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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

“Pray for Barcelona!”

“Pray for Barcelona!”


Mais um atentado islâmico, covarde, brutal e cruel. Desta vez em Barcelona, contra transeuntes de várias nacionalidades que, despreocupados, numa ensolarada tarde de Verão, desfrutavam do lazer no famoso calçadão de Las Ramblas, na capital da Catalunha.

Terroristas plenejavam grande atentado
Ao volante de uma van, um terrorista islâmico irrompeu numa corrida louca no calçadão e, ao longo de 500 metros, atropelou a esmo quem estava diante de si, inclusive crianças e bebês. Treze mortos, mais de cem feridos, quinze dos quais em estado grave.

Um segundo ataque, poucas horas depois, se deu em Cambrilis, Tarragona. Um outro veículo, conduzido por terroristas, também foi jogado sobre pedestres, ferindo sete pessoas, uma das quais veio a falecer. A polícia abateu os cinco terroristas.

Na noite anterior aos atentados, uma explosão se dera numa casa em Alcanar. As forças de segurança espanholas crêem que a mesma foi fruto da manipulação de substâncias com as quais os terroristas preparavam um grande atentado com veículos-bomba. Após a falha, improvisaram os ataques da La Rambla e Cambrilis.

Estado Islâmico reivindica
A Catalunha é conhecida pelos serviços secretos europeus como um dos principais centros do terrorismo islâmico. E as ações terroristas de atropelar pedestres repetiram a estratégia dos atentados em Nice, Berlim, Londres, Estocolmo.

A dantesca visão de cadáveres e de corpos feridos jogados na calçada correu o mundo, gerando espanto e confusão. E, evidentemente, tiveram início as reações. As de costume. As indecisões, as dúvidas... sobre aquilo que não é indeciso nem duvidoso. Por fim, o Estado Islâmico reivindicou os atentados como atos de seus “soldados” em solo espanhol.

“Pray for Barcelona”
As páginas das redes sociais começaram a encher-se de fotos com os dizeres “pray for Barcelona”, como já tinha acontecido anteriormente nos diversos atentados: “pray for Nice”, “pray for London”, etc. E, claro, pouco depois não faltariam as flores e as velas no local do massacre.

A prece é algo de muito precioso e até sublime, fora de dúvida. Mas tenho impressão de que essas preces são, muitas vezes, mencionadas com o estado de espírito de certas crises de lágrimas e de soluços humanitários, momentâneos, mas sem maiores consequências: um modo de acalmar a consciência para, logo em seguida, prosseguir no indiferentismo e na rotina do dia-a-dia. Afinal a maneira de fugir da dor é muitas vezes anestesiar-se diante dela; e o meio pode muito bem ser uma prece mecânica e filantrópica.

“Vigiai e orai”
Ora Nosso Senhor, nos momentos que antecederam sua Paixão, ensinou-nos: “Vigiai e orai, para não entrardes em tentação”. “Vigiai e orai”. Este apelo à vigilância, antes mesmo da oração, é uma advertência contra nossa índole despreocupada e bonacheirona, amiga de pactuar, adversa ao esforço e a considerar de frente o mal. Ele nos ensinou, pois, antes de tudo a vigiar, para não entrarmos em tentação, já que o mal não recua diante de nada e não recuou sequer ao matar o Homem-Deus, o Inocente por excelência.

“Vigiai”: diante do mal, todas as desconfianças são rigorosamente necessárias, já que é ele capaz até mesmo das piores infâmias. Contra ele devem empregar-se todas as atitudes preventivas, inclusive de força, conformes à Lei de Deus e dos homens. O otimismo bobo, o não considerar o perigo, o adiar o combate ao mal são verdadeiros crimes de quem não quer vigiar. E nossa oração só atingirá todo o seu fruto se vigiarmos, como nos ensina o Divino Redentor.

Paganismo insolente
Diante do atentado terrorista islâmico de Barcelona não fechemos os olhos, uma vez mais, apelando a uma prece vaga. Tenhamos coragem de ver o perigo, de analisá-lo, de enfrentá-lo com sabedoria e fé. O Islã, que hoje procura o Ocidente para se refugiar de seus próprios fracassos políticos, sociais e econômicos, se manifesta em muitos de seus elementos “como um paganismo insolente, opressivo, xenófobo e com ares racistas”, como com previdente vigilância advertia, em 1943, Plinio Corrêa de Oliveira, em um de seus célebres artigos no “Legionário” (cfr. “Neopaganismo”, 8-8-1943).

Não nos esqueçamos de que o mal é de tal forma ardiloso que não se esquiva sequer de usar suas máquinas de propaganda para tentar justificar os assassinos, diminuir a gravidade dos atos terroristas, escamotear seus fundamentos, enquanto, manipulando palavras e termos “talismãs” – como “islamofobia” – tenta inibir qualquer reação e voltar a desconfiança contra as próprias vítimas da barbárie.

Sim, “pray for Barcelona”. Mas não nos esqueçamos das palavras de Nosso Senhor: “Vigiai e orai”, para que nossas preces não sejam vãs.

* * *

Acabo de receber de um amigo a fotografia da estátua del “Mio Cid”, Rodrigo Díaz de Vivar, o lendário cavaleiro castelhano do século XI que enfrentou os muçulmanos por diversas vezes. Segundo reza a lenda, às vésperas de uma batalha contra os infiéis, “El Cid Campeador” faleceu de ferimentos em seu castelo de Valência. Seus adversários ficaram confiantes pois haviam finalmente matado o El Cid. Entretanto, sua mulher mandou amarrar seu corpo ao cavalo e sua espada a sua mão e o enviou ao campo de batalha. Ao ver El Cid em cima do seu cavalo os muçulmanos fugiram em debandada sendo perseguidos e derrotados pelo exército de Rodrigo.

Numa das faces do pedestal da estátua de “El Cid”, na cidade espanhola de Burgos, está escrito: “O Campeador, levando consigo sempre a vitória, foi, por sua infalível clarividência, pela prudente firmeza de seu caráter, e pela sua heróica bravura, um milagre entre os grandes milagres do Criador”.

Espelhemo-nos no Cid Campeador, um homem que, em relação a si e ao mal, teve uma “infalível clarividência” e foi vitorioso por seguir o conselho do Divino Mestre: “Vigiai e orai, para não entrardes em tentação”!

terça-feira, 30 de maio de 2017

Há precisamente 80 anos

Há precisamente 80 anos


A confusão é a nota predominante na presente situação nacional, delicada e incerta.

Os desvãos corruptos e sujos do projeto de poder lulo-petista estão hoje escancarados diante da Nação.

Cifras bilionárias foram desviadas do erário público, em sofisticados esquemas, com a colaboração de empresários inescrupulosos, que viram seus negócios florescerem numa relação espúria e umbilical com o poder político.

Em nome da “defesa dos pobres”, essas somas irrigaram, aqui e no exterior, os mecanismos de imposição e consolidação do chamado “socialismo do século XXI”, além de terem comprado consciências e subvencionado oportunistas de todos os calibres.

Cumplicidades e complacências
Mas o lulo-petismo contou para seus intentos malignos com a complacência e até a cumplicidade de boa parte do mundo político (inclusive com elementos destacados da chamada “oposição”); não foram apenas parlamentares comprados, mas partidos inteiros “adquiridos”; parte substantiva da imprensa deu seu contributo também ao projeto de poder lulista; inúmeros eclesiásticos (por vezes na surdina) o inspiraram e sustentaram; e a manipulação inescrupulosa da propaganda conquistou muitos desavisados.

As instituições, inclusive a Justiça em seus mais altos órgãos, foram vilipendiadas; foi prostituída a representatividade do regime dito democrático; e a legítima prosperidade econômica, prejudicada.

Abalo sísmico salutar
Um sobressalto salutar, de dimensões imprevistas, levou às ruas de todo o País, por mais de uma vez, milhões de brasileiros. Em manifestações multitudinárias e pacíficas, eles pediam seu País de volta e proclamavam que sua bandeira jamais seria vermelha.

Esse lento mas convicto despertar causou um abalo sísmico e derrubou parte considerável do edifício político-institucional, com destaque para o lulo-petismo, inclusive com o impeachment. Mas a derrocada prossegue.

Nessa derrocada todas as forças parecem querer amparar-se e preocupam-se apenas com o “salve-se quem puder”.

Qual o rumo das presentes encenações?
No momento em que os acontecimentos parecem encaminhar o País para uma eleição indireta para um mandato presidencial tampão – mais um fator complicador da crise – os conchavos são públicos e desavergonhados: forças opostas se conluiam; nos tribunais superiores a aplicação das leis é anunciada à medida do freguês (do réu); os cálculos políticos parecem só visar o livramento dos malfeitores; os que mataram a democracia representativa, como Lula, são chamados por gurus, como FHC, para “salvar” a política; os diversos nomes que circulam para um novo governo parecem ter como única credencial ser inimigos da Lava-Jato; e os “movimentos sociais”, gozando de estranha impunidade, alimentados por clérigos de esquerda, milícias sindicais e políticos inescrupulosos, parecem estar dispostos a “incendiar o País”.

Com estas encenações, para que novos rumos pretendem levar o Brasil os atores da tragicomédia oficial?

E os espectadores? Estes parecem estar com um profundo asco diante de tudo o que se passa e se trama. Desconfiados, eles procuram meios de reagir a tanta incoerência.

Ontem, hoje e sempre
Nos dias que correm, alguns jactam-se de ter antevisto uma situação complexa com uma ou duas semanas de antecedência; outros, com um dois meses; e alguns outros, com um ou dois anos.

E o que dizer de um artigo escrito, há precisamente 80 anos, que parece descrever na sua essência a crise presente? (*)

Quem é capaz de discernir as sinuosidades da alma humana, dissecar as entranhas do jogo político, perscrutar os bastidores do mundo dirigente, este sabe guiar-se na confusão, ontem, hoje e sempre

Convido-os, pois, a ler um artigo publicado por Plinio Corrêa de Oliveira, no jornal O Legionário, precisamente em 30 de Maio de 1937, sob o título A solução Mariana. Exceto por algumas pequenas referências circunstanciais da época, parece ele uma descrição dos dias que correm:

  • Não é nossa intenção tratar, neste artigo, da sucessão presidencial, estabelecendo um cotejo, sob o ponto de vista católico, entre os candidatos que se apresentam para disputar a suprema magistratura da República. Queremos tão somente, à margem dos acontecimentos e sem tomar posição neles, fazer um comentário que se relaciona com os mais altos interesses da vida política do Brasil.

    Há duas espécies de atitudes perante a política: a de ator e a de espectador. Atores são todos os que, direta ou indiretamente, cooperam na preparação dos acontecimentos políticos de que o Brasil está sendo teatro. Uns desempenham o papel de figuras centrais da tragédia - ou da comédia, se quiserem - representando os papéis mais importantes. Outros, são meros comparsas que passam rapidamente pelo palco, para desempenhar uma missão pequena e obscura. Finalmente outros nem aparecem no palco. São os inúmeros empregados que, nos bastidores, levantam o pano, acendem as luzes e cooperam para a manutenção da ordem nas coulisses. Na vida política, esta categoria de gente é representada pelos políticos de 3ª importância, que querem furiosamente algum emprego ou alguma pequena suserania municipal e que, sem aparecer no cenário da política, não deixam de ter certa influência, nos bastidores, sobre o curso da representação.

    Espectadores são os que não têm interesses pessoais relacionados com a política e que, portanto, não cooperam com a representação da tragicomédia. Assistem de longe e do alto. Não lhes preocupa, de maneira nenhuma, o formigar das rivalidades e o choque das vaidades nos bastidores. Só o que lhes desperta interesse é a representação correta da peça e a fiel interpretação dos papéis de cada ator.

    Não nos interessam, neste artigo, os primeiros. Estão com as vistas deslumbradas pela claridade do palco, e com a atenção monopolizada pelos acontecimentos da cena. São incapazes de vislumbrar o que sente o público distante que, na meia obscuridade, os contempla... e os julga.

    O que nos interessa sobremaneira são os espectadores. Porque eles, afinal de contas, são o Brasil. E os atores do palco não são em geral senão inofensivas marionetes que oscilam do centro para a direita ou para a esquerda, não ao sabor de convicções que lhes faltam, mas ao impulso dos dedos que os manejam, e vão desenvolvendo gradualmente um jogo que pode parecer moderno, mas que na realidade é muito velho.

    Que atitude vem tomando este público em matéria de sucessão presidencial? A dizer com franqueza, a primeira impressão que se nota, em todos os brasileiros imparciais, é de asco. Não asco pela pessoa dos candidatos, a quem não queremos negar qualidades. Mas de asco profundo pela instabilidade das atitudes políticas, pela incoerência flagrante e despudorada entre atitudes da maior parte de seus sequazes, hoje, ontem e anteontem. A bem dizer, serão pouquíssimas as correntes políticas que não se encontram, agora, em uma situação que condenariam formalmente há dois ou há três anos atrás. Se um profeta tivesse descrito de antemão as variações que sofreriam as alianças e as hostilidades que existiam, todo o mundo se teria rido dele, acoimando-o de louco. Porque absolutamente não pareceria possível a ninguém que os políticos brasileiros - sobre os quais já não havia, entretanto, grandes ilusões - dessem a seus ressentimentos e a suas simpatias a inconsistência, a mutabilidade, a futilidade de brigas de meninas de colégio; que fossem tão pequeninos na vaidade e tão imensos na ambição, tão corajosos na ganância e tão tímidos no cumprimento do dever.

    Esta nota dolorosa não é privativa de uma das correntes políticas. Encontra-se, pelo contrário, em quase todas. Porque a política brasileira é feita de incoerências.

    * * *

    Qual é o resultado de tudo isto? Não é difícil percebê-lo: agonizam nossas instituições, desprestigiam-se os princípios que até ontem eram convicção política unânime (boa ou má, não vem ao caso discuti-lo) dos brasileiros, e decaem irremediavelmente no conceito público quase todos os homens da geração passada, que o Brasil vinha, se não admirando, ao menos tolerando na administração do País.

    Como conseqüência deste formidável desgaste de homens, de instituições e de idéias, uma grande transformação se prepara. O Brasil aí está, como matéria amorfa, para ser plasmada pela corrente de homens que tenha maior sucesso na tarefa de conquistar o poder em nome de idéias novas.

    Significa isto, em outros termos, que o Brasil está no momento em que deverá tomar nova forma. Se esta forma obedecer à concepção da esquerda, o Brasil será não mais o Reino de Nossa Senhora Aparecida, mas uma China ou um México qualquer. Se a forma for plasmada por mãos direitinhas, erguer-se-á ante nós o receio do estado totalitário, com o qual a Igreja é incompatível.

    Pobre Brasil! Navegando por um mar revolto, parece que está fadado a naufragar de encontro a um destes dois escolhos extremistas: Berlim ou Moscou. Isto, se não se quiser submergir inteiramente no lodaçal do liberalismo.

    Muita gente dirá: entre dois escolhos, convém optar pelo menos mau.

    Mas nós perguntamos: não será a mocidade mariana o braço forte com que Nossa Senhora dotou seu Reino na hora do perigo, para derrubar um e outro escolho, e realizar no Brasil uma política tendo por ideal o Catolicismo, como norma de agir o Catolicismo, e como solução para todos os problemas o Catolicismo? (O Legionário, n.º 246)
(*) Artigo escrito durante a campanha para as eleições presidenciais de 1937. No dia 10 de novembro desse ano Getúlio Vargas anula as eleições, derroga a Constituição de 1934, impõe a "polaca" e proclama a ditadura presidencialista do Estado Novo.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Um imprevisível desfecho para o Estado brasileiro

Um imprevisível desfecho para o Estado brasileiro


Nesta 3ª feira, 29 de novembro, a primeira turma do STF, capitaneada pelo Ministro-ativista, Luís Roberto Barroso, de costas voltadas para o País, atropelando as prerrogativas do Legislativo, espezinhando a Constituição, o Código Penal, o Direito Natural e a Moral, em decisão aberrante abriu as portas para a matança de inocentes até aos três meses.

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Nesta 3ª feira, 29 de novembro, ainda sob o trauma do acidente aéreo com a equipe de futebol da Chapecoense, boa parte da Câmara dos Deputados, após as falsas promessas feitas na coletiva de Domingo pelo presidente Michel Temer, por Renan Calheiros e por Rodrigo Maia, aprovou na calada da noite as tramóias, já apelidadas de AI-5 da corrupção, que visam proteger os destroços da máquina lulo-petista, seu comandante e a banda podre do mundo político que se prostitui nesse esquema de poder.

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Nesta 3ª feira, 29 de novembro, as tropas de choque do lulo-petismo (UNE, MST, etc.), travestidos de “estudantes”, em ações premeditadas e sob o anonimato das máscaras, espalharam o terror em Brasília, invadindo e depredando prédios públicos, jogando coquetéis Molotov na polícia, virando e queimando automóveis, com o apoio explícito de deputados e senadores da esquerda.

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Previsão e advertência
Ao analisar este cenário caótico, lembrei-me de uma previsão e de uma advertência, feita há três décadas.

Como uma antevisão invejável, Plinio Corrêa de Oliveira, em seu livro "Projeto de Constituição angustia o País", apontava os descaminhos de esquerdização para os quais nos conduzia o Brasil de superfície, o Brasil legal, o Brasil de boa parte do mundo político, do mundo acadêmico, do mundo jornalístico, do mundo eclesiástico; e o profundo desacerto que se gestava deste Brasil de superfície com o Brasil profundo, o Brasil real, majoritário, em ascensão, fiel a si próprio e em legítima continuidade com seu passado.

Os eventos desta 3ª feira, 29 de novembro, com tudo o que anunciam, evocam esta análise que passo a transcrever:

  • Convém insistir em que o divórcio entre o País legal e o País real será inevitável. Criar-se-á então uma daquelas situações históricas dramáticas, nas quais a massa da Nação sai de dentro do Estado, e o Estado vive (se é que para ele isto é viver) vazio de conteúdo autenticamente nacional.

    Em outros termos, quando as leis fundamentais que modelam as estruturas e regem a vida de um Estado e de uma sociedade, deixam de ter uma sincronia profunda e vital com os ideais, os anelos e os modos de ser da nação, tudo caminha nesta para o imprevisto. Até para a violência, em circunstâncias inopinadas e catastróficas, sempre possíveis em situações de desacordo, de paixão e de confusão.

    Para onde caminha assim a nação? Para o imprevisível. Por vezes, para soluções sábias e orgânicas que seus dirigentes não souberam encontrar. Por vezes, para a improvisação, a aventura, quiçá o caos. (...)

    É de encontro a todas essas incertezas e riscos que estará exposto a naufragar o Estado brasileiro, desde que a Nação se constitua mansamente, jeitosamente, irremediavelmente à margem de um edifício legal no qual o povo não reconheça qualquer identidade consigo mesmo.

    Que será então do Estado? Como um barco fendido, ele se deixará penetrar pelas águas e se fragmentará em destroços. O que possa acontecer com estes é imprevisível

    (Projeto de Constituição angustia o País, 1987, p. 201).

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Há mais de seis décadas, uma advertência sobre a Federação Europeia

Há mais de seis décadas, uma advertência sobre a Federação Europeia


Choque, surpresa, desolação, foram algumas das palavras utilizadas para definir o espanto que causou em certos meios o resultado do plebiscito sobre a permanência ou não do Reino Unido na União Europeia, e que acabou por dar a vitória ao Brexit (Britain exit), com 52% dos votos.

Como frisou Xavier Vidal-Folch, no jornal El Pais, da Espanha (24.06.2016), a capacidade de sedução deixou de ser sinal de identidade da invenção europeia e, pela primeira vez, a União Europeia não acrescenta um membro ao seu clube, mas, pelo contrário, perde um (cfr. "Con flema británica").

Quem sai é uma das principais nações europeias, até há não muito tempo um grande império colonial, com uma história rica e secular; quem sai é uma potência nuclear, com o mais forte exército europeu, e um assento no Conselho de Segurança da ONU; quem sai é a segunda economia do Continente, com uma monarquia prestigiosa que rege a famosa Commonwealth.

Análise superficial
Boa parte das análises – muitas vezes perpassadas de raivas ideológicas – não vai ao fulcro da questão. Procuram explicações meramente enconômicas ou motivações imediatas e superficiais para um fenômeno essencialmente político, social, cultural e histórico.

Não se busca analisar os fundamentos da construção da Federação Europeia; não se procuram avaliar as vicissitudes, as crises, as transformações e as guinadas sofridas por esse mesmo bloco; não há uma preocupação de entender aquilo que Donald Tusk, o democrata-cristão polonês e atual presidente do Conselho Europeu, exprimiu por estas palavras: “Obcecados com a ideia de uma integração instantânea e total, não reparamos que as pessoas comuns, os cidadãos da Europa, não partilhavam o nosso euro-entusiasmo”.

Advertência incompreendida
Em certas épocas históricas há homens que manifestam um discernimento especial sobre as realidades contingentes e desvendam, por trás de aparências benévolas, os males que eclodirão no futuro. Muitas vezes suas advertências não são ouvidas ou mesmo compreendidas.

Há precisamente 64 anos atrás, Plinio Corrêa de Oliveira, no importante mensário de cultura católica, Catolicismo (fev.1952), fazia uma importante análise e uma séria advertência a respeito da Federação Europeia que começava a nascer, apontando-lhe os males que hoje tornam compreensível uma decisão como a do Brexit. Além disso, elaborava uma reflexão profunda sobre a construção de uma superestrutura internacional desse tipo à luz da História e da Doutrina Católica.

É este artigo, mais atual do que nunca, intitulado "A Federação Europeia à luz da Doutrina Católica", que os convido a ler:
  • "Uma das datas mais importantes deste século é sem dúvida a da reunião de Paris, em que os representantes da França, da Itália, da Alemanha Ocidental, e das pequenas potências do grupo Benelux - Bélgica, Holanda, Luxemburgo - decidiram, em princípio, a constituição da Federação Europeia, com a formação de uma só entidade de Direito Internacional Público, e, conseqüentemente, de um governo comum, a se acrescentar, com o caráter de superestrutura, aos vários governos nacionais.

    Antes da última guerra mundial, passaria por sonhador quem idealizasse tal plano para o século XXI, e por débil mental quem o imaginasse viável para nossos dias. A Europa ainda estava incandescente do ódio franco-alemão que ocasionara o conflito de 1914-1918, e haveria de desempenhar importante papel na deflagração de 1939-1945. Todas as nações europeias, estuantes de vida cultural e econômica própria, marcadas ainda em sua alma pelos ressentimentos, pelas ambições, pelas rivalidades herdadas dos Tempos Modernos, pareciam insusceptíveis de serem englobadas em um todo político por mais vago e frouxo que fosse. Seria necessária a tragédia da segunda guerra mundial e o conseqüente desmantelamento da economia das nações europeias, para que, extenuado o fôlego de sua vida cultural, e sujeitas todas ao risco iminente - e que já dura 7 anos - de uma nova invasão de bárbaros, as doutrinas unitárias encontrassem terreno propício, e o plano de uma Federação Européia se tornasse viável.

    O alcance da fundação dos Estados Unidos da Europa
    O verdadeiro alcance da formação dos Estados Unidos da Europa foi bem definido pelo Sr. Alcide De Gasperi, Presidente do Conselho de Ministros da Itália, que equiparou este acontecimento ao ato pelo qual as colônias inglesas da América do Norte se uniram para constituir uma Federação, e os cantões suíços renunciaram a ser um conglomerado de nações soberanas, para formar um Estado federal. O exemplo norte-americano é sobejamente conhecido. Sabe-se que a Inglaterra tinha na América do Norte treze colônias inteiramente distintas entre si, e ligadas diretamente à metrópole. Tornando-se independentes, deveriam constituir treze nações diferentes. Entretanto, essas colônias preferiram unir-se em uma só nação de caráter federativo. Menos conhecido, mas igualmente significativo, é o exemplo suíço. Quando, depois da queda definitiva de Napoleão em 1815, o Congresso de Viena reorganizou o mapa europeu, fez da Suíça, que era uma nebulosa política formada de numerosos pequenos cantões independentes, dominados cada qual pela respectiva classe dirigente - patriciado urbano ou aristocracia rural - uma Confederação de 22 cantões perfeitamente independentes entre si, e ligados apenas por um “pacto federal” que em última análise não passava de um tratado de aliança e boa vizinhança. A Suíça continuava, pois, a não ser um Estado, mas um conglomerado de Estados. Esta situação só cessou quando, depois de uma série de lutas cruentas, em que as elites locais reagiam contra a centralização, e os católicos gloriosamente ligados no “Sonderbund” procuravam evitar a hegemonia protestante, os partidários da formação de um Estado suíço venceram. Nasceu daí a constituição suíça de 1848 que, sem suprimir os cantões com seus governos locais (à maneira dos Estados norte-americanos, ou brasileiros) incumbidos da direção dos assuntos também locais, colocava os interesses comuns nas mãos de um só governo central, de caráter federativo. A atual República Suíça estava fundada.

    No fenômeno americano, como no suíço, há pois a marcha da independência para a Federação. Os Estados, outrora independentes uns dos outros, passaram a ser simplesmente autônomos, dando lugar à absorção das soberanias locais por um governo central.

    É o que, segundo o “premier” italiano soube claramente exprimir, acaba de ser resolvido na Europa. Entre a França e a Alemanha, a Itália e a Holanda, etc., haverá daqui por diante, não os abismos que até agora existiam, mas apenas a linha demarcatória de interesse quase exclusivamente administrativo, que existe entre Ohio e Massachusets, Rio e São Paulo, ou Lucerna e Friburgo.

    Como se vê, trata-se de um acontecimento imenso. São nações que desaparecem depois de ter enchido o mundo e a História com a irradiação de sua glória... e um novo Estado Federal que aparece, cujo futuro não é fácil de prever.

    Viabilidade do novo plano
    O primeiro obstáculo para a cabal realização do plano - que por enquanto existe apenas no papel, como o Exército do Atlântico e outras coisas que tais - está numa provável guerra mundial. Ninguém pode prever o que sucederá a esta Federação em estado germinativo, ao longo da guerra, e depois dela. Tanto poderá consolidar-se de vez, quanto poderá ser queimada no incêndio, sem que sequer se note o traço de suas cinzas.

    Ainda que façamos abstração da guerra, outras dificuldades aparecerão. Uma Federação que procura passar a esponja sobre tantos séculos de História, evidentemente não pode ser construída só por um grupo de políticos e homens de gabinete, mediante a assinatura de um tratado. É preciso uma longa propaganda junto aos povos federados, para fazer nascer neles a consciência de que, por cima dos blocos nacionais em que se sentem integrados por vínculos que estão na massa do sangue e são fáceis de perceber, paira um todo federal abstrato, que não está na massa do sangue mas apenas na tinta com que se escreveu um tratado. E enquanto esta consciência não se forma é claro que o novo organismo não começou a ter vida natural e real. Não está aí, porém, a verdadeira dificuldade. O homem contemporâneo, despersonalizado, extenuado, desorientado pela confusão reinante, vivendo na dependência mental - à qual tão gostosamente se entrega - da imprensa, do rádio, da televisão etc., pode facilmente ser persuadido de qualquer coisa. Há técnicos que fabricam em sua alma “consciências” de coisas reais ou irreais, que nunca estiveram efetivamente na mentalidade do público, com a desenvoltura com que os cirurgiões enxertam num organismo humano um pedaço de carne, um dedo ou um olho que até aqui lhe foi absolutamente extrínseco. O perigo está antes na formação de correntes nacionalistas em alguns países “federados”. Mas ainda isto não parece viável. Uma humanidade que, dia a dia, se vai tornando mais ávida de alimento, tranqüilidade e prazeres, não é naturalmente propensa a se entusiasmar por si mesma, em favor de nacionalismos de qualquer espécie...

    Assim, pois, resumindo nossa impressão, tudo indica que, exceto uma guerra, nenhum fato natural deterá a constituição da Federação. Tanto mais quanto seus dirigentes já declararam oficialmente que saberão andar passo a passo, montando aos poucos as peças do novo organismo, e começando judiciosamente pelos alicerces.

    A Federação é uma novidade?
    Se se pergunta se é uma novidade a Federação, a resposta deve ser negativa. A Europa já constituiu, em outros tempos, um grande todo de natureza federal, pelo menos no sentido muito amplo e muito genérico da palavra.

    Em 476, o Império Romano do Ocidente deixou de existir. O território europeu, coberto de hordas bárbaras, não possuía Estados definidos e de fronteiras duráveis. Era toda uma efervescência de selvageria, que só foi amainando à medida que a ação dos grandes missionários assegurou, um pouco por toda parte, um início de pujante germinação para a semente evangélica. A esta altura, tornando os costumes menos rudes, a vida menos incerta e turbilhonante, a ignorância menos espessa, estava constituída na Europa um grande conglomerado de povos cristãos que, por sobre todas as suas diversidades naturais, estavam unidos por dois vínculos comuns profundos, nascidos de um grande amor, e de um grande perigo:

    a) - sinceramente, profundamente cristãos, adorando pois em espírito e verdade (e não apenas em palavras e rotina) a Nosso Senhor Jesus Cristo, amavam e desejavam verdadeiramente praticar a Sua Lei, e estavam convictos de sua missão de estender o domínio desta Lei até os últimos confins da terra;

    b) - como fruto desta fé coerente e robusta reinava em todos os espíritos um mesmo modo de conceber o homem, a família, as relações sociais, a dor, a alegria, a glória, a humildade, a inocência, o pecado, a emenda, o perdão, a riqueza, o poder, a nobreza, a coragem, em uma palavra, a vida;

    c) - daí, também, uma forte e substancial unidade de cultura e civilização, a despeito de variantes locais prodigiosamente ricas em cada nação, em cada região, e em cada feudo ou cidade;

    d) - diante da dupla pressão dos sarracenos vindos da África, e dos pagãos vindos do Oriente da Europa, a ideia de um imenso risco comum, em que todos deviam auxiliar a todos, para uma vitória que seria de todos.

    Todo este conjunto de fatores de unidade encontrou seu grande catalisador em Carlos Magno (742-814), que encarnou aos olhos de seus contemporâneos o tipo ideal do soberano cristão, forte, bravo, sábio, justiceiro e paternal, profundamente amante da paz, mas invencível na guerra, considerando sua mais alta missão pôr a força do Estado ao serviço da Igreja para manter a Lei de Cristo em seus reinos, e defender a Cristandade contra seus agressores. Este homem símbolo realizou seus ideais, e quando Leão III, no ano de 800, na Igreja de Latrão, o coroou Imperador Romano do Ocidente, deu o mais alto remate à obra que Carlos Magno estava levando a efeito: ficava constituído, abrangendo toda a Europa cristã, um grande Império, destinado antes de tudo a manter, a defender, a propagar a Fé.

    Este Império durou de 809 a 911. Em 962, o Imperador Othão, o Grande o ressuscitou, dando origem ao Sacro Império Romano Alemão. Assim, com vicissitudes diversas, das quais a mais terrível foi a cisão trágica do protestantismo e a eclosão das tendências nacionalistas, no século XVI, manteve-se pelo menos teoricamente esta grande instituição até 1806, quando Napoleão Bonaparte obrigou Francisco II, o último Imperador Romano Alemão, a aceitar a extinção do Sacro Império, e a assumir o simples título de Imperador da Áustria com o nome de Francisco I.

    Não obstante certos períodos de crise, o Sacro Império teve grandes eras de glória, e sua estrutura serviu de fato para exprimir o ideal cristão de uma grande família de povos, unida à sombra maternal da Igreja, para manter a paz, a Fé, a moral, para defender a Cristandade, e apoiar no mundo inteiro a livre pregação do Evangelho.

    Que pensar da Federação Européia?
    Assim, em princípio, vê-se que a Igreja não se limita a permitir, mas favorece de todo coração as superestruturas internacionais, desde que se proponham um fim lícito. Em essência, pois, só merece aplausos a ideia de aproximar num todo político bem construído, os povos europeus.

    As circunstâncias de momento parecem tornar particularmente oportuna a medida. Diante de um inimigo externo comum, lutando com uma crise econômica internacional, nada mais justo e recomendável do que todas as nações da Europa livre convergirem para lutar e vencer.

    Mas aprovar a ideia em princípio é uma coisa. Aprová-la incondicionalmente, quaisquer que sejam suas aplicações práticas, é outra. E até esta incondicionalidade não podemos chegar.

    Vivemos em uma época de estatização brutal. Tudo se centraliza, se planifica, se artificializa, se tiraniza. Se a Federação europeia entrar por este caminho, aberrará das normas muito sábias do discurso do Papa Pio XII aos dirigentes do movimento internacional em favor de uma Federação Mundial.

    Antes de tudo, devemos fazer sentir que a Igreja é contrária ao desaparecimento de tantas nações para constituir um só todo. Cada nação pode e deve manter-se, dentro de uma estrutura supranacional, viva e definida, com seus limites, seu território, seu governo, sua língua, seus costumes, sua lei, sua índole própria. A Alemanha é uma nação, a França outra, a Itália outra. Se alguém as quisesse fundir como quem joga num cadinho jóias de finíssimo valor, para as transformar num maciço lingote de ouro, inexpressivo, anguloso, vulgar, certamente não agiria segundo as vistas de Deus, que criou uma ordem natural na qual a nação é uma realidade indestrutível. Assim, pois, se a Federação Europeia tomar este caminho, será mais um mal, do que um bem. Deve ela ser a protetora das independências nacionais e não a hidra devoradora das nações. As autoridades federais devem existir para suprir a ação dos governos nacionais em certos assuntos de interesse supranacional; nunca para os eliminar. Sua atuação nunca poderá ter em vista a supressão das características nacionais de alma e cultura, mas antes, na medida do possível, seu robustecimento. Precisamente como no Sacro Império, em que cada nação podia desenvolver-se, dentro da órbita dos interesses legítimos e comuns da Cristandade, segundo a sua índole peculiar, sua capacidade, suas condições, ambientes, etc.

    De outro lado, a estruturação econômica não deve chegar a um planejamento tal, que implique numa supersocialização. Se o socialismo é um mal, sua transposição para o plano superestatal não poderá deixar de ser um mal ainda maior. No Sacro Império, todo penetrado de feudalismo, de regionalismo sadio, de autonomismo municipal, do autonomismo grupal das corporações, Universidades etc., tal perigo só começou a se infiltrar quando apareceu, com os legistas, a semente do socialismo hodierno. Mas os legistas foram sempre uma excrescência na Cristandade, e sua influência coincidiu precisamente com o declínio do verdadeiro ideal cristão do Estado.

    Por fim, permita-se-nos uma afirmação bem franca. Nenhuma sociedade, seja ela doméstica, profissional, recreativa, seja ela Estado, Federação de Estados, ou Império mundial pode produzir frutos estáveis e duráveis se ignorar oficialmente o Homem Deus, a Redenção, o Evangelho, a Lei de Deus, a Santa Igreja, e o Papado. Ocasionalmente, podem alguns de seus frutos ser bons. Mas se forem bons não serão duráveis e, se forem maus, quanto mais duráveis tanto mais nocivos.

    Se a Federação Européia se colocasse à sombra da Igreja, fosse inspirada, animada, vivificada por Ela, o que não se poderia esperar? Mas, ignorando a Igreja como Corpo Místico de Cristo, o que esperar dela?

    Sim, o que esperar dela? Alguns frutos bons, que convém notar e proteger de todos os modos, sem dúvida. Mas como é fundado esperar também outros frutos! E se estes frutos forem amargos, quanto se pode temer que nos aproximemos assim da República Universal cuja realização a maçonaria há tantos séculos prepara?"

segunda-feira, 2 de março de 2015

O Brasil há de vencer; esta fé há de nos salvar!

O Brasil há de vencer; esta fé há de nos salvar!


Tenho por hábito comentar neste blog Radar da Mídia notícias ou análises estampadas na imprensa. Hoje, após me debruçar sobre a imprensa diária e constatar o quadro crescentemente tumultuado da situação nacional, ocorreu-me trazer para a consideração de todos um outro texto.

De norte a sul do País se alastra um sentimento de inconformidade com a esquerda no poder. A sociedade, como um todo, vai rechaçando um projeto de poder autoritário que, por todos os meios, lícitos e ilícitos, se lhe tentou impor. Num primeiro momento, o Brasil distanciou-se da esquerda; depois ficou ressentido; e, por fim, furioso.

O comunismo se engana com o Brasil...
Em 1978, quando se assinalava mais um aniversário da revolução comunista na Rússia, Plinio Corrêa de Oliveira – esse grande líder católico, anti-comunista – alertava sobre a ameaça de um futuro perigo comunista para o Brasil, bem como sobre as ilusões que a esquerda alimentava em relação ao País e a seu povo; mas alertava também a respeito das ilusões que muitos brasileiros, imprevidentes, alimentavam em relação ao comunismo: “O comunismo se engana com o Brasil, mas eu devo acrescentar que o Brasil se engana com o comunismo”! Entretanto, acrescentava convicto: O comunismo não tomará conta do Brasil. Nossa fé em Nosso Senhor Jesus Cristo, simbolizada no Cristo Redentor, há de nos salvar!

Suas palavras de militância e de fé, carregadas de senso profético, parecem mais atuais do que nunca, motivo pelo qual aqui as transcrevo:

O Brasil há de vencer!
"Pelo brilho desta solenidade [em honra das vítimas do comunismo] eu vejo afirmada mais uma vez uma convicção que eu tenho há muito tempo e é que, a respeito do Brasil, os comunistas se enganam. Eles têm talvez a impressão de que eles poderão tomar conta facilmente do Brasil e não é verdade. Há pujanças anticomunistas no Brasil muito maiores do que eles supõem. Os senhores são uma expressão local de um fato imenso que se estende – para usar o Hino das Congregações Marianas – "do Prata ao Amazonas, do mar às cordilheiras".

Realmente, meus caros, o nosso povo é um povo muito inteligente, é um povo ao mesmo tempo muito cordato e muito pacífico, que tem no mais alto grau o senso da improvisação, e que muitas vezes vê vir de longe o perigo, e o vê chegar com o olho manso, com atitudes displicentes, com a cara despreocupada de quem não vê. Por causa disso dá a impressão de que nada fará, mas quando esse povo se sente de fato a ameaçado, ele sabe levantar-se como um só homem e sabe dar o revide à agressão comunista.

Realmente, meus caros, o comunismo se engana com o Brasil, mas eu devo acrescentar que o Brasil se engana com o comunismo. Pelo menos muitos brasileiros se enganam com o comunismo se pensam que em relação a esse inimigo, ultra adestrado, solerte, falso, especializado em aproveitar as menores circunstâncias para desferir seu ataque, valem as velhas contemporizações, cheias da simpática bonomia de outrora. Nós não estamos diante de um adversário qualquer, mas é de uma onça, de uma onça ardilosa que nos pega na noite no meio das trevas, no meio da selva, para nos devorar; que nos pega talvez nas ilusões de nossa bonomia e que nos cria em determinado momento certa situação consumada, que com previsão, com articulação, com energia, nós poderíamos ter evitado.

O comunismo não tomará conta do Brasil – eu creio nisso realmente – pela inteligência, pela força, pela fé do povo brasileiro. Mas quanto isto pode custar se o povo brasileiro não for previdente! Às nossas qualidades naturais falta a previdência, falta aquele senso de luta continuamente mobilizado e a disposição de intervir em todas as ocasiões difíceis, numa época dura e difícil como a nossa. É preciso estar de sobreaviso a respeito de tudo para não ser derrotado. A condição da vitória não é apenas a coragem, é mais do que a coragem: é a previsão, é a luta oferecida no primeiro momento, é a defesa oferecida na primeira circunstância que for necessária. É isto que é indispensável para que o Brasil vença o adversário enorme que tem diante de si. Adversário que tem porte mundial, que está fazendo estremecer todas as nações da terra.

Meus caros, nós devemos caminhar para esta perspectiva com mais audácia, com mais previsão, com mais senso de luta do que nunca, e é para esse senso de luta que eu vos conclamo associado a um ato de fé!

A imagem de Nossa Senhora de Fátima aqui está nesta soleníssima reunião. A imagem de Nossa Senhora de Fátima que em 1917 apareceu em Portugal, na Cova da Iria, precavendo o mundo contra os castigos que viriam e, antes ainda da queda do tzarismo, prevendo que a Rússia espalharia seus erros por toda parte.

O fato concreto é que desde 1917 nós estamos avisados. Nós não podemos nos deixar tomar de improviso, nós temos que abandonar a nossa posição daquele laissez faire tradicional do bom temperamento antigo brasileiro. E a militância anticomunista tem que marcar cada vez mais a nossa presença por toda parte.

A fé prevê não só o que é terreno mas o que é extraterreno também, e faz-nos prever títulos e razões de esperar e de vitória nas circunstâncias mesmo mais difíceis e mais penosas com que talvez nos defrontemos no futuro.

Eu não posso me esquecer a noite em que eu estava no Rio de Janeiro, noite em que a neblina levantada do mar cercava a estátua de Cristo Redentor no Corcovado. Não posso me esquecer que tinha os olhos fixados naquilo: durante algum tempo era apenas um foco de luz no qual eu não discernia nada; em determinado momento, batia o vento, fazia-se um pouco de claridade, eu percebia um dos braços e uma das mãos do Cristo Redentor, iluminado com aquela luminosidade especial, que a pedra sabão de que é revestido o monumento absorve a luz que sobre ele se projeta.

Pouco depois o vento batia e era a face do Cristo Redentor que aparecia, era o seu peito onde pulsa o seu Sagrado Coração, mais adiante eram os seus pés divinos que todos nós gostaríamos de oscular, mas eu prestava atenção, prestava atenção… em nenhum momento, por mais densas que fossem as névoas, a luz deixava de encontrar um certo ponto de apoio no monumento, de maneira que apenas sendo uma luz fixa sobre uma silhueta ou sobre uma mão que protege, uma mão que abençoa, um coração que palpita de amor, ou uma face que contempla com solicitude, em nenhum momento a neblina conseguiu apagar a figura do Redentor.

Esta é a fé com que nós caminhamos para o futuro, quaisquer que sejam as circunstâncias. Poderá ser que provações muito difíceis toldem dos nossos olhos as perspectivas da vitória, pode ser que circunstâncias imprevistas coloquem para nós problemas que hoje não são os nossos. Mas, para além das névoas, para além de tudo aquilo que pode tapar a verdade, no horizonte visual do brasileiro há algo que nada tira: é a imagem do Cristo Redentor, a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo. Esta fé há de nos salvar!

Meus caros, o Brasil há de vencer qualquer que seja a situação, e é rumo a esta vitória que todos caminhamos com o passo resoluto e a alma cheia de fé".

(Trechos da conferência pública proferida no Hotel Hilton, em São Paulo, a 17 de Outubro de 1978).

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Desonesta, falsa, indecisa

Desonesta, falsa, indecisa


Está na memória de todos o momento em que o País passou a acompanhar o escrutínio do segundo turno da disputa eleitoral para Presidente. A estranheza se estabeleceu em inúmeros espíritos. A apuração decorrera em absoluto sigilo até que estivessem computados quase 90% dos votos. O que para muitos parecia impossível, confirmava-se: Dilma Rousseff seria reeleita.

O choque veio somar-se a uma campanha eleitoral muito disputada, com reviravoltas impressionantes, lances trágicos, com uma violência verbal desmedida e uma avalanche de mentiras e de ameaças inaudita.

Vitória de Pirro
A vitória de Dilma foi por bem pequena margem. Muitos a classificaram como vitória de Pirro.

Tive oportunidade de fazer palestras em que analisei, com dados, os resultados das eleições. Nelas demonstrei que:

- o PT não representa metade do País, mas é um partido minoritário que, com conchavos e alianças e uma base aliada titubeante, conseguiu mais um mandato presidencial;

- o PT, além de minoritário, é uma força declinante, o que se revelou na sua grande perda de parlamentares em todos os níveis;

- não há um País dividido ao meio, mas uma minoria grande (38% do total de eleitores) que elegeu a presidente, por muitas razões sem conteúdo ideológico;

- a densidade ideológica revelada pelos eleitores que votaram no candidato da oposição era muito mais acentuada;

- a principal força política que emergiu das urnas foi o antipetismo, que não concorreu oficialmente às eleições numa agremiação política.

Fruto envenenado
Por isso tive também oportunidade de acentuar que a vitória de Dilma além de ser uma vitória de Pirro, era um fruto envenenado e que logo se voltaria contra a vitoriosa (Dilma), contra seu partido (PT) e contra seu mentor (Lula).

Passou-se pouco mais de um mês da posse de Dilma e o desastre político se configura no horizonte, com o antipetismo se alastrando pela sociedade. O estelionato eleitoral praticado pelos marqueteiros do PT ficou patente. Dilma enganou e mentiu nos números da economia, acusou os outros de quererem tomar as medidas que ela está tomando agora, convidou para um diálogo que não ocorreu, tentou inverter os escândalos da máquina de corrupção petista.

É fácil, com doses cavalares de propaganda enganosa (coadjuvados pelos misteriosos métodos do voto eletrônico e da apuração sigilosa), vencer uma eleição. O problema é mudar a realidade do País e da sociedade.

A esquerda perde a batalha da popularidade
Reinaldo Azevedo escrevia há dias no seu blog: “Eu anuncio aqui a morte da sociedade sonhada pelos petralhas”.

Sim, o lulo-petismo, bafejado por todas as máquinas burguesas da propaganda, quis assaltar o poder e conformar a sociedade a sua ideologia, mas a sociedade o rejeitou. E essa rejeição é a realidade mais profunda da atual situação política.

Como bem assinalou Plinio Corrêa de Oliveira, a esquerda sempre se enganou com o Brasil, não soube auscultar as camadas profundas da sociedade que, por vezes, podem ser ludibriadas, mas quase nunca são conquistadas pelos seus delírios ideológicos:

“Se a esquerda for açodada na efetivação das reivindicações ´populares´ e niveladoras com que subiu ao poder; se se mostrar abespinhada e ácida ao receber as críticas da oposição; se for persecutória através do mesquinho casuísmo legislativo, da picuinha administrativa ou da devastação policialesca dos adversários, o Brasil se sentirá frustrado na sua apetência de um regime bon enfant, de uma vida distendida e despreocupada. Num primeiro momento, distanciar-se-á então da esquerda. Depois ficará ressentido. E, por fim, furioso. A esquerda terá perdido a partida da popularidade” (Cuidado com os pacatos, Folha de S. Paulo, 14.12.82).

A esquerda petista perdeu a batalha da popularidade. O desprestígio de Dilma, de Lula e do PT está nas ruas. Agora até as pesquisas de opinião constatam aquilo que há muito se observa.

Com ferro foi ferida
Convido-os a ler o artigo de Dora Kramer, publicado no jornal O Estado de S. Paulo (10.Fev.2015), intitulado Com ferro foi ferida:

  • "A notícia de que a perplexidade tomou conta do Palácio do Planalto com a derrocada dos índices de popularidade e confiabilidade da presidente da República é prima irmã daquela irritabilidade que recai sobre a pessoa de Dilma Rousseff quando algum fato tem repercussão negativa na opinião pública.

    Ambas são versões oficiais destinadas a criar um espaço de prudente (embora falsa) distância entre ela e a má nova. Ou velha, tanto faz. Algum ato de governo pegou mal? "Dilma ficou muito irritada", avisa a assessoria.

    O brasileiro não gostou de constatar que Dilma mentiu na campanha eleitoral a respeito de rigorosamente todos os principais temas em debate com os oponentes? Mais que depressa o departamento de propaganda do governo informa que foi um choque para ela saber disso.

    Ora por quem sois. A pesquisa do Instituto Datafolha explicitou em números uma realidade que os fatos estavam contando por si todos os dias. Ou alguém no Palácio do Planalto poderia esperar algo de diferente quando uma presidente da República recentemente reeleita simplesmente some de cena enquanto são anunciadas medidas que, segundo a candidata a conquistar votos, não seriam tomadas em hipótese alguma?

    Ou, por outra, seriam impostas cruelmente ao País caso o eleitorado optasse por escolher um de seus adversários. Qualquer um dos dois, Marina Silva ou Aécio Neves, seriam os culpados por graves agruras. Ela, Dilma Rousseff, seria o caminho das soluções. Note-se o silêncio pós posse que contrariou até o discurso da noite da vitória em que ela conclamava a Nação à união e ao "diálogo".

    Daí em diante não explicou mais nada. Quando falou, limitou-se a monólogos fantasiosos seguindo a mesma toada da agenda ilusória montada para a campanha eleitoral. A roubalheira na Petrobrás era culpa de um ou outro funcionário; a crise econômica, decorrência da situação internacional; a inflação, inexistente e o que mais não vá bem, produto de pessimismo.

    Deixou o ponto crucial que era o ajuste na economia ao encargo do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, como quem tenta se preservar e aqui de novo, se distanciar da má notícia. Deu a seguinte impressão: se sair errado, a culpa é dele.

    A se acreditar que a presidente da República e seu grupo fechado de conselheiros foram realmente pegos de surpresa com o efeito dessa conjunção de desastres nem todos citados, pois de conhecimento geral, é de se concluir pela gravidade da situação de isolamento total do núcleo governante.

    Não há no tão competente departamento de comunicação governamental um acompanhamento permanente de pesquisas? E aquela consulta que o PT anunciou que contrataria para detectar as razões do claudicante desempenho eleitoral? Dela nunca mais se ouviu falar.

    A julgar pela reação improvisada e repetitiva do anúncio da montagem de uma "agenda positiva" como se a agenda negativa não fosse fruto do choque de ações do governo com a agenda ilusória da campanha, há um apagão de sensatez no Palácio do Planalto. Ou um surto de ingênua credulidade no poder eterno do ilusionismo.

    E ausência de noção de limite. João Santana, o marqueteiro, extrapolou, exagerou e ganhou a eleição. Entregou a mercadoria. O dia seguinte é serviço de quem ganhou. Há um dado terrível para a presidente na pesquisa do Datafolha: 47%, 54% e 50% dos consultados consideram que ela é desonesta, falsa ou indecisa.

    Produto de quê? Da exacerbada contradição entre o discurso de campanha e as ações logo depois. Portanto, talvez não seja um exagero concluir que, se não tivessem sido tantas e tão flagrantes as mentiras, se a campanha de Dilma não tivesse procurado colocar na boca dos opositores palavras que nunca disseram, possivelmente a crise não atingiria tão gravemente a imagem da presidente".

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O "perigo vermelho"

O “perigo vermelho”



Talvez o título deste artigo leve algum leitor otimista, desavisado ou ingênuo a considerar que, tratar do “perigo vermelho” nos dias que correm, é coisa ultrapassada, sem base séria na realidade.

Afinal, dirá esse hipotético leitor, o comunismo acabou e combatê-lo é exercício supérfluo e anacrônico. Curiosamente, dito seja de passagem, esse mesmo leitor não achará fora de tempo combater o nazismo, embora o regime de Hitler tenha sido deglutido pela história há bem mais tempo. Como um dos fatores mais perniciosos nos debates de idéias são as confusões, aproveito para esclarecer que não sou daqueles que contrapõem o nazismo ao comunismo; pelo contrário acho-os bem próximos, em suas ideologias nefastas e assassinas.

Mas, prossigamos. Aviso, desde já, que o título que encabeça este texto não é meu. Apenas o tomei emprestado de um artigo – que transcreverei a seguir – de autoria de alguém bem conhecido no Brasil e sempre ligado às hostes da esquerda, inclusive da esquerda revolucionária. Logo, alguém bem insuspeito.

Grande equívoco: o fim do comunismo
Um dos maiores equívocos de nossa época é confundir a ruína do mundo soviético com o fim da ideologia comunista. Um fato não implicou o outro. É claro que o desmoronamento do mundo soviético e a queda da Cortina de Ferro acarretaram inegáveis mutações geopolíticas na cena internacional. Mas daí a dizer que a ideologia socialo-comunista se extinguiu e deixou de ser importante, é um engano.

Como bem alertou Plinio Corrêa de Oliveira – um dos mais proeminentes líderes católicos anti-nazistas e anti-comunistas – o comunismo apenas se metamorfoseou.

E os fatos têm se encarregado de confirmar este alerta. Basta olhar para o Continente sul-americano onde a experiência do socialismo do século XXI ameaça fazer alastrar a destruição política, institucional, econômica e social – hoje reinante na Venezuela – a diversas outras nações; ou então constatar como a ditadura comuno-castrista, da ilha-prisão, continua a ser adulada e a servir de paradigma para tanta esquerda latino-americana, inclusive a “esquerda católica”.

A fotografia que encima este texto, uma fotografia de divulgação do PC do B, também fala por si. A Presidente Dilma Rousseff discursa no 13º Congresso do Partido, no final do ano passado. Sob a figura de Lênin e de Marx (na outra ponta do palco), ela saúda os “companheiros” do PC do B, numa tribuna em que uma bandeira comunista vai cobrindo e sobrepujando a bandeira do Brasil.

Crenças socialistas, sonhos bolchevistas
Como afirmei acima, o título que encabeça meu artigo não é meu. É de Arnaldo Jabor. E o artigo escrito por ele, publicado nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo (07.jan.2014), merece ser conhecido, não apenas pelo título, mas pela realidade que descreve sobre a esquerda petista atualmente no poder, seus “sonhos” (pesadelos!) bolchevistas, suas crenças socialistas, seus métodos leninistas e estalinistas e pelas catástrofes às quais nos poderá conduzir esse “perigo vermelho”:

  • " Retiraram o corpo de João Goulart da sepultura para examiná-lo. Coisa deprimente, os legistas examinando ossos de 40 anos atrás para saber se foi envenenado. Mas, havia também algo de um ritual de ressurreição encenada. Jango voltava para a turma que está no poder e que se considera vítima de 1964 até hoje. Só pensam no passado que os “legitima” com nostalgia masoquista de torturas, heranças malditas, ossadas do Araguaia, em vez de fazerem reformas no Estado paralítico e patrimonialista.

    Querem continuar a “luta perdida” daqueles tempos ilusórios. Eu estava lá e vi o absurdo que foi aquela tentativa de “revolução” sem a mais escassa condição objetiva. Acuaram o trêmulo Jango, pois até para subversão precisavam do Governo. Agora, nossos governantes continuam com as mesmas ideias de 50 anos atrás. Ou mais longe. Desde a vitória bolchevique de 1921, os termos, as ilusões são as mesmas. Aplica-se a eles a frase de Talleyrand sobre a volta dos Bourbons ao poder: “Não aprenderam nada e não esqueceram nada”.

    É espantosa a repetição dos erros já cometidos, sob a falácia do grande “teólogo” da História, Hegel, de que as derrotas não passam de “contradições negativas” que levam a novas teses. Esse pensamento justificou e justifica fracassos e massacres por um ideal racional. No PT e em aliados como o PC do B há um clima de janguismo ou mesmo de “brizolismo”, preferência clara da Dilma.

    Brizola sempre foi uma das mais virulentas e tacanhas vozes contrárias ao processo de desestatização.

    Mas, além dessas mímicas brasileiras do bolchevismo, os erros que querem repetir os comunistas já praticavam na época do leninismo e stalinismo: a mesma postura, o mesmo jargão de palavras, de atitudes, de crimes justificados por mentiras ideológicas e estratégias burras. Parafraseando Marx, um espectro ronda o Brasil: a mediocridade ideológica.

    É um perigo grave que pode criar situações irreversíveis a médio prazo, levando o país a uma recessão barra pesada em 2014/15. É necessário alertar a população pensante para esse “perigo vermelho” anacrônico e fácil para cooptar jovens sem cultura política. Pode jogar o Brasil numa inextrincável catástrofe econômica sem volta.

    Um belo exemplo disso foi a recusa do Partido Comunista Alemão a apoiar os socialdemocratas nas eleições contra os nazistas, pois desde1924 Stalin já dizia que os “socialdemocratas eram irmãos gêmeos do fascismo”. Para eles, o “PSDB” da Alemanha era mais perigoso que o nazismo. Hitler ganhou e o resto sabemos.

    Nesta semana li o livro clássico de William Waack “Camaradas”, sobre o que veio antes e depois da intentona comunista de 1935 (livro atualíssimo que devia ser reeditado), e nele fica claro que há a persistência ideológica, linguística, dogmática e paranoica no pensamento bolchevista aqui no Brasil. A visão de mundo que se entrevê na terminologia deles continua igual no linguajar e nas ações sabotadoras dos aloprados ao mensalão — o fanatismo de uma certeza. Para chegar a esse fim ideal, tudo é permitido, como disse Trotsky: “a única virtude moral que temos de ter é a luta pelo comunismo”. Em 4 de junho de 1918, declarou publicamente: “Devemos dar um fim, de uma vez por todas, à fábula acerca do caráter sagrado da vida humana”. Deu no massacre de Kronstadt, em 21.

    No Brasil, a palavra “esquerda” continua o ópio dos intelectuais. Pressupõe uma “substância” que ninguém mais sabe qual é, mas que “fortalece”, enobrece qualquer discurso. O termo é esquivo, encobre erros pavorosos e até justifica massacres. Temos de usar “progressistas e conservadores”.

    Temos de parar de pensar do Geral para o Particular, de Universais para Singularidades. As grandes soluções impossíveis amarram as possíveis. Temos de encerrar reflexões dedutivas e apostar no indutivo. O discurso épico tem de ser substituído por um discurso realista, possível e até pessimista. O pensamento da velha “esquerda” tem de dar lugar a uma reflexão mais testada, mais sociológica, mais cotidiana. Weber em vez de Marx, Sérgio Buarque de Holanda em vez de Caio Prado, Tocqueville em vez de Gramsci.

    Não tem cabimento ler Marx durante 40 anos e aplicá-lo como um emplastro salvador sobre nossa realidade patrimonialista e oligárquica.

    De cara, temos de assumir o fracasso do socialismo real. Quem tem peito? Como abrir mão deste dogma de fé religiosa? A palavra “socialismo” nos amarra a um “fim” obrigatório, como se tivéssemos que pegar um ônibus até o final da linha, ignorando atalhos e caminhos novos.

    A verdade tem de ser enfrentada: infelizmente ou não, inexiste no mundo atual alternativa ao capitalismo. Isso é o óbvio. Digo e repito: uma “nova esquerda” tem de acabar com a fé e a esperança — trabalhar no mundo do não sentido, procurar caminhos, sem saber para onde vai.

    No Brasil, temos de esquecer categorias ideológicas clássicas e alistar Freud na análise das militâncias. Levar em conta a falibilidade do humano, a mediocridade que se escondia debaixo dos bigodudos “defensores do povo” que tomaram os 100 mil cargos no Estado.

    Além de “aventureirismo”, “vacilações pequeno burguesas”, “obreirismo”, “sectarismo”, “democracia burguesa,” “fins justificando meios”, “luta de classes imutável” e outros caracteres leninistas temos de utilizar conceitos como narcisismo, voluntarismo, onipotência, paranoia, burrice, nas análises mentais dos “militantes imaginários”.

    Baudrillard profetizou há 20 anos: “O comunismo hoje desintegrado tornou-se viral, capaz de contaminar o mundo inteiro, não através da ideologia nem do seu modelo de funcionamento, mas através do seu modelo de des-funcionamento e da desestruturação brutal”, (vide o novo eixo do mal da A. Latina).

    Sem programa e incompetentes, os neobolcheviques só sabem avacalhar as instituições democráticas, com alguns picaretas-sábios deitando “teoria” (Zizek e outros). Somos vítimas de um desequilíbrio psíquico. Muito mais que “de esquerda” ou “ex-heróis guerrilheiros” há muito psicopata e paranoico simplório. Esta crise não é só politica — é psiquiátrica. "

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Improvisação, aventura e caos


É fácil aperceber-se que o Brasil atravessa um período de instabilidade política acentuada. As manifestações que encheram as ruas de grandes capitais, como de cidades médias e até pequenas, em todo o território nacional, são apenas um dos sintomas da presente situação.

Acúmulo de fatores de incompreensão
Com a ascensão de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência, a esquerda petista submeteu o País a um projeto de poder que, ao longo dos anos, foi acumulando fatores de incompreensão e de indignação, em muitos daqueles mesmos que acreditaram nas arengas da “ética”, da “transparência”, da política renovada e viram nelas um arejamento da vida pública.

O lulo-petismo (hoje na versão Dilma Rousseff) não compreendeu, entretanto, que as suas vitórias – tocadas a doses cavalares de propaganda e assistencialismo – não significavam uma adesão de boa parte do eleitorado às reivindicações progressistas e niveladoras de sua ideologia.

Coadjuvados em boa medida pela chamada “esquerda católica”, açodaram-se em impor sua agenda ideológica, em subjugar as instituições, em desvelar seus intuitos persecutórios contra quem se lhes opusesse e em tudo fazer para se perpetuarem no poder.

A grande maioria da população, marcadamente centrista, foi sentindo-se frustrada em suas apetências de uma vida distendida e despreocupada. Primeiro distanciou-se do lulo-petismo; e, a cada dia mais, vai-se mostrando ressentida com ele, ainda quando não esteja nas ruas a manifestar-se.

Improvisação, aventura e caos
A propósito das recentes manifestações, que repercutiram intensamente no Brasil e no exterior, o Príncipe Dom Bertrand de Orleans e Bragança escreveu um esclarecedor artigo, intitulado Improvisação, aventura e caos. Convido-os, pois, a lerem a íntegra do artigo publicado na Folha de S. Paulo (19.jul.2013):

  • "O Brasil vive um momento de incertezas, que parece rumar para a improvisação, a aventura e quiçá o caos.

    Em todo o mundo, grupos revolucionários, de diversos matizes de esquerda, buscam ressurgir das cinzas de suas falidas ideologias e capitanear anseios ou descontentamentos populares – por vezes autênticos – investindo contra “tudo o que aí está”: as estruturas do Estado, da política e da sociedade. Iludindo incautos, visam uma democracia direta das ruas, pela qual minorias de ativistas radicais imponham à sociedade e às autoridades (acuadas ou coniventes) um difuso despotismo, contrário à propriedade privada, destruidor da família, propugnador de estilos de vida alternativos e com notas crescentes de militância anticristã. Movimentos como o Occupy Wall Street ou os chamados “indignados” na Espanha são disso exemplos recentes.

    Os 20 centavos das passagens de ônibus urbanos foram o estopim para que, no Brasil, grupos desse naipe (como o MPL, originário dos Fóruns Sociais Mundiais) articulassem mobilizações que rapidamente degeneraram em agressões e atos de violência. Sem qualquer representatividade social, foram, porém, erigidos em “voz das ruas”, por considerável parte da mídia e escolhidos como interlocutores oficiais, num jogo de prestidigitação político-ideológica.

    Entretanto, a realidade no Brasil é sempre mais complexa do que a imaginam certos profissionais do caos. Tais ondas de choque vieram de encontro a um difuso, calado, mas autêntico e profundo descontentamento que, de há muito, fermenta na opinião pública. O que mudou, em boa medida, a conformação das manifestações de rua.

    Em nossa cambaleante democracia, os anelos reais do “homem da rua” há muito são ignorados pelo mundo político, e os debates sobre temas de interesse nacional, bem como os processos eleitorais reduzidos a cambalachos de bastidores.

    Imaginando equivocadamente que a opinião pública nacional anseia por instituições e leis acentuadamente progressistas, sucessivos governos – e mais acentuadamente os governos petistas – foram arrastando o Brasil para uma esquerdização dissolvente. Tal esquerdização foi somando fatores de inconformidade no Brasil real, nesse Brasil em ascensão, que labuta e produz, que quer ser autenticamente brasileiro, em continuidade com seus valores e seu passado.

    Já em 1987, prestes a ser aprovada a nova Constituinte, Plinio Corrêa de Oliveira alertava, aos que de futuro atuassem na vida pública, para o divórcio que se gestava entre o País legal e o País real: “Criar-se-á então uma daquelas situações históricas dramáticas, nas quais a massa da Nação sai de dentro do Estado, e o Estado vive (se é que para ele isto é viver) vazio de conteúdo autenticamente nacional. Em outros termos, quando as leis fundamentais que modelam as estruturas e regem a vida de um Estado e de uma sociedade, deixam de ter uma sincronia profunda e vital com os ideais, os anelos e os modos de ser da nação, tudo caminha nesta para o imprevisto. Até para a violência, em circunstâncias inopinadas e catastróficas, sempre possíveis em situações de desacordo, de paixão e de confusão” (Projeto de Constituição angustia o País, p. 201).

    Por um fenômeno mais psicológico do que ideológico, a imensa maioria de nossos conterrâneos quer segurança e não aventuras. Mas a determinação do Governo parece ser a de incrementar o processo de esquerdização autoritária. Propagandisticamente pode dar certo distorcer a realidade que vive o País, mas no fundo das mentalidades só se agravará o divórcio entre o País legal e o País real."

sábado, 16 de março de 2013

“Onde houver erro, que eu leve a verdade...”

“Onde houver erro, que eu leve a verdade...” (*)


O orbe católico experimentou, uma vez mais, no último dia 13, o júbilo do “habemus Papam”.

A noite já descera sobre a Praça de São Pedro e uma multidão detinha sua atenção, com expectativa, na chaminé da Capela Sistina, de onde, pouco após as 19 h, surgiu a “fumata bianca”, a indicar que o Colégio Cardinalício indigitara um novo Sumo Pontífice.

A partir de então um clima de alegria e expectativa se espalhou, não só entre a multidão que enchia a Praça, mas entre milhões de católicos pelo mundo que aguardavam o momento de saber sobre quem recaíra a escolha.

A surpresa tomou conta de muitos, com o anúncio feito pelo Cardeal Touran, pois o escolhido – cujo nome fora antagonista do do Cardeal Ratzinger no anterior Conclave – não se encontrava na lista dos prováveis “papabili”. Jorge Mario Bergoglio, de 76 anos, Arcebispo de Buenos Aires se tornara o Papa Francisco I.

Ao comparecimento do novo Papa na “loggia” de São Pedro, sucedeu-se o clima de entusiasmo próprio a uma eleição papal.

Reflexão
Mas é compreensível que à alegria dos primeiros momentos se siga a reflexão e que os católicos tentem prescrutar os panoramas que o novo pontificado poderá abrir.

Não podemos esquecer que a presente eleição se insere na sequência necessária de um evento de grande repercussão, a renúncia do então Bento XVI: "Dei este passo com plena consciência de sua gravidade e também de sua novidade”.

Antes de concretizar sua renúncia, a 28 de fevereiro, o então Pontífice explanou os graves dramas de que padece hoje a Igreja, destacando que Jesus denunciou a “hipocrisia religiosa”: “O rosto da Igreja é por vezes desfigurado por pecados contra a unidade da Igreja e divisões do corpo eclesiástico”.

Não podemos, pois, permitir que o clima de euforia que cerca esta eleição nos faça olvidar a gravidade da situação que herda o presente Pontífice.

Crise de décadas
Convém ainda recordar que a presente situação é fruto de uma longa crise, a qual, de há muito, atinge a Santa Igreja Católica, a única verdadeira Igreja de Deus, como o apontaram, com palavras severas, os últimos Pontífices.

Paulo VI mencionou a “fumaça de Satanás” que por alguma fissura entrou no templo de Deus; apontou ainda uma “perturbação interior, aguda e complexa” pela qual “a Igreja é golpeada também pelos que dela fazem parte”, numa prática de “autodemolição”.

João Paulo II, por sua vez, referiu-se à confusão reinante entre os cristãos por terem sido difundidas verdadeiras heresias, no campo dogmático e moral, contrastantes com a Verdade revelada e desde sempre ensinada.

Clareza
Diante deste grave quadro, e no início deste pontificado, é natural que em seus corações os fiéis anseiem, de imediato e principalmente, saber o que vai ser feito a respeito da fumaça de Satanás e dos demolidores da barca de Pedro.

Por este motivo decidi compartilhar aqui trechos de um artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, intitulado Clareza e publicado em 1978, na Folha de S. Paulo, quando o Conclave se preparava para escolher um novo Papa.

Os temas nele abordados são actualíssimos, apesar da distância dos anos, pois, se as circunstâncias concretas mudaram, os problemas de fundo continuam essencialmente os mesmos:

  • "Nesta época em que o público tem tanta influência até mesmo nos círculos mais reservados — nesta época em que tanta gente confunde público com publicidade, e imagina candidamente que a face da publicidade exprime sempre a do público — nesta época, enfim, em que tantas vezes um público átono, adormecido, deixa correr os acontecimentos sem entender o clamor publicitário, nem a conduta dos homens públicos, frequentemente hipersensíveis a tal clamor, pergunto: será real que as multidões veem e sentem as coisas como as apresentam tantos dos chamados meios de comunicação social?

    No tocante ao Brasil, como à Igreja, sou levado a responder pela negativa. Deixo aqui de lado o Brasil, pois assim o manda o amor à brevidade. E passo a falar da Igreja.

    Diante do caudal de nomes de candidatos ao Papado que lhe vão sendo apresentados, o povo não quer saber tanto qual o lugar de origem, a idade e a carreira eclesiástica, nem qual a fisionomia deles (fisionomia que cabe, o mais das vezes, em uma das variantes em curso: jovial-risonha, caridosa-tristonha, desgrenhada-frenética, esta última ainda não em voga para cardeais).

    O que o povo quer saber se reduz a esta pergunta principal: Paulo VI anunciou que a Igreja estava sendo vítima de um misterioso “processo de autodemolição” (Alocução de 7-12-68) e que nela penetrara a “fumaça de Satanás” (Alocução de 29-6-72). O falecido Pontífice partiu, pois, para a eternidade com a autodemolição em curso, e a fumaça de Satanás em expansão.

    O que pensará seu sucessor sobre a autodemolição e a fumaça? Como se conduzirá ante uma e outra? Mil outras questões poderiam ser formuladas acerca do novo Papa. Mas as que acabo de considerar primam sobre as demais. Pois quem navega numa barca em meio à pior fumaça, e em companhia de passageiros que vão desconjuntando o madeirame, se interessa de imediato e principalmente em saber o que vai ser feito a respeito da fumaça e dos demolidores da barca. Ora, a Santa Igreja de Deus é a admirável, a nobilíssima, eu quase diria, a adorável Barca de Pedro. É natural que tais perguntas, as formulem, nestes dias, também os passageiros desta Barca.

    São incontáveis os católicos segundo os quais a fumaça e a autodemolição se identificam, a justo título, com duas grandes tendências existentes na Igreja de nossos dias. Uma destas tendências se desenvolve no plano teológico, filosófico e moral. É o progressismo.

    A outra tendência se desenvolve no tríplice plano diplomático, social e econômico. Ela se chama, segundo o ângulo em que é considerada, aproximação com o socialismo e aproximação com o comunismo.

    Se considerarmos que o progressismo é, por sua vez, uma aproximação com os mil aspectos do que se convencionou chamar “mentalidade moderna” (a qual é, até certo ponto, uma ficção a que poucos homens aderem inteiramente, muitos só aderem com restrições e em proporções acentuadamente variáveis, e que não poucos rejeitam), chegamos à conclusão de que o futuro Papa terá seu pontificado essencialmente marcado pela atitude que tomar diante disto que podemos qualificar de dupla aproximação: a) a mundano-publicitária-progressista; b) a socialo-comunista.

    Desculpe-me o leitor os neologismos. Talvez conviesse compô-los de outra maneira. Apresentam-se-me ao correr da pena, e me servem para exprimir fácil e rapidamente o que quero dizer. Poupam, assim, o tempo do leitor, como o meu. Em nossa época, a pressa obtém indulgência para muitas deselegâncias...

    O que pensam dessas aproximações os múltiplos cardeais cujos nomes vão sendo lançados como “papabili”? Como vê cada um deles as correntes rumo às quais esses movimentos de aproximação os convidam? Como hidras que é preciso abater desde logo com o gládio de fogo do Espírito? Como adversárias inteligentes, dúcteis, e talvez um pouco bobas, com as quais é possível conduzir lentas, cômodas e quiçá até cordiais negociações? Como parceiras em uma coexistência, ou mesmo colaboração perfeitamente aceitável, e por alguns lados até simpática? Estas são, entre mil, as perguntas que a maioria dos passageiros da sacrossanta Barca de Pedro gostariam de fazer a cada “papabile”.

    E para estas perguntas, que pairam no ar, o mais das vezes não vejo em torno de mim senão fragmentos de respostas, opacos, viscosos, totalmente insatisfatórios.

    Ora, queiram ou não queiram, quando do alto da loggia de São Pedro for proclamado o nome do novo Papa, e o consueto clamor de alegria se levantar da imensa praça circundada pelas colunatas berninianas, ao mesmo tempo uma muda mas ansiosa interrogação se apresentará aos espíritos. Será o novo sucessor de São Pedro, ante os promotores das aproximações, um batalhador, um negociador, ou um ajeitador?

    E ele, em quem residirá o excelso poder das chaves, cujas decisões são soberanamente independentes dos juízos dos homens, mas cuja missão pastoral não o poderá deixar indiferente às aspirações e necessidades das ovelhas, se perguntará, na hora solene da sua aclamação: qual das três atitudes espera de mim este povo imenso?

    Enquanto aguardamos, na prece ininterrupta, submissa e confiante, esse momento ápice do primeiro encontro estuante de júbilo e carregado de preocupações, resta-nos perguntar: o que deseja a grei fiel?

    Vários, é bem claro, têm sua preferência definida por um papa que tome inteiramente esta ou aquela das atitudes, ante a dúplice aproximação. Classifico-me, todos o sabem, entre os que exultariam com a escolha de um papa combativo como São Gregório VII ou São Pio X. Outros preferem nitidamente um papa “aproximacionista”, como foi em seu tempo Pio VII. E assim por diante.

    Mas a imensa maioria dos fiéis, o que desejará ela?

    À primeira vista, parece apática. Tal apatia será desinteresse? Não o creio.

    O que será então? A meu ver, é a expressão do desconserto respeitoso, e por isso mesmo silencioso, de quem não entende, não concorda e nem ousa discordar.

    Essa imensa maioria, em cujo silêncio me parece discernir traços óbvios de fadiga, angústia e desânimo, deseja de imediato, e antes de tudo, clareza.

    Sim, ela deseja, num silêncio que se vai tornando enfaticamente perplexo, saber sobretudo o que é esta fumaça, quais são os rótulos ideológicos e os instrumentos humanos que servem a Satanás como sprays de tal fumaça, no que consiste a demolição, e como explicar que esta demolição seja, estranhamente, uma autodemolição?

    Não é o que o senhor gostaria de saber, leitor? A senhora, leitora? Pois eu também. E como nós, milhares, milhões, centenas de milhões de católicos.

    E o que há de mais justo, de mais lógico, de mais filial e de mais nobre do que pedirem os filhos da luz, àquele a quem foi dito: “Tu és pedra, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”, pedirem-lhe clareza?"
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(*) Oração de São Francisco

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Paz, mas afinal que paz?

Paz, mas afinal que paz?


O início de um ano é ocasião própria à reflexão, momento de avaliar o que deixamos para trás, de formular anseios, de ponderar apreensões.

É natural que em nossos votos desejemos o melhor e alimentemos esperanças, para nós e para os outros, no ano que entra.

O dito popular “Ano novo, vida nova” é expressão desta realidade esperançosa. Formulamos – ainda que, por vezes, somente no interior de nossos espíritos – propósitos generosos.

Paz, paz, paz
Cumulados pelos inúmeros desencontros, tensões, crises e conflitos que assombram o mundo, há um desejo que se generaliza entre nós: a Paz! Almeja-se a Paz, pede-se a Paz! Fala-se em “construir a Paz”, em sermos “agentes da paz”, fala-se de “solidariedade” como fator da Paz, menciona-se o respeito aos “direitos do homem” como fonte da Paz.

Mas tantas são as interpretações sobre a Paz, tantos os sentidos que se procura dar ao termo que é o caso de nos perguntarmos de que Paz falamos realmente.

Será a Paz apenas o fim das crises, o cessar de qualquer conflito, o fim da efusão de sangue? Será a Paz somente a calmaria e a tranquilidade de nosso existir pessoal ou da sociedade na qual vivemos?

Paz e direitos de Deus
Os costumes modernos vão sofrendo uma inequívoca laicização, uma descristianização acentuada. Em inúmeras sociedades leis de caráter radicalmente anti-cristão vão sendo impostas. As leis de Deus são violadas desinibidamente e tal violação vai sendo consagrada como “direito humano”. Em muitos países, cristãos vão sendo perseguidos, em nome de ideologias ou de crenças religiosas.

Como podem aqueles que se dizem cristãos almejar sinceramente à Paz, se permanecem indiferentes a estas realidades e à violação dos direitos de Deus pela consolidação da injustiça? Como podem falar de “partilha” e “solidariedade” os cristãos se, por exemplo, nada fazem de concreto pelos irmãos de fé que sofrem perseguições, ou se eximem de trabalhar activamente para fazer cessar as iniquidades consagradas em legislações que promovem a morte de inocentes?

Paz com justiça
Reflectir sobre tais questões, no alvorecer de um Novo Ano, parece-me enriquecedor. Pode ajudar-nos realmente a cumprir o ditado “Ano novo, vida nova”, pois saberemos realmente de que Paz falamos e de que modo realmente alcançá-la.

Aos que lêem este blog, junto com meus votos de um bom Ano Novo, convido-os a conhecer uma compilação de dois artigos do grande pensador e homem de acção católico, Plinio Corrêa de Oliveira. Publicados em 29 de dezembro de 1940 e 5 de janeiro de 1941, no jornal Legionário, intitulados respectivamente Justitia  e Opus justitiae pax. São atualíssimas as considerações neles estampadas sobre o importante tema da “paz com justiça”:
  • "Para que se compreenda em que sentido “a paz é fruto da justiça”, é necessário, evidentemente, que se tenha um conceito certo sobre o que seja “paz” e o que seja “justiça. A paz, segundo São Tomás de Aquino, é a tranqüilidade da ordem. A definição do Santo Doutor deixa entrever que há duas espécies de tranqüilidade: a que provém da ordem e a que provém da desordem. Tome-se um adolescente saudável que dorme. Todo o seu físico está em uma ordem perfeita. Todos os órgãos funcionam admiravelmente bem. Nenhuma dor, nenhum mal-estar lhe perturba o repouso. A saúde, que é a ordem do corpo, gera nele uma tranqüilidade física que se traduz freqüentemente pela placidez do sono. Fisicamente, o sono é, para este adolescente, uma situação de paz, pois que é um momento de tranqüilidade gerada pela sua ordem orgânica.

    O mesmo conceito se pode aplicar a um povo. Suponha-se que nele tudo se encontre em ordem: as inteligências, pela posse segura e firme da Verdade que é a Religião Católica; as vontades, pela sua vigorosa adesão à virtude que a Igreja ensina e ajuda a praticar; as sensibilidades, pelo completo domínio a que a sujeitaram a inteligência e a vontade; os corpos, pela existência de um alto padrão coletivo de saúde; a vida econômica, por um perfeito aproveitamento dos abundantes recursos naturais do lugar. Evidentemente, uma grande e benfazeja tranqüilidade reinará sobre toda a sociedade, como fecundo e feliz transbordamento da tranqüilidade interior de cada alma. Esta tranqüilidade completa, decorrente da ordem intelectual, moral e econômica existente no país, é o que se pode chamar paz: será a paz interior. A paz externa se somará a esta, se também as relações do país com outros povos estiverem em ordem. Assim, a paz é realmente a tranqüilidade da ordem.

    Retomemos o exemplo do adolescente. Em dado momento, durante seu sono plácido, alguma perturbação orgânica ocorre: será, por exemplo, uma nevralgia violentíssima. Imediatamente, com a cessação da ordem orgânica, desaparecerá a paz: o sono cessa, e o paciente começa a dar mostras agudas da sua dor. É a desordem, gerando a intranqüilidade. Imagine-se, entretanto, que a dor aumente tanto que chegue a causar um desmaio do paciente: a desordem orgânica terá chegado a seu auge, e a perda dos sentidos e a completa tranqüilidade do desmaio não serão senão a consumação da desordem física. Essa desordem, exatamente por se ter tornado muito aguda e ter com isto suprimido todos os meios de resistência, causará, com a aparente cessação da reação orgânica, uma tranqüilidade profunda. Esta tranqüilidade será o reinado da desordem, será o cúmulo da desordem, será a desordem erigida em soberania absoluta do corpo: ela não será senão uma caricatura da tranqüilidade da ordem.Em suma, o sono do adolescente, tranqüilo e saudável, e o desmaio profundo e perigoso que imaginamos em seguida, estão nos extremos opostos. Nos exemplos que figuramos, o maior bem orgânico do corpo terá sido a tranqüilidade da ordem; a intranqüilidade decorrente da desordem será um mal; mas o mal supremo será sem dúvida a tranqüilidade da desordem, ou seja o desmaio, para não dizer a morte.

    Para resumir: a tranqüilidade da ordem é um grande bem, e só ela merece o nome de paz; a luta gerada pela desordem é um mal incontestável, mas o maior dos males será, certamente, a tranqüilidade da desordem, a tranqüilidade das consciências embrutecidas no vício, dos corpos desmaiados pela moléstia, dos cemitérios onde a morte campeia como soberana, e onde não penetra nada que seja vivo.

    Estes conceitos merecem ser transpostos para o plano internacional. Só merece o nome de verdadeira paz a tranqüilidade decorrente da ordem nas relações entre as nações. E como a ordem supõe obediência a Deus, só haverá ordem internacional quando houver obediência à Lei de Deus nas relações entre os povos.

    Evidentemente, violações da Lei de Deus sempre as houve e sempre as haverá, com freqüência maior ou menor, na História da humanidade. Mas que se transforme a violação em direito, a desordem em hierarquia legítima e permanente, e se arvore como princípio básico e fundamental aquilo que é a negação radical e absoluta de toda a Lei de Deus, há nisto uma desordem monstruosa e profunda, com a tendência de se tornar definitiva, que deve apavorar todo o espírito em que ainda bruxuleiam alguns lampejos, já não direi do senso católico, mas de simples e reta razão natural. Com efeito, o risco a que aludimos não consiste em uma simples injustiça. É na glorificação da injustiça como tal. É na consolidação da injustiça. É na entronização da injustiça como regra fundamental de ação e norma basilar das relações entre os povos.

    A paz internacional será uma paz autêntica se ela for a conseqüência da aplicação dos princípios da Lei de Deus à vida internacional. Realmente, a Lei cumprida gera ordem, e a ordem gera a tranqüilidade, e esta tranqüilidade da ordem será a paz.

    Será uma desgraça, já é agora uma desgraça catastrófica, que a tranqüilidade da ordem seja violada, e que esta violação traga lutas cruentas como aquelas que atualmente assistimos. A humanidade contemporânea pode ser comparada a um homem doente que se contorce tragicamente nos paroxismos da dor. E este espetáculo não pode deixar de concitar à piedade e à prece os espíritos compassivos.

    Mas por mais trágicas que sejam as contorções, por mais pavorosa que seja a intranqüilidade dantesca da desordem a que presenciamos, há um mal ainda maior: é a tranqüilidade da desordem.Realmente, se a moléstia é pior do que a saúde, a morte é pior do que a moléstia. Um mundo que se tranqüilize na desordem, do qual desapareça qualquer reação de vulto contra a desordem cristalizada em instituto de direito internacional, é um mundo mil vezes mais indigente, mais desamparado e mais infeliz do que aquele que ainda dispõe de heróis em que pode confiar, ainda conta com exércitos atrás dos quais se possa escudar, ainda vê luzir, com a esperança de uma próxima vitória do Bem, a possibilidade de uma ordem completa não tardar a reinar.

    E por isso é que cometem um pavoroso atentado contra o senso católico aqueles que, desgovernados por uma sensibilidade mórbida, preferem a paz na abominação e na desordem, em vez de que venha logo a paz com ordem, que todos devemos pedir a Deus.

                                                                      * * *

    Se a paz com justiça é um bem inestimável, a tranqüilidade decorrente da injustiça consumada, e que implique na cessação de qualquer resistência contra os fatores de desagregação da civilização católica, não pode deixar de constituir uma monstruosa catástrofe para o mundo contemporâneo, certamente comparável ao que foi, para a antigüidade romana, a queda do Império do Ocidente.

    Consideremos o sentido corrente do vocábulo, que é ao mesmo tempo seu sentido mais restrito. Não pode haver justiça quando se nega aos povos fracos o direito de existir. Não pode haver justiça quando se afirma que a ordem internacional não deve ser baseada sobre o princípio de igualdade fundamental e natural de todos os povos, mas sobre uma hierarquia anti-científica de raças, que, baseada na apreciação de valores acidentais ou imaginários, deseja fazer com que o mundo inteiro viva para o uso e gozo de um ou de poucos povos, supostos privilegiados. Todos estes conceitos implicam em uma violação radical da verdade, e em uma subversão fundamental da justiça, de modo que a paz baseada sobre eles outra coisa não seria senão a apoteose da injustiça.Mas as injustiças que acabo de me referir não são as mais graves de que o homem é capaz. A violação dos direitos do próximo nunca poderia ser compreendida em toda a sua gravidade se não tivéssemos em mente que ela constitui ao mesmo tempo uma violação dos soberanos e adoráveis direitos de Deus. De todos os seres, nenhum há em relação ao qual o homem tenha direitos tão sagrados como Deus. A diferença entre os direitos de Deus e dos homens se pode medir pela diferença que vai do Criador à mísera criatura. E como a Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, é o Reino de Deus na terra, é o Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo, é a depositária da Verdade, a Arca dos Sacramentos, inestimável obra-prima de Deus, não se pode ferir os direitos de Deus sem implicitamente ferir os da Igreja; e, por outro lado, não se pode ferir os da Igreja sem ferir os de Deus. Jesus Cristo e sua Igreja constituem o Esposo e a Esposa dos cânticos.

    Seus direitos se confundem, e tentar separá-los já é violá-los.

    Assim, se a paz só deve ser desejada pelos fiéis com a condição de que ela respeite os direitos dos homens, a fortiori deve ela parecer sumamente repugnante a qualquer coração verdadeiramente católico, se tiver por base o repúdio dos direitos de Deus.Tenho plena certeza de que muitos leitores, se bem que concordando em tese com o que acabo de dizer, sentem uma certa estranheza à vista da afirmação que faço. Direitos de Deus? Como poderia uma paz violá-los? Que relação pode haver entre uma coisa e outra?

    O assunto é por demais complexo para ser debatido neste artigo.

    Aliás, nem pode ele ser compreendido por quem não o analise com zelo. Todos sabem como o amor de Deus costuma multiplicar os recursos da inteligência e da vontade do homem, de sorte que eles se tornam aptos a compreenderem as coisas com uma clareza e com uma energia por vezes superiores a seus recursos naturais, desde que entre em jogo os sagrados direitos da Santa Igreja. É a estes espíritos que me dirijo.

    Toda a vitória que represente não apenas o triunfo de um país mas de uma ideologia, não somente de um povo, mas de uma filosofia, evidentemente será uma derrota dos católicos, desde que essa ideologia teológica ou filosófica não seja a da Igreja. Assim, qualquer paz que signifique o franqueamento de todas as fronteiras à dissolução de doutrinas que são contrárias às de Jesus Cristo, será por certo uma paz que um católico não pode desejar.
    Poderá alguém sorrir ao ler estas linhas. Qual o valor de nossa contribuição pessoal no curso dos acontecimentos ciclópicos, em que as forças mais poderosas se empenham em luta de morte? Para que, então, tratar deste assunto?

    A resposta é simples. Não há acontecimentos em que não esteja presente a providência de Deus. Não há armas que possam vencer a omnipotência do Criador. E não há graças que a oração não possa alcançar. Em proveito dos supremos interesses de todos os católicos, que são os interesses da Igreja, em benefício dos interesses mais fundamentais e mais sagrados de nosso diletíssimo Brasil, ao par da mobilização de todos os recursos naturais, há sempre a mobilização possível dos recursos sobrenaturias, mais poderosos, mais decisivos, mais importantes do que aqueles.

    Os estadistas de nossos dias confiam apenas nos braços que empunham fuzis. Longe de nós o imaginar que quem quer que seja esteja dispensado de empunhar o fuzil para cumprir seu dever para com a Igreja ou a Pátria. Mas há braços que, não podendo empunhar fuzis, podem empunhar certamente rosários, e os próprios braços que empunham fuzis sentirão, decuplicar suas forças se souberem alternar o manejo da arma e a do Terço.

    Para rezar, somos todos poderosos. Rezemos muito, e sobretudo rezemos bem.

    A Sagrada Liturgia tem uma oração que se pede a Nosso Senhor a graça de conhecermos Sua Vontade, de modo que, pedindo-Lhe coisas que Lhe são agradáveis, consigamos obter o que por nossas preces suplicamos.

    Se queremos a paz, peçamos uma paz conforme o Coração de Jesus. Porque se pedirmos uma paz que não seja a paz com justiça, a paz de Cristo no Reino de Cristo, que esperanças podemos ter de ser atendidos? "
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