assinou a Constituição de 88. Esse é o PT que quer ficar na era pós-Lula. (...)

    Depois desse "bonapartismo cordial" que o Lula representou até com galhardia, se apropriando da "herança bendita" de FHC, pode haver o início de uma nova fase: o "chavismo cordial". "
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quarta-feira, 28 de abril de 2010

Diálogo e punho de aço

Diálogo e punho de aço



Após uma longa ausência, tenho a alegria de retomar o Radar da Mídia e assim restabelecer este agradável convívio com todos aqueles que acompanham o blog.

Voltar ao Brasil é ocasião para se defrontar com as bizarrices da política externa do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Os agentes desta nova diplomacia ou os engajados com o estilo lulo-petista de governar não cessam de exaltar a “projeção internacional” alcançada pelo Brasil e o próprio presidente Lula, em suas desmedidas palavras, afirma que o País deixou de lado a síndrome de “vira-latas”. Toda essa auto-exaltação é compreensível, pois afinal a propaganda de contornos goebbelianos tornou-se outra grande especialidade deste governo.

Como sempre, os espíritos “equilibrados”, avessos aos embates, em sua ânsia de se acomodar, buscam explicações para as atitudes inexplicáveis do presidente e de sua diplomacia. Para alguns serão meras gafes; para outros, simples inexperiência; para outros ainda, apenas o desejo de contentar alguns radicais do PT. Como se fosse natural jogar com o destino internacional do Brasil, apenas para fazer agradinhos a descontentes, nas filas partidárias.

Estou convicto – e não estou só nesta postura – de que as mais profundas razões que inspiram esta estapafúrdia política externa são ideológicas. E estou convicto disso, entre outros motivos, porque são os próprios mentores dessa política externa que o afirmam.

Lulinha “paz e amor”
Desde que tomou posse em 2002, Lula (bem como seus assessores) avisou que o verdadeiro sentido ideológico do governo petista seria encontrado na política externa. A afirmação é compreensível.

O radicalismo ideológico de Lula sempre assustou a massa da população brasileira. Por isso se tornou necessária internamente uma metamorfose no discurso, no modo de se apresentar e nas metas políticas.

A famosa “carta aos brasileiros” era o passaporte da moderação e numa penada tudo parecia jogado no passado. Dali para a frente só haveria o “lulinha paz e amor”.

A renúncia às metas radicais das propostas econômicas socialistas que tinham feito a marca do PT “atestavam”, também a nível internacional, a moderação de Lula da Silva.

Mas subjacente a esse “lulinha paz e amor” continuou a existir o Lula adepto do socialismo cubano, o Lula cúmplice do chavismo, o Lula simpatizante dos movimentos guerrilheiros, o Lula de um antiamericanismo esquerdista quase doentio, o Lula que tentava projetar as teorias da luta de classes para as relações internacionais, num enfrentamento entre nações ricas e pobres.

E ao longo de quase oito anos o descompasso da política interna e da política externa foi evidente. Moderação aqui, radicalização progressiva lá fora.

Mas é bom não esquecer. Inúmeras vezes, Lula tentou trilhar na política interna a via do radicalismo ideológico, mas invariavelmente a reação de setores dinâmicos da opinião pública o fizeram recuar. A mais recente tentativa é o Plano Nacional dos Direitos Humanos, PNDH 3.

Ao se aproximar o término do mandato de Lula, a diplomacia lulo-petista decidiu extremar ainda mais suas posições. E estamos nisso.

Hipocrisia ideológica
É um desses atos da hipocrisia ideológica da diplomacia lulo-petista que pretendo aqui comentar.

O economista Paulo Nogueira Batista Júnior, alinhado às alas mais radicais do PT, foi nomeado pelo Ministro Mantega como representante brasileiro no Fundo Monetário Internacional (FMI). Nogueira Batista , crítico acérrimo da política econômica do governo Lula, gerou um incidente diplomático com a Colômbia ao demitir a representante do país no órgão. A demissão foi arbitrária e rompeu um acordo diplomático tácito.

Uma primeira contradição chama a atenção. O governo Lula nomeia para um cargo dessa importância um crítico de sua política econômica, o que de si é revelador! A política econômica dita ortodoxa afinal é mantida não por convicção, mas por necessidade e oportunismo político. O coração ideológico do lulo-petismo está nos antípodas dessa mesma política econômica.

A outra contradição diz respeito ao espírito “dialogante” da diplomacia nacional. Nas relações com o Irã dos ayatollahs, Lula diz estar disposto a estender a mão até ao último momento a um regime ditatorial e persecutório, financiador e promotor do terrorismo islâmico e cujas omissões e fraudes no programa nuclear “pacífico” se evidenciam a cada dia.

Também em relação à cruel e já longa ditadura comunista da Coréia do Norte, que mantém todo um país na miséria e utiliza campos de concentração para confinar seus opositores, o presidente afirma que é necessário compreensão e jamais a advertência, a censura ou a condenação. Isto para dar apenas dois exemplos.

Entretanto, em relação à Colômbia, nação irmã, onde vigora o Estado de Direito, onde um governo legítimo exerce suas funções, o tratamento diplomático lulo-petista é bem diverso: o punho de aço.

Diálogo... só às vezes
Entenderam bem a posição “dialogante” da diplomacia de Lula? Só tem uma mão, em relação a regimes de esquerda ou ditatoriais, ou ainda fomentadores do islamo-fascismo.

Ao mesmo tempo que fala em dialogar até ao último minuto com o Irã dos ayatollahs, a diplomacia lulista usa punho de aço contra a nossa vizinha e irmã Colômbia? E por quê?

Por uma razão pura e simples: porque o Presidente Álvaro Uribe, contrariando a tendência suicida de seus predecessores de “dialogarem” com os terroristas das FARC, (fazendo na prática todas as concessões que permitiam ao grupo terrorista ditar suas leis revolucionárias no País), decidiu com grande êxito e com apoio maciço da população usar a política de “tolerância zero” em relação ao terrorismo. Ora, a agonia das FARC desagrada ao lulo-petismo, por suas simpatias ideológicas mais ou menos explícitas com o grupo terrorista.

Viés chavista da política externa
Extraio da revista Veja (21.abr.2010) alguns trechos das declarações de Rodrigo Botero, ex-ministro da Fazenda e grande conhecedor da política latino-americana, a respeito da “grosseria” diplomática que levou ao afastamento da representante colombiana no FMI:
  • "A destituição de María Inés Agudelo por Nogueira Batista viola o acordo de cavalheiros que existe há pelo menos quatro décadas entre o Brasil e a Colômbia. Nunca houve antes um incidente como esse. (...) Foi o rompimento com uma prática saudável de convivência em que se cultiva a tolerância (...). Esse incidente afeta diretamente as relações bilaterais entre os países. Não estamos diante de uma questão meramente burocrática. O Planalto e o Itamaraty devem compreender que a grosseria de Nogueira Batista não colabora em nada para a boa vontade de outros países em relação à política internacional brasileira.

    Nogueira Batista não pode invocar o argumento de incompetência para destituir a colombiana. Agudelo possui mais credenciais acadêmicas que Nogueira Batista. As diferenças de Batista com Agudelo se devem a concepções incompatíveis sobre política econômica. (...) Agora, se bem entendo, as políticas mencionadas são as mesmas que vêm sendo aplicadas com sucesso no Brasil desde os anos 90. Mandar a Washington um representante que execra a política econômica de seu próprio país é uma manifestação clara do realismo mágico latino-americano por parte do governo brasileiro. (...)

    As relações entre Colômbia e Brasil, no FMI, foram tradicionalmente cordiais, baseadas no respeito mútuo. A afronta de Nogueira Batista constitui um desrespeito, um insulto. O governo colombiano notificou o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, de que Nogueira Batista não está autorizado a interferir em assuntos relacionados à Colômbia. (...)

    Existem aspectos desconcertantes na diplomacia brasileira na América Latina. Dou três exemplos recentes. Primeiro, ter declarado que Hugo Chávez é o melhor presidente que a Venezuela teve em 100 anos. Segundo, ter equiparado o preso político e mártir da ditadura cubana Orlando Zapata, falecido na prisão depois de uma greve de fome, a um delinquente comum. Isso é uma indecência, uma obscenidade. O terceiro foi permitir que a Embaixada do Brasil em Honduras servisse de palco para a ópera-bufa encenada por Manuel Zelaya. Além de revelarem falta de profissionalismo diplomático, esses episódios contribuem para a percepção de que a política regional tem um viés a favor do chavismo.

    Minha impressão é que essa aparente esquizofrenia tem uma explicação em função das tensões no interior do PT. Lula teve de repudiar a plataforma de seu partido e adotar uma política econômica ortodoxa. Esse alinhamento exigiu que Lula apaziguasse o descontentamento da extrema esquerda do PT. Como prêmio de consolação, delegou a gestão das relações latino-americanas a personagens como Marco Aurélio Garcia e seus seguidores.

    O Brasil atua como uma potência. De fato, como uma superpotência. No entanto, mesmo as superpotências devem saber lidar com as nações vizinhas. A Colômbia não tem pretensão de ser uma grande potência, mas não é um país insignificante, o qual se possa atropelar. Somos a quarta maior economia da América Latina.

    A Colômbia ocupa um lugar particular na América Latina. Não faz parte do Mercosul e também não pretende participar de projetos como a Telesur e o Banco del Sur. A Colômbia é contra a proposta de substituir a OEA (Organização dos Estados Americanos) por uma organização que exclua o Canadá e os Estados Unidos. Ao contrário de outros países da região, mantivemos o sistema democrático durante as décadas de 70 e 80, quando prevaleciam as ditaduras militares no Cone Sul. O país também não apoiou a invasão argentina às Malvinas, em 1982. A Colômbia atribui importância primordial às relações com Canadá, Estados Unidos e União Europeia, tendo negociado acordos de livre-comércio com esses países. Aos nossos vizinhos que aspiram a encontrar uma fonte de dinamismo comercial e progresso tecnológico no Rio da Prata, desejamos sorte. Mas o interesse colombiano não recomenda seguir seu exemplo. A vontade de discordar da opinião majoritária dos sul-americanos em determinados temas não trará aplausos ao estado colombiano no Foro de São Paulo ou no Movimiento Continental Bolivariano (ambos eventos de esquerda). O custo dessa impopularidade é tolerável." (O realismo mágico do PT no FMI).
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