sábado, 16 de março de 2013

“Onde houver erro, que eu leve a verdade...”

“Onde houver erro, que eu leve a verdade...” (*)


O orbe católico experimentou, uma vez mais, no último dia 13, o júbilo do “habemus Papam”.

A noite já descera sobre a Praça de São Pedro e uma multidão detinha sua atenção, com expectativa, na chaminé da Capela Sistina, de onde, pouco após as 19 h, surgiu a “fumata bianca”, a indicar que o Colégio Cardinalício indigitara um novo Sumo Pontífice.

A partir de então um clima de alegria e expectativa se espalhou, não só entre a multidão que enchia a Praça, mas entre milhões de católicos pelo mundo que aguardavam o momento de saber sobre quem recaíra a escolha.

A surpresa tomou conta de muitos, com o anúncio feito pelo Cardeal Touran, pois o escolhido – cujo nome fora antagonista do do Cardeal Ratzinger no anterior Conclave – não se encontrava na lista dos prováveis “papabili”. Jorge Mario Bergoglio, de 76 anos, Arcebispo de Buenos Aires se tornara o Papa Francisco I.

Ao comparecimento do novo Papa na “loggia” de São Pedro, sucedeu-se o clima de entusiasmo próprio a uma eleição papal.

Reflexão
Mas é compreensível que à alegria dos primeiros momentos se siga a reflexão e que os católicos tentem prescrutar os panoramas que o novo pontificado poderá abrir.

Não podemos esquecer que a presente eleição se insere na sequência necessária de um evento de grande repercussão, a renúncia do então Bento XVI: "Dei este passo com plena consciência de sua gravidade e também de sua novidade”.

Antes de concretizar sua renúncia, a 28 de fevereiro, o então Pontífice explanou os graves dramas de que padece hoje a Igreja, destacando que Jesus denunciou a “hipocrisia religiosa”: “O rosto da Igreja é por vezes desfigurado por pecados contra a unidade da Igreja e divisões do corpo eclesiástico”.

Não podemos, pois, permitir que o clima de euforia que cerca esta eleição nos faça olvidar a gravidade da situação que herda o presente Pontífice.

Crise de décadas
Convém ainda recordar que a presente situação é fruto de uma longa crise, a qual, de há muito, atinge a Santa Igreja Católica, a única verdadeira Igreja de Deus, como o apontaram, com palavras severas, os últimos Pontífices.

Paulo VI mencionou a “fumaça de Satanás” que por alguma fissura entrou no templo de Deus; apontou ainda uma “perturbação interior, aguda e complexa” pela qual “a Igreja é golpeada também pelos que dela fazem parte”, numa prática de “autodemolição”.

João Paulo II, por sua vez, referiu-se à confusão reinante entre os cristãos por terem sido difundidas verdadeiras heresias, no campo dogmático e moral, contrastantes com a Verdade revelada e desde sempre ensinada.

Clareza
Diante deste grave quadro, e no início deste pontificado, é natural que em seus corações os fiéis anseiem, de imediato e principalmente, saber o que vai ser feito a respeito da fumaça de Satanás e dos demolidores da barca de Pedro.

Por este motivo decidi compartilhar aqui trechos de um artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, intitulado Clareza e publicado em 1978, na Folha de S. Paulo, quando o Conclave se preparava para escolher um novo Papa.

Os temas nele abordados são actualíssimos, apesar da distância dos anos, pois, se as circunstâncias concretas mudaram, os problemas de fundo continuam essencialmente os mesmos:

  • "Nesta época em que o público tem tanta influência até mesmo nos círculos mais reservados — nesta época em que tanta gente confunde público com publicidade, e imagina candidamente que a face da publicidade exprime sempre a do público — nesta época, enfim, em que tantas vezes um público átono, adormecido, deixa correr os acontecimentos sem entender o clamor publicitário, nem a conduta dos homens públicos, frequentemente hipersensíveis a tal clamor, pergunto: será real que as multidões veem e sentem as coisas como as apresentam tantos dos chamados meios de comunicação social?

    No tocante ao Brasil, como à Igreja, sou levado a responder pela negativa. Deixo aqui de lado o Brasil, pois assim o manda o amor à brevidade. E passo a falar da Igreja.

    Diante do caudal de nomes de candidatos ao Papado que lhe vão sendo apresentados, o povo não quer saber tanto qual o lugar de origem, a idade e a carreira eclesiástica, nem qual a fisionomia deles (fisionomia que cabe, o mais das vezes, em uma das variantes em curso: jovial-risonha, caridosa-tristonha, desgrenhada-frenética, esta última ainda não em voga para cardeais).

    O que o povo quer saber se reduz a esta pergunta principal: Paulo VI anunciou que a Igreja estava sendo vítima de um misterioso “processo de autodemolição” (Alocução de 7-12-68) e que nela penetrara a “fumaça de Satanás” (Alocução de 29-6-72). O falecido Pontífice partiu, pois, para a eternidade com a autodemolição em curso, e a fumaça de Satanás em expansão.

    O que pensará seu sucessor sobre a autodemolição e a fumaça? Como se conduzirá ante uma e outra? Mil outras questões poderiam ser formuladas acerca do novo Papa. Mas as que acabo de considerar primam sobre as demais. Pois quem navega numa barca em meio à pior fumaça, e em companhia de passageiros que vão desconjuntando o madeirame, se interessa de imediato e principalmente em saber o que vai ser feito a respeito da fumaça e dos demolidores da barca. Ora, a Santa Igreja de Deus é a admirável, a nobilíssima, eu quase diria, a adorável Barca de Pedro. É natural que tais perguntas, as formulem, nestes dias, também os passageiros desta Barca.

    São incontáveis os católicos segundo os quais a fumaça e a autodemolição se identificam, a justo título, com duas grandes tendências existentes na Igreja de nossos dias. Uma destas tendências se desenvolve no plano teológico, filosófico e moral. É o progressismo.

    A outra tendência se desenvolve no tríplice plano diplomático, social e econômico. Ela se chama, segundo o ângulo em que é considerada, aproximação com o socialismo e aproximação com o comunismo.

    Se considerarmos que o progressismo é, por sua vez, uma aproximação com os mil aspectos do que se convencionou chamar “mentalidade moderna” (a qual é, até certo ponto, uma ficção a que poucos homens aderem inteiramente, muitos só aderem com restrições e em proporções acentuadamente variáveis, e que não poucos rejeitam), chegamos à conclusão de que o futuro Papa terá seu pontificado essencialmente marcado pela atitude que tomar diante disto que podemos qualificar de dupla aproximação: a) a mundano-publicitária-progressista; b) a socialo-comunista.

    Desculpe-me o leitor os neologismos. Talvez conviesse compô-los de outra maneira. Apresentam-se-me ao correr da pena, e me servem para exprimir fácil e rapidamente o que quero dizer. Poupam, assim, o tempo do leitor, como o meu. Em nossa época, a pressa obtém indulgência para muitas deselegâncias...

    O que pensam dessas aproximações os múltiplos cardeais cujos nomes vão sendo lançados como “papabili”? Como vê cada um deles as correntes rumo às quais esses movimentos de aproximação os convidam? Como hidras que é preciso abater desde logo com o gládio de fogo do Espírito? Como adversárias inteligentes, dúcteis, e talvez um pouco bobas, com as quais é possível conduzir lentas, cômodas e quiçá até cordiais negociações? Como parceiras em uma coexistência, ou mesmo colaboração perfeitamente aceitável, e por alguns lados até simpática? Estas são, entre mil, as perguntas que a maioria dos passageiros da sacrossanta Barca de Pedro gostariam de fazer a cada “papabile”.

    E para estas perguntas, que pairam no ar, o mais das vezes não vejo em torno de mim senão fragmentos de respostas, opacos, viscosos, totalmente insatisfatórios.

    Ora, queiram ou não queiram, quando do alto da loggia de São Pedro for proclamado o nome do novo Papa, e o consueto clamor de alegria se levantar da imensa praça circundada pelas colunatas berninianas, ao mesmo tempo uma muda mas ansiosa interrogação se apresentará aos espíritos. Será o novo sucessor de São Pedro, ante os promotores das aproximações, um batalhador, um negociador, ou um ajeitador?

    E ele, em quem residirá o excelso poder das chaves, cujas decisões são soberanamente independentes dos juízos dos homens, mas cuja missão pastoral não o poderá deixar indiferente às aspirações e necessidades das ovelhas, se perguntará, na hora solene da sua aclamação: qual das três atitudes espera de mim este povo imenso?

    Enquanto aguardamos, na prece ininterrupta, submissa e confiante, esse momento ápice do primeiro encontro estuante de júbilo e carregado de preocupações, resta-nos perguntar: o que deseja a grei fiel?

    Vários, é bem claro, têm sua preferência definida por um papa que tome inteiramente esta ou aquela das atitudes, ante a dúplice aproximação. Classifico-me, todos o sabem, entre os que exultariam com a escolha de um papa combativo como São Gregório VII ou São Pio X. Outros preferem nitidamente um papa “aproximacionista”, como foi em seu tempo Pio VII. E assim por diante.

    Mas a imensa maioria dos fiéis, o que desejará ela?

    À primeira vista, parece apática. Tal apatia será desinteresse? Não o creio.

    O que será então? A meu ver, é a expressão do desconserto respeitoso, e por isso mesmo silencioso, de quem não entende, não concorda e nem ousa discordar.

    Essa imensa maioria, em cujo silêncio me parece discernir traços óbvios de fadiga, angústia e desânimo, deseja de imediato, e antes de tudo, clareza.

    Sim, ela deseja, num silêncio que se vai tornando enfaticamente perplexo, saber sobretudo o que é esta fumaça, quais são os rótulos ideológicos e os instrumentos humanos que servem a Satanás como sprays de tal fumaça, no que consiste a demolição, e como explicar que esta demolição seja, estranhamente, uma autodemolição?

    Não é o que o senhor gostaria de saber, leitor? A senhora, leitora? Pois eu também. E como nós, milhares, milhões, centenas de milhões de católicos.

    E o que há de mais justo, de mais lógico, de mais filial e de mais nobre do que pedirem os filhos da luz, àquele a quem foi dito: “Tu és pedra, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”, pedirem-lhe clareza?"
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(*) Oração de São Francisco

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Verdade: a autêntica vítima

Verdade: a autêntica vítima


Seis homens palestinos, suspeitos de colaborar com Israel, foram sumariamente executados em público, no centro da cidade de Gaza. A turba festejou pelas ruas o ato de barbárie e alguns militantes arrastaram o cadáver de uma das vítimas, como se vê nesta fotografia da AFP, estampada em grandes jornais pelo mundo no dia de hoje (21.Nov.2012).

Após dois tiros, uma das vítimas ainda se mexia e acabou sendo morta a socos e pontapés. Muitos filmavam a cena com celulares, enquanto crianças se aproximavam para ver os cadáveres mutilados, informa o enviado da Folha de S. Paulo a Gaza, testemunha ocular do ocorrido.

Vítimas civis
Aguardemos as reações. Será que os grandes defensores do “humanitarismo” serão imparciais e condenarão esse ato tão vil? Eles estão sempre de prontidão, quando Israel se defende de ataques a seu território ou quando responde a atentados terroristas, para falar e apresentar ao mundo as vítimas civis inocentes.

Por que só civis e crianças palestinas são dignas de piedade? Será que os alvos civis israelenses do terrorismo islâmico palestino (sejam eles adultos ou crianças) são alvos legítimos e não merecem os sentimentos “humanitários”?

Inocentes úteis
Lamento constatar que muitos ingênuos (pessoas de boa vontade) se deixam envolver por uma propaganda insidiosa, que tenta justificar o terrorismo de fundo islâmico como uma causa nobre de “oprimidos”. Quem pode confundir os militantes da causa palestina (muitas vezes um eufemismo para terroristas) com o povo palestino? Afinal esta foto é bem reveladora do modo como essa gente trata seu próprio povo.

Por que não se diz que o Hamas tem por costume – covarde – instalar seus postos de comando militar em meio a instalações civis, para que, necessariamente, qualquer ataque contra tais postos gere baixas civis, que alimentem a propaganda “anti-imperialista”? Será que a “justiça popular”, cruel e arbitrária, exercida contra irmãos palestinos é o ideal de civilização e de humanitarismo do Hamas e de seus apoiantes?

Não se enganem, é para este tipo de barbárie político-institucional – estampada na fotografia – de Estados sem-lei, ou sujeitos às arbitrariedades da sharia, que nos pretendem encaminhar as minorias islâmicas radicais que tentam controlar o Oriente Médio, inclusive a Palestina.

Afinal, que motivo leva militantes de esquerda pelo mundo afora – adeptos de regimes comunistas que executaram milhões de seus próprios compatriotas – a serem os grandes propagandistas e defensores destas minorias radicais que procuram confundir-se com o povo palestino?

Espero em breve escrever um artigo sobre este assunto e tenho a certeza de que muitos ingênuos e inocentes úteis, que fazem coro à chamada “causa palestina”, serão surpreendidos pela inspiração religiosa e ideológica, pela prática política e pelos métodos de grupos como o Hamas ou a Al-Fatah. As minhas fontes não serão israelenses, mas fontes insuspeitas dos próprios grupos em questão.

A primeira vítima desta gente é o próprio povo palestino. A segunda, a verdade!

quarta-feira, 14 de março de 2012

Sim, eles querem o chavismo!

Sim, eles querem o chavismo!


A dualidade Lula X Chávez perpassou a política latino-americana nos últimos anos e foi, a meu ver, um dos “mitos” mais difundidos e, ao mesmo tempo, mais perniciosos para a avaliação política da região.

Muitos analistas, especialistas, etc. repetiram à saciedade que, na esquerda latino-americana, Luiz Inácio Lula da Silva representava o modelo do esquerdista convertido à economia de mercado, o democrata que renunciara a aspirações populistas ou totalitárias, respeitador do Estado de Direito; em contraposição a Chávez, símbolo de uma esquerda revolucionária, desrespeitadora das instituições e violadora das regras mais elementares da democracia representativa. Ainda de acordo com essa “mitologia”, Lula seria o homem que conteria os arroubos do caudilho venezuelano.

Sinceramente, nunca aceitei essa dicotomia. Escrevi textos que a desmascaravam, baseado sempre em fatos, e em inúmeras rodas de conversa insistia na falácia que a mesma continha.

Estilos diferentes; metas idênticas
Reconheço que Lula e Chávez têm estilos diferentes de fazer política. Antes de tudo pelo temperamento pessoal. A psicologia própria do público e circunstâncias inerentes à realidade política, social e cultural de cada país também condicionaram o lulismo e o chavismo. Mas estou convencido de que o lulo-petismo (ontem com Lula, hoje com Dilma) e o chavismo são duas etapas de um mesmo processo revolucionário, socialista e autoritário.

Os fatos falam por si: o papel “moderador” de Lula sobre Hugo Chávez em muito pouco se fez sentir, pois o caudilho prosseguiu seu rumo político tranqüilamente. Mais ainda, Lula tornou-se o verdadeiro fiador do radicalismo de Hugo Chávez, já que em todos os momentos de inconformidade interna com os rumos políticos na Venezuela, ou de pressões externas sobre os abusos e desmandos perpetrados pelo líder venezuelano, o Presidente Lula saiu invariavelmente em seu auxílio. Afinal não foi Lula quem proclamou que nenhum regime era mais democrático do que o chavista?

Notas “chavistas” de Lula
Na verdade, a política externa do governo Lula passou a servir os interesses geo-políticos do “chavismo”. Basta mencionar a triste aventura diplomática em Honduras ou a humilhação sofrida na Bolívia, com a invasão das instalações da Petrobras por militares do país, sob a inspiração de Hugo Chávez.

No campo interno, Lula tentou por diversas vezes violar as regras do regime democrático. Instigou movimentos sociais a desrespeitarem a lei e a propriedade e lhes deu abrigo no governo; procurou censurar a imprensa, com o “controle social da mídia”; flertou com a ideia de um terceiro mandato; promoveu o aparelhamento do Estado pelo PT; tornou a corrupção sistémica, como bem está assinalado no processo do Mensalão, para “garantir a continuidade do projeto de poder do Partido dos Trabalhadores”. E com a tentativa de instaurar no País o PNDH-3, o lulo-petismo pretendeu subverter a organização do Estado e a autonomia de suas instituições, consagradas na Constituição, bem como impor uma “religião” laica, diametralmente oposta aos valores cristãos de nosso povo.

Estranho fascínio entre “conservadores”
Entre os que se deliciam em alimentar este “mito” da dualidade Lula X Chávez encontram-se estranhamente certos políticos ditos “conservadores”. Na América Latina, alguns deles, quando candidatos, para demonstrar repulsa a Chávez e a seu modelo autoritário, afirmam inspirar-se no modelo Lula.

É exatamente o que acaba de fazer o candidato único de oposição na Venezuela, Henrique Capriles Radonski, que deverá disputar as eleições presidenciais contra Chávez, em outubro deste ano. Escolhido em prévias da Mesa de la Unidad Democrática (coalizão de partidos de oposição ao chavismo), Capriles, atual governador do Estado de Miranda, afirmou inspirar-se no ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva.

“O que Lula fez no Brasil é o que Chávez faz na Venezuela”
A resposta a Capriles não tardou. Resposta direta, objetiva e dada por um alto dirigente petista, Valter Pomar, secretário de assuntos internacionais do Partido dos Trabalhadores (PT): “É engraçado que a direita pretenda dizer que quer parecer-se a nós; o que Lula fez no Brasil é o mesmo que Chávez está fazendo na Venezuela”.

As declarações de Valter Pomar apareceram no canal oficial Venezolana de Televisión (8.mar.2012) e no próprio site do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV), o partido criado por Chávez para consolidar na Venezuela seu regime socialista totalitário. Transcrevo a matéria:
  • Se me pergunta se o PT tem uma opinião acerca do que é melhor para a América Latina e o Caribe, eu não tenho dúvida: que vença Chávez. Uma vitória da direita na Venezuela causaria um enorme problema para os processos de integração. Seria negativo”, sentenciou o dirigente Valter Pomar, secretário de Assuntos Internacionais do Partido dos Trabalhadores (PT) do Brasil, ao anunciar que o partido governista brasileiro apoia a reeleição do presidente Hugo Chávez no pleito de 7 de outubro.

    Disse ainda que as tentativas da direita venezuelana de apropriar-se das marcas, das bandeiras e dos projetos da esquerda representam uma conduta generalizada, em escala continental.

    “Se não faz isso não tem a menor possibilidade eleitoral e em muitos países está acontecendo o mesmo. É engraçado que um candidato de direita diga aqui que deseja fazer o que a esquerda faz em outro país”, disse Pomar.

    Desta forma o PT do Brasil respondeu ao candidato da oposição da Venezuela, Henrique Capriles Radonski, o qual afirmou que sua “visão progressista” é similar à do ex-presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, figura orgânica do Partido dos Trabalhadores.

    “Não creio que um Governo como o de Capriles Radonski tenha interesses reais na integração. Há uma parte da direita latino-americana que se interessa pela integração, mas eles não têm interesse na integração entre os povos. Essa é uma diferença fundamental”, asseverou Valter Pomar.

    Reafirmou que somente a esquerda latino-americana garante a integração entre os povos, com governos como o do presidente Hugo Chávez. Por isso, reafirmou que o mandatário venezuelano garante a marcha rumo à unidade latino-americana.

    Por último, sublinhou: “O que fazemos no Brasil, com o Governo de Lula que esteve oito anos na presidência, é o que Chávez fez aqui e está fazendo e queremos que continue fazendo. Por isso, para nós é engraçado ver que a direita pretenda dizer que quer parecer-se ao que estamos fazendo no Brasil (Reuters/Agencias/VTV).
As declarações de Valter Pomar não são apenas uma resposta a Capriles Radonski. São uma resposta a todos aqueles que alimentaram e alimentam esse “mito”, por má-fé, por comodismo ou por ingenuidade.

O PT quer o chavismo para a Venezuela!


Não é por acaso que, segundo revelou o jornal El Universal, de Caracas, José Dirceu viajou à Venezuela, acompanhado do embaixador do País em Brasília, para colaborar com a campanha de Hugo Chávez à Presidência.

O PT quer o chavismo também para o Brasil!

O lulo-petismo tem um projeto de hegemonia político-ideológico que utiliza as regras e as instituições do regime democrático para asfixiar a própria democracia.

Como um post-scriptum: por que motivo a mídia brasileira fez absoluto silêncio a respeito destas declarações de Valter Pomar?

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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

China: mudanças que não mudam

China: mudanças que não mudam


Há anos que a China se tornou uma unanimidade. Como todas as unanimidades, em que entra a propaganda, junto a banalidades – repetidas como grandes dados do saber – esgueiram-se mistificações e inverdades.

Pergunte-se o leitor o que ouve dizer sobre a China nos meios de comunicação ou nas rodas de conversa de que participa.

Dirão que a China é o País mais populoso do mundo; que sua cultura é milenar; que a Muralha da China pode ser vista da Lua; que a China caminha para se tornar a grande potência do futuro. Tornou-se ainda voz corrente afirmar que o regime chinês tem passado por mudanças profundas, que seu crescimento econômico é avassalador, que algumas de suas cidades se encheram de arranha-céus, de viadutos, de automóveis, de gente que está imersa no estilo de vida frenético contemporâneo.

Natureza das mudanças
É bem verdade que se questionarmos no que consistem precisamente tais mudanças, as respostas de muitos serão vagas ou generalistas.

Mencionarão a adoção do “capitalismo” pela China e elogiarão o espírito pragmático de seus dirigentes, que fizeram o país encher-se de oportunidades de negócios, dando abertura para investidores estrangeiros e criando oportunidades de chineses ingressarem nas atividades empresariais; outros mencionarão ainda as Olimpíadas de Pequim, o evento internacional de grande projeção simbólica que teria definitivamente consagrado a entrada da China na chamada modernidade.

Poucos se referirão à corrida armamentista da China, ao neo-imperialismo chinês na África e na América do Sul, às práticas pouco honestas no comércio internacional, à ofensiva geo-política em busca de petróleo, de minério de ferro e de outras matérias primas, à violação sistemática de segredos industriais de grandes companhias, ao regime de trabalhos forçados ou de baixa remuneração, ao desrespeito aos direitos mínimos dos trabalhadores e às milhares de revoltas sociais, ou ainda ao sistema ditatorial de partido único do regime comunista chinês.

Mudou a natureza ideológica do regime?
Ninguém nega que mudanças estão ocorrendo na China, embora elas não correspondam à ideia simplista que das mesmas fazem muitos ocidentais. Os dirigentes chineses falam do “socialismo de mercado”, uma fórmula em que o Estado está presente no capital de todas as empresas e em que a estratégia de investimentos é decidida pelo Politburo do Partido. Mas isso seria tema para outro artigo.

A meu ver uma pergunta fundamental se impõe: basta um regime de Partido Único, o Partido Comunista Chinês, empreender algumas mudanças sócio-econômicas, para se poder afirmar que a natureza profunda de sua ideologia – ateia e materialista – mudou substancialmente?

O que mais chama a atenção é que muitos católicos ocidentais dão aval – por vezes de modo eufórico – à tão difundida versão de que a China mudou, que ela renunciou à sua ideologia e aderiu pragmaticamente à economia de mercado. Será que a maior parte desses católicos tem noção de qual é a realidade vivida por seus irmãos de fé na China?

Creio bem que se impõe uma reflexão a respeito.

Perseguição sistemática aos católicos
Desde a revolução maoísta que levou o Partido Comunista Chinês a tomar o poder em 1949, os católicos passaram a viver sob a perseguição e o terror. As táticas e estratégias repressivas sofreram adaptações ao longo dos anos, inclusive com a criação de uma organização fantoche, a chamada Igreja Patriótica, rompida com Roma e totalmente dependente do regime. Apesar de todas as mudanças que se operaram na China a perseguição aos católicos recrudesceu, e eles continuam obrigados a praticar a religião na clandestinidade, como se vê, por exemplo, na foto da Missa que ilustra este post.

Gostaria, pois, de compartilhar com os leitores do Radar da Mídia a substanciosa entrevista concedida em Roma pelo Pe. Bernardo Cervellera, do Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras, à revista de cultura católica Catolicismo (nov. 2011). Considerado o maior especialista romano sobre a Igreja na China, o Pe. Cervellera foi Professor da Universidade Beida, em Pequim, foi diretor da Agência de imprensa vaticana “Fides” e atualmente é o diretor da prestigiosa Agência AsiaNews:
  • Catolicismo — Circularam ultimamente muitas notícias sobre um esfriamento das relações entre a China e o Vaticano. O que há de certo nisso?

    Pe. Cervellera — Sou convidado algumas vezes a participar de encontros com industriais italianos que me perguntam sobre a China. Quando me refiro às perseguições que sofrem lá os católicos, ficam surpresos. Porque hoje muitíssimas pessoas possuem uma imagem turística da China, aliada a uma noção confusa oriunda de notícias que informam sobre a quantidade de arranha-céus construídos nas grandes cidades, da existência de grande número de automóveis Ferrari, do aumento da renda média do trabalhador chinês, etc. Pensam tais pessoas que, pelo fato de a China estar apresentando aparentes mudanças do comunismo para o capitalismo, a situação dos direitos humanos também se alterou. Acompanho há 20 anos a situação chinesa e posso afirmar que, se do ponto de vista geográfico muita coisa mudou (novas autopistas, condomínios, trens, etc.), por outro lado, a perseguição religiosa manteve-se sempre constante.

    Houve há poucos meses sagrações ilícitas de bispos, ou seja, sem mandato papal. Nos últimos quatro anos ocorreram cinco dessas sagrações. Alguns bispos débeis ou timoratos foram obrigados a participar das mesmas, tendo sido conduzidos à força pela polícia. Isto é algo que não se registrava desde a época da Revolução Cultural dos anos 50 e do início do maoísmo. Época na qual se tentava criar uma igreja nacional composta de padres e bispos sob a direção do Partido Comunista Chinês. Na teoria, uma igreja independente de Roma; na prática, dependente do governo comunista. Perguntei recentemente a um católico chinês sobre a mudança de rumo do governo. Ele simplesmente respondeu-me dizendo que para os estrangeiros parece que a China mudou, quando ela, de fato, sempre foi assim. Há uma perseguição contínua, cuja extensão pode ter variado um pouco, mas nunca cessou desde que os comunistas tomaram o poder em 1949.
    Catolicismo — Os bispos chineses fiéis ao papado continuam sendo presos?

    Pe. Cervellera — Por uma sugestão de Stalin a Mao Tsé-Tung, o Partido Comunista Chinês quis inicialmente exterminar a Igreja, mas isto não funcionou. Criaram então, em 1957, a Associação Patriótica, a qual ficou encarregada pelo Partido Comunista de controlar a Igreja. Já o Papa Pio XII condenou essa associação em 1958 e declarou que os bispos que sagrassem outros bispos escolhidos por ela estavam excomungados. Todos os bispos que se opuseram, nos anos 50, a essa manobra comunista, terminaram na prisão, sendo obrigados a permanecer 20 ou 30 anos sob o regime de trabalhos forçados. Por exemplo, o bispo de Xangai, D. Ignatius Kung; o bispo de Booding, D. José Fan Xueyan; o bispo de Cantão, D. Dominic Tan Yee-Ming, e tantos outros. Há ainda vários bispos “clandestinos” — ou seja, que se negam a fazer parte dessa Associação Patriótica — os quais se encontram nas mãos da polícia. É o caso, por exemplo, de D. Jacobo Su Zhimin, há 15 anos nessa situação. Ele está desaparecido e sem sinais de vida. E isso só por não querer fazer parte da Associação Patriótica. Também o bispo de Yixian, D. Cosme Shi Enxiang, encontra-se nas mãos da polícia há 10 anos. De forma totalmente ilegal, apesar das poucas leis existentes na China. Estamos preocupados, porque muitos bispos que a polícia fez desaparecer, reapareceram depois... mortos.
    Foi o caso, entre outros, de D. José Fan Xuyean, bispo de Booding. Após passar três meses nas mãos da polícia, em 1992, seu cadáver foi deixado diante da porta de sua casa, envolto em papel celofane. Seus familiares constataram que ele tinha sido torturado brutalmente, a ponto de ter uma de suas pernas quebrada. Era um ancião de 90 anos, que já havia passado 32 anos na prisão.
    Há poucos anos ocorreram outras mortes. Em 2007, alguns meses antes das Olimpíadas (esta celebração da modernidade da China...), um dos prelados da província Hebei, D. Giovanni Han Dingxian, bispo de Yongnian, reapareceu num hospital após seis anos de detenção. Seus familiares encontraram-no moribundo. De fato, ele faleceu às 23 horas daquele mesmo dia. Seu corpo foi cremado e sepultado às 5 horas da manhã, sem a presença dos familiares. Os fiéis julgam que a cremação foi efetuada para evitar as provas que derivariam da autópsia.

    Catolicismo — Qual é a situação atual dos bispos “subterrâneos”, considerados “ilegais” pelo regime comunista?

    Pe. Cervellera — Existem na China 37 bispos “subterrâneos”, ou seja, que não pertencem à igreja oficial, controlada pela Associação Patriótica. Esses bispos encontram-se em prisão domiciliar; estão isolados, não podem exercer seu ministério. O mais velho deles é o bispo de Zhengding, D. Julio Jia Zhiguo, muito estimado pela população. Ele mantém 200 meninos abandonados, sobretudo deficientes físicos, que não são aceitos por motivos culturais. O bispo lhes proporciona roupa e alimento, cuida dessas crianças com a ajuda de algumas freiras. Ele é vigiado dia e noite por quatro policiais, para que não possa sair de casa nem se encontrar com quaisquer pessoas. Sua “culpa”: não querer renunciar a seus vínculos com o Papa. Muitas vezes é preso e levado para “férias” forçadas, a fim de receber doutrinação política do Partido Comunista sobre a grandeza de seu programa e de como se deve dar adesão ao mesmo.
    Atualmente até os bispos da igreja oficial — de obediência ao governo — estão na mira do Partido Comunista. Não é uma perseguição na qual eles são conduzidos a campos de trabalhos forçados ou fuzilados, mas são controlados. Desde 2006, quando das novas sagrações ilegais, eles são seguidos e controlados em suas viagens pastorais. Por que este medo do governo? É que, graças ao trabalho dos Papas, quase todos esses bispos da igreja oficial — sagrados mediante intervenção do partido e sem permissão papal — escreveram ao Vaticano pedindo perdão pela sua situação, tendo sido reintegrados na comunhão católica. Quando o Papa Bento XVI escreveu uma carta aos católicos da China, em 2007, ele a enviou indistintamente aos bispos da Igreja Católica, não fazendo distinção entre aqueles que eram fiéis e os que não eram.

    Catolicismo — Se há tantos bispos que tiveram de pedir perdão ao Papa por estarem ligados à Associação Patriótica, por que o governo tem tanto medo deles?

    Pe. Cervellera — Porque a Igreja Católica chinesa é hoje muitíssimo mais unida que no tempo da Revolução Cultural ou nos anos 80. Este é o ponto importante e o que explica o aumento da perseguição. A unidade da Igreja na China é um dos grandes fracassos do Partido Comunista Chinês. Nos anos 50 eles queriam destruir todas as religiões. Convencendo-se de que não o conseguiam, tentaram então criar religiões nacionais — seja a budista, a islâmica, ou igrejas protestantes nacionais. E, transcorridos 60 anos, na prática, a Igreja Católica é hoje mais unida do que antes. É por isso que a Associação Patriótica — cujo novo presidente é paradoxalmente um bispo em comunhão pessoal com o Papa — deseja a sagração de bispos ilegítimos, a ponto de forçar um bispo excomungado a ser presidente de um organismo subordinado a ela, a conferência dos bispos da igreja patriótica. Este é um modo de misturar as coisas, criar divisão e confusão generalizada.
    A situação é muito dura. Os bispos oficiais [subservientes ao regime] e os “subterrâneos” [obedientes a Roma] são muito controlados. Fiscalizam-se todos os seus encontros e discursos, são levados à força a reuniões onde os obrigam a ouvir dissertações sobre a política do partido, além de serem isolados, para não receberem o reconforto e o apoio da Igreja.

    Em maio, por ocasião da festa da Padroeira da China — Nossa Senhora de Sheshan, próximo de Xangai — Bento XVI pediu orações pela Igreja naquele país e, sobretudo, pelos bispos, para que não defeccionem. E para que não sejam derrotados pela tentação de oportunismo, ou seja, de uma vida cômoda e de não perseguição. Uma vida tranquila é melhor do que uma vida isolada. E a Associação Patriótica exerce esse tipo de perseguição, vencendo o coração pelas suas debilidades. Infelizmente, há pessoas que por oportunismo desejam se tornar bispos, ou seja, ser promovidas a tais pelo partido, receber honrarias, uma residência cômoda e nova e, de vez em quando, lembrar-se do Papa na oração. É preciso rezar muito por elas.

    Catolicismo — Poder-se-ia então afirmar que o Partido Comunista está preocupado porque não consegue controlar a Igreja?

    Pe. Cervellera — O partido não está tão preocupado com o controle da Igreja Católica quanto com a difusão dela. O cristianismo difunde-se muitíssimo na China. E isso não obstante serem necessários três a seis meses de catecismo, assistência à missa, participação nas orações, etc. Há anualmente pelo menos 150.000 adultos – não nos referimos às crianças – que se fazem batizar. Enquanto o governo prega que a riqueza é o mais importante, as pessoas procuram a vida espiritual. Este é o motivo da perseguição. Enquanto os direitos humanos forem comer, beber, vestir, etc., o partido pode controlar. Ele pode permitir que se construa uma casa ou que se vista com roupas Armani; permite a satisfação das necessidades materiais. Mas quando surgem necessidades espirituais, o partido não sabe o que fazer e teme que as pessoas escapem de seu controle. Para os comunistas, as religiões devem ser controladas ou eliminadas. Isto cria problemas para o partido, porque na China está ocorrendo um grande renascimento religioso. Nós afirmávamos isto anos atrás e não nos davam crédito. Hoje se trata desse tema com frequência, existindo abundante documentação a respeito. Fala-se do regresso de Deus à China. As pessoas procuram algo mais do que o materialismo.

    Catolicismo — Que tipo de pessoas se convertem ao catolicismo?

    Pe. Cervellera — Todo tipo de pessoas. Mas existe uma categoria que chama especialmente a atenção. Convertem-se ao catolicismo antigos — e dos mais ardorosos — membros do Partido Comunista, que estão desiludidos pelo que ali se faz. Eles vêm que estão nas mãos de um grupo que os utiliza para ganhar dinheiro — com o qual, por sua vez, financiam o partido para que este controle o povo. Notam haver uma grande simbiose entre capitalismo e comunismo. Estão desiludidos com a insensibilidade do partido diante das necessidades das pessoas. O salário dos trabalhadores é dez vezes menor que no Ocidente, não existem auxílios de seguridade social, etc. Estes desiludidos aproximam-se da Igreja. Por exemplo, um ativista que criou um sindicato não oficial e que havia estado no massacre da Praça de Tiananmen tornou-se católico.

    Catolicismo — Existe alguma possibilidade real de a Igreja mudar a situação na China?

    Pe. Cervellera — O que teme o partido é que haja uma fusão entre a busca dos valores espirituais e a tensão dentro da sociedade. Existe nisso algum nexo. Esta tensão aparece em situações que são relativamente pouco conhecidas, mas na China há anualmente 180 mil rebeliões sociais. O governo as chama de “incidentes de massa”. São pessoas que se rebelam devido às injustiças, porque confiscaram suas casas, contaminaram os rios e não há água para beber, por problemas de transporte, saúde, etc.

    Os ex-comunistas que se tornam religiosos procuram alguma dignidade para as pessoas, e o fundamento para isso é religioso. O homem possui direitos inalienáveis. Ao Estado incumbe reconhecê-los, e não se arvorar em deter poderes para concedê-los ou não. Se o homem não tivesse uma dimensão religiosa ele seria apenas um objeto nas mãos do poder. As pessoas procuram os fundamentos espirituais do direito do homem. Um advogado cristão que defendia pessoas perseguidas por sua fé, foi sequestrado pela polícia, torturado, colocado em situação de isolamento, sem poder comer, etc. Ao ser liberado, em junho último, ele denunciou tudo quanto sofreu. Isso antes não acontecia. As pessoas começam a denunciar os maus tratos recebidos e perdem o medo que tinham. Para o governo, esta mistura de rebelião social aliada à busca de fundamentos religiosos e de coragem pode ser fatal.

    Catolicismo — É conhecido o dito de Tertuliano de que “o sangue dos mártires é semente de cristãos”. O Sr. conhece algum caso na China que nos pudesse contar?

    Pe. Cervellera — Recentemente entrevistei um chinês que acabava de se converter ao catolicismo. Eu queria saber o que o havia levado a abraçar a fé. Ele contou-me que tudo começou quando a polícia deteve um de seus vizinhos. Intrigado sobre o motivo da detenção de alguém tão tranquilo e normal como esse vizinho, foi perguntar aos familiares dele. Estes lhe disseram que havia sido preso por ser católico. Isto chamou sua atenção, pois o que podia uma fé ter de importante quando o mais valorizado na sociedade era possuir bem-estar material, comodidades e reconhecimento social? Como não entendia, começou a estudar os fundamentos de nossa Religião e constatou que a fé é o bem mais importante da vida. É por ela que arriscamos tudo o que temos. É a mais preciosa pérola. Como resultado, decidiu se converter e foi batizado. O martírio de um católico conduz à conversão de outros.
Perseguição à Igreja: fruto do pragmatismo
É curioso que aqueles mesmos que se referem, de boca cheia, ao pragmatismo dos dirigentes chineses parecem não se perguntar algo de muito importante: por que motivo os dirigentes comunistas, que demonstram pragmatismo em fazer certas mudanças no sistema econômico, continuam a perseguir de modo brutal e inclemente os católicos? Não fará isso também parte do seu pragmatismo? Não verão os dirigentes comunistas chineses nos valores religiosos, morais, culturais e sociais representados pela doutrina do Evangelho uma ameaça ao seu projeto de poder materialista e neo-imperialista?

Em vez de nos mostrarmos tão inconsequentemente eufóricos e desprevenidos diante das mudanças da China, aceitando essa invasão branca dos capitais, do comércio e da diplomacia chineses, não seria interessante questionarmos o verdadeiro sentido de toda essa transformação e do tão decantado pragmatismo chinês?

Para os católicos, creio, esse questionamento não constitui apenas um interesse, mas um dever. Afinal, nossos irmãos na Fé são os mártires de nosso século. Na China, as mudanças não mudaram uma realidade trágica para os católicos. Este martírio, curiosamente, é geralmente silenciado. Parece-me um dever de quem tem Fé preocupar-se com o destino dos irmãos nessa mesma Fé. Por isso também os convido a difundir este post de todas as formas possíveis, para que a realidade chinesa seja inteiramente conhecida.

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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Paz, mas afinal que paz?

Paz, mas afinal que paz?


O início de um ano é ocasião própria à reflexão, momento de avaliar o que deixamos para trás, de formular anseios, de ponderar apreensões.

É natural que em nossos votos desejemos o melhor e alimentemos esperanças, para nós e para os outros, no ano que entra.

O dito popular “Ano novo, vida nova” é expressão desta realidade esperançosa. Formulamos – ainda que, por vezes, somente no interior de nossos espíritos – propósitos generosos.

Paz, paz, paz
Cumulados pelos inúmeros desencontros, tensões, crises e conflitos que assombram o mundo, há um desejo que se generaliza entre nós: a Paz! Almeja-se a Paz, pede-se a Paz! Fala-se em “construir a Paz”, em sermos “agentes da paz”, fala-se de “solidariedade” como fator da Paz, menciona-se o respeito aos “direitos do homem” como fonte da Paz.

Mas tantas são as interpretações sobre a Paz, tantos os sentidos que se procura dar ao termo que é o caso de nos perguntarmos de que Paz falamos realmente.

Será a Paz apenas o fim das crises, o cessar de qualquer conflito, o fim da efusão de sangue? Será a Paz somente a calmaria e a tranquilidade de nosso existir pessoal ou da sociedade na qual vivemos?

Paz e direitos de Deus
Os costumes modernos vão sofrendo uma inequívoca laicização, uma descristianização acentuada. Em inúmeras sociedades leis de caráter radicalmente anti-cristão vão sendo impostas. As leis de Deus são violadas desinibidamente e tal violação vai sendo consagrada como “direito humano”. Em muitos países, cristãos vão sendo perseguidos, em nome de ideologias ou de crenças religiosas.

Como podem aqueles que se dizem cristãos almejar sinceramente à Paz, se permanecem indiferentes a estas realidades e à violação dos direitos de Deus pela consolidação da injustiça? Como podem falar de “partilha” e “solidariedade” os cristãos se, por exemplo, nada fazem de concreto pelos irmãos de fé que sofrem perseguições, ou se eximem de trabalhar activamente para fazer cessar as iniquidades consagradas em legislações que promovem a morte de inocentes?

Paz com justiça
Reflectir sobre tais questões, no alvorecer de um Novo Ano, parece-me enriquecedor. Pode ajudar-nos realmente a cumprir o ditado “Ano novo, vida nova”, pois saberemos realmente de que Paz falamos e de que modo realmente alcançá-la.

Aos que lêem este blog, junto com meus votos de um bom Ano Novo, convido-os a conhecer uma compilação de dois artigos do grande pensador e homem de acção católico, Plinio Corrêa de Oliveira. Publicados em 29 de dezembro de 1940 e 5 de janeiro de 1941, no jornal Legionário, intitulados respectivamente Justitia  e Opus justitiae pax. São atualíssimas as considerações neles estampadas sobre o importante tema da “paz com justiça”:
  • "Para que se compreenda em que sentido “a paz é fruto da justiça”, é necessário, evidentemente, que se tenha um conceito certo sobre o que seja “paz” e o que seja “justiça. A paz, segundo São Tomás de Aquino, é a tranqüilidade da ordem. A definição do Santo Doutor deixa entrever que há duas espécies de tranqüilidade: a que provém da ordem e a que provém da desordem. Tome-se um adolescente saudável que dorme. Todo o seu físico está em uma ordem perfeita. Todos os órgãos funcionam admiravelmente bem. Nenhuma dor, nenhum mal-estar lhe perturba o repouso. A saúde, que é a ordem do corpo, gera nele uma tranqüilidade física que se traduz freqüentemente pela placidez do sono. Fisicamente, o sono é, para este adolescente, uma situação de paz, pois que é um momento de tranqüilidade gerada pela sua ordem orgânica.

    O mesmo conceito se pode aplicar a um povo. Suponha-se que nele tudo se encontre em ordem: as inteligências, pela posse segura e firme da Verdade que é a Religião Católica; as vontades, pela sua vigorosa adesão à virtude que a Igreja ensina e ajuda a praticar; as sensibilidades, pelo completo domínio a que a sujeitaram a inteligência e a vontade; os corpos, pela existência de um alto padrão coletivo de saúde; a vida econômica, por um perfeito aproveitamento dos abundantes recursos naturais do lugar. Evidentemente, uma grande e benfazeja tranqüilidade reinará sobre toda a sociedade, como fecundo e feliz transbordamento da tranqüilidade interior de cada alma. Esta tranqüilidade completa, decorrente da ordem intelectual, moral e econômica existente no país, é o que se pode chamar paz: será a paz interior. A paz externa se somará a esta, se também as relações do país com outros povos estiverem em ordem. Assim, a paz é realmente a tranqüilidade da ordem.

    Retomemos o exemplo do adolescente. Em dado momento, durante seu sono plácido, alguma perturbação orgânica ocorre: será, por exemplo, uma nevralgia violentíssima. Imediatamente, com a cessação da ordem orgânica, desaparecerá a paz: o sono cessa, e o paciente começa a dar mostras agudas da sua dor. É a desordem, gerando a intranqüilidade. Imagine-se, entretanto, que a dor aumente tanto que chegue a causar um desmaio do paciente: a desordem orgânica terá chegado a seu auge, e a perda dos sentidos e a completa tranqüilidade do desmaio não serão senão a consumação da desordem física. Essa desordem, exatamente por se ter tornado muito aguda e ter com isto suprimido todos os meios de resistência, causará, com a aparente cessação da reação orgânica, uma tranqüilidade profunda. Esta tranqüilidade será o reinado da desordem, será o cúmulo da desordem, será a desordem erigida em soberania absoluta do corpo: ela não será senão uma caricatura da tranqüilidade da ordem.Em suma, o sono do adolescente, tranqüilo e saudável, e o desmaio profundo e perigoso que imaginamos em seguida, estão nos extremos opostos. Nos exemplos que figuramos, o maior bem orgânico do corpo terá sido a tranqüilidade da ordem; a intranqüilidade decorrente da desordem será um mal; mas o mal supremo será sem dúvida a tranqüilidade da desordem, ou seja o desmaio, para não dizer a morte.

    Para resumir: a tranqüilidade da ordem é um grande bem, e só ela merece o nome de paz; a luta gerada pela desordem é um mal incontestável, mas o maior dos males será, certamente, a tranqüilidade da desordem, a tranqüilidade das consciências embrutecidas no vício, dos corpos desmaiados pela moléstia, dos cemitérios onde a morte campeia como soberana, e onde não penetra nada que seja vivo.

    Estes conceitos merecem ser transpostos para o plano internacional. Só merece o nome de verdadeira paz a tranqüilidade decorrente da ordem nas relações entre as nações. E como a ordem supõe obediência a Deus, só haverá ordem internacional quando houver obediência à Lei de Deus nas relações entre os povos.

    Evidentemente, violações da Lei de Deus sempre as houve e sempre as haverá, com freqüência maior ou menor, na História da humanidade. Mas que se transforme a violação em direito, a desordem em hierarquia legítima e permanente, e se arvore como princípio básico e fundamental aquilo que é a negação radical e absoluta de toda a Lei de Deus, há nisto uma desordem monstruosa e profunda, com a tendência de se tornar definitiva, que deve apavorar todo o espírito em que ainda bruxuleiam alguns lampejos, já não direi do senso católico, mas de simples e reta razão natural. Com efeito, o risco a que aludimos não consiste em uma simples injustiça. É na glorificação da injustiça como tal. É na consolidação da injustiça. É na entronização da injustiça como regra fundamental de ação e norma basilar das relações entre os povos.

    A paz internacional será uma paz autêntica se ela for a conseqüência da aplicação dos princípios da Lei de Deus à vida internacional. Realmente, a Lei cumprida gera ordem, e a ordem gera a tranqüilidade, e esta tranqüilidade da ordem será a paz.

    Será uma desgraça, já é agora uma desgraça catastrófica, que a tranqüilidade da ordem seja violada, e que esta violação traga lutas cruentas como aquelas que atualmente assistimos. A humanidade contemporânea pode ser comparada a um homem doente que se contorce tragicamente nos paroxismos da dor. E este espetáculo não pode deixar de concitar à piedade e à prece os espíritos compassivos.

    Mas por mais trágicas que sejam as contorções, por mais pavorosa que seja a intranqüilidade dantesca da desordem a que presenciamos, há um mal ainda maior: é a tranqüilidade da desordem.Realmente, se a moléstia é pior do que a saúde, a morte é pior do que a moléstia. Um mundo que se tranqüilize na desordem, do qual desapareça qualquer reação de vulto contra a desordem cristalizada em instituto de direito internacional, é um mundo mil vezes mais indigente, mais desamparado e mais infeliz do que aquele que ainda dispõe de heróis em que pode confiar, ainda conta com exércitos atrás dos quais se possa escudar, ainda vê luzir, com a esperança de uma próxima vitória do Bem, a possibilidade de uma ordem completa não tardar a reinar.

    E por isso é que cometem um pavoroso atentado contra o senso católico aqueles que, desgovernados por uma sensibilidade mórbida, preferem a paz na abominação e na desordem, em vez de que venha logo a paz com ordem, que todos devemos pedir a Deus.

                                                                      * * *

    Se a paz com justiça é um bem inestimável, a tranqüilidade decorrente da injustiça consumada, e que implique na cessação de qualquer resistência contra os fatores de desagregação da civilização católica, não pode deixar de constituir uma monstruosa catástrofe para o mundo contemporâneo, certamente comparável ao que foi, para a antigüidade romana, a queda do Império do Ocidente.

    Consideremos o sentido corrente do vocábulo, que é ao mesmo tempo seu sentido mais restrito. Não pode haver justiça quando se nega aos povos fracos o direito de existir. Não pode haver justiça quando se afirma que a ordem internacional não deve ser baseada sobre o princípio de igualdade fundamental e natural de todos os povos, mas sobre uma hierarquia anti-científica de raças, que, baseada na apreciação de valores acidentais ou imaginários, deseja fazer com que o mundo inteiro viva para o uso e gozo de um ou de poucos povos, supostos privilegiados. Todos estes conceitos implicam em uma violação radical da verdade, e em uma subversão fundamental da justiça, de modo que a paz baseada sobre eles outra coisa não seria senão a apoteose da injustiça.Mas as injustiças que acabo de me referir não são as mais graves de que o homem é capaz. A violação dos direitos do próximo nunca poderia ser compreendida em toda a sua gravidade se não tivéssemos em mente que ela constitui ao mesmo tempo uma violação dos soberanos e adoráveis direitos de Deus. De todos os seres, nenhum há em relação ao qual o homem tenha direitos tão sagrados como Deus. A diferença entre os direitos de Deus e dos homens se pode medir pela diferença que vai do Criador à mísera criatura. E como a Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, é o Reino de Deus na terra, é o Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo, é a depositária da Verdade, a Arca dos Sacramentos, inestimável obra-prima de Deus, não se pode ferir os direitos de Deus sem implicitamente ferir os da Igreja; e, por outro lado, não se pode ferir os da Igreja sem ferir os de Deus. Jesus Cristo e sua Igreja constituem o Esposo e a Esposa dos cânticos.

    Seus direitos se confundem, e tentar separá-los já é violá-los.

    Assim, se a paz só deve ser desejada pelos fiéis com a condição de que ela respeite os direitos dos homens, a fortiori deve ela parecer sumamente repugnante a qualquer coração verdadeiramente católico, se tiver por base o repúdio dos direitos de Deus.Tenho plena certeza de que muitos leitores, se bem que concordando em tese com o que acabo de dizer, sentem uma certa estranheza à vista da afirmação que faço. Direitos de Deus? Como poderia uma paz violá-los? Que relação pode haver entre uma coisa e outra?

    O assunto é por demais complexo para ser debatido neste artigo.

    Aliás, nem pode ele ser compreendido por quem não o analise com zelo. Todos sabem como o amor de Deus costuma multiplicar os recursos da inteligência e da vontade do homem, de sorte que eles se tornam aptos a compreenderem as coisas com uma clareza e com uma energia por vezes superiores a seus recursos naturais, desde que entre em jogo os sagrados direitos da Santa Igreja. É a estes espíritos que me dirijo.

    Toda a vitória que represente não apenas o triunfo de um país mas de uma ideologia, não somente de um povo, mas de uma filosofia, evidentemente será uma derrota dos católicos, desde que essa ideologia teológica ou filosófica não seja a da Igreja. Assim, qualquer paz que signifique o franqueamento de todas as fronteiras à dissolução de doutrinas que são contrárias às de Jesus Cristo, será por certo uma paz que um católico não pode desejar.
    Poderá alguém sorrir ao ler estas linhas. Qual o valor de nossa contribuição pessoal no curso dos acontecimentos ciclópicos, em que as forças mais poderosas se empenham em luta de morte? Para que, então, tratar deste assunto?

    A resposta é simples. Não há acontecimentos em que não esteja presente a providência de Deus. Não há armas que possam vencer a omnipotência do Criador. E não há graças que a oração não possa alcançar. Em proveito dos supremos interesses de todos os católicos, que são os interesses da Igreja, em benefício dos interesses mais fundamentais e mais sagrados de nosso diletíssimo Brasil, ao par da mobilização de todos os recursos naturais, há sempre a mobilização possível dos recursos sobrenaturias, mais poderosos, mais decisivos, mais importantes do que aqueles.

    Os estadistas de nossos dias confiam apenas nos braços que empunham fuzis. Longe de nós o imaginar que quem quer que seja esteja dispensado de empunhar o fuzil para cumprir seu dever para com a Igreja ou a Pátria. Mas há braços que, não podendo empunhar fuzis, podem empunhar certamente rosários, e os próprios braços que empunham fuzis sentirão, decuplicar suas forças se souberem alternar o manejo da arma e a do Terço.

    Para rezar, somos todos poderosos. Rezemos muito, e sobretudo rezemos bem.

    A Sagrada Liturgia tem uma oração que se pede a Nosso Senhor a graça de conhecermos Sua Vontade, de modo que, pedindo-Lhe coisas que Lhe são agradáveis, consigamos obter o que por nossas preces suplicamos.

    Se queremos a paz, peçamos uma paz conforme o Coração de Jesus. Porque se pedirmos uma paz que não seja a paz com justiça, a paz de Cristo no Reino de Cristo, que esperanças podemos ter de ser atendidos? "
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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O prestígio que sobreviveu ao golpe

O prestígio que sobreviveu ao golpe



15 de novembro. Transcorre mais um aniversário do golpe republicano que pôs termo, em 1889, ao regime monárquico.

Desde os alvores do Brasil, a monarquia inspirara e guiara o processo de formação de nossa nacionalidade e de ocupação de nosso território; transferira a capital de Portugal para terras do Novo Mundo e aqui fizera florescer prestigiosas instituições; soubera igualmente realizar a Independência do Brasil, sem traumas nem violência.

O Brasil, sob a coroa, alcançara grande solidez nas instituições políticas, unidade territorial invejável, benéfica paz social e racial, profícuo florescimento na cultura e reconhecido prestígio internacional.

Bestializado, atônito e surpreso
O tumultuado golpe republicano veio pôr termo a este processo histórico.

Foi “bestializado, atônito, surpreso” que o povo assistiu à proclamação da República. A confissão é insuspeita e partiu da pena de Aristides Lobo, um dos principais articuladores do movimento republicano. Ainda hoje estes termos parecem adequados para caracterizar a reação de muitos diante dos desmandos da República. Quantos, por exemplo, no feriado de hoje, têm presente que se assinala o golpe republicano de 15 de novembro de 1889?

Regime persecutório
A República enfeitara-se dos ideais revolucionários que haviam inspirado a Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – e que constituíam o ideário de certo sectarismo político. Mas, em poucas semanas seus instintos libertários se tornaram liberticidas: criou a República um tribunal de exceção com a finalidade de julgar em corte marcial os que “conspirassem”, por palavras, escritos ou atos, contra a República. Uma atitude bem diversa da ampla liberdade de que gozavam os republicanos durante o Império. E, em 1891, a primeira Constituição republicana vedava qualquer proposta de modificação da forma republicana de governo (cfr. Armando Alexandre dos Santos, A legitimidade monárquica no Brasil, Ed. Artpress, 1988).

A pretensa igualdade republicana gerou, ao longo destes 122 anos, uma oligarquia política, descolada dos verdadeiros anseios da Nação, que se aproveita do Estado para proveito próprio e para a manutenção de projetos de poder, por vezes de cunho autoritário.

É paradoxal que, no dia em que se assinala o golpe de há 122 anos, o governo republicano já tenha perdido seis ministros e esteja a caminho de perder mais um, em meio a escândalos aviltantes.

Uma princesa na Chefia de Estado
Ressalte-se, de passagem, que o atual governo, num gesto patético de republicanismo, quis fazer gala, como novidade “avançada”, da presença de uma mulher na Chefia de Estado, a ponto de carimbar para ela o termo Presidenta! Memória curta a do republicanismo: há bem mais de um século, em uma época em que as mulheres viviam habitualmente longe da política, a Princesa Isabel, como Regente e futura Imperatriz, tivera papel marcante no coração da vida política brasileira, sendo responsável, entre outras coisas, pela Lei da Abolição da escravatura.

Prestígio autêntico
Em mais um aniversário do pesadelo republicano de 15 de novembro, convido os leitores do Radar da Mídia a ler trechos de um artigo, de autoria de Plinio Corrêa de Oliveira, publicado no jornal Legionário (28.jul.1946). O texto, sob o título Uma glória da Igreja, na História do Brasil, permanece atualíssimo e versa sobre as razões da popularidade que a Família Imperial conservou, mesmo depois da República. Fenômeno que, indiscutivelmente, se prolonga até nossos dias:

  • "A função social da família reinante é subtil, e difícil de definir. Nem por isto, deixa de ser muito real e importante.

    Para que tenhamos disto alguma idéia, é preciso considerarmos o exemplo inglês, a suma atenção com que a opinião de todas as camadas sociais e correntes partidárias acompanha os gestos e feitos da família real, e a importância que atribui a qualquer acontecimento que ocorra neste terreno.

    A família reinante deve, a um tempo, ser o espelho e o modelo do ideal familiar e social do país. Espelho, no sentido de que deve possuir do modo mais acentuado e autêntico, o que a mentalidade doméstica e social do país tem de típico. A família reinante deve ser como que a concretização simbólica do espírito nacional, no que diz respeito à vida social e familiar. Modelo, no sentido de que cabe à dinastia a função discreta de dirigir a evolução da mentalidade nacional, no lar e na sociedade. Munida do prestígio social inerente à sua categoria, pode a família reinante, sobre a qual convergem todos os olhares, por meio de seu exemplo, fazer cair em desuso os costumes menos bons, e os substituir gradualmente por outros, exercendo assim sobre o espírito público uma função pedagógica de imensa importância.
    Se investigarmos bem a fundo as razões da popularidade que a Família Imperial conservou, mesmo depois da República, veremos que reside em boa parte, no êxito de sua tarefa social. O velho Imperador, com a grande respeitabilidade de sua figura, seu porte grave e afável, sua longa barba precocemente encanecida, representava bem o tipo ideal do excelente pai de família brasileiro daquela época, coluna do lar, protetor suave e varonil dos seus. Os costumes privados do Imperador eram sabidamente excelentes. O Imperador era como que o tipo exemplar que concentrava em si as virtudes que cada brasileiro estimava em seu próprio Pai. O mesmo se poderia dizer da Imperatriz, Dona Teresa Cristina. Era italiana, da Casa de Bourbon Duas Sicílias. Adaptou-se a nosso ambiente com a naturalidade com que o fazem os de sua terra. Feia, boa, acolhedora, era ela mesma o protótipo da dama brasileira, algum tanto desinteressada naquele tempo dos encargos de representação, mas exímia em tudo quanto dissesse respeito aos deveres do lar. Todo o mundo, consciente ou inconscientemente, se sentia um pouco parente daquela família-tipo.

    Cabia à Princesa Isabel sustentar esta tradição, representar ela mesma a geração em que nascera, com a exatidão e fidelidade com que seus pais haviam logrado encarnar a geração anterior. Incumbia-lhe aliar à representação própria ao regime monárquico, a simplicidade de que os brasileiros sempre foram tão ardentes apreciadores. À delicadeza, essencial ao verdadeiro ideal feminino, a firmeza de pulso própria a uma herdeira da coroa. Em uma época em que as mulheres viviam tão arredadas da política que nem tinham direito de voto, ela, a Princesa Imperial, se encontrava bem no âmago da vida política, onde devia agir de modo a inspirar confiança aos homens, e evitar a antipatia das mulheres!
    Era uma popularidade pessoal, que lhe vinha de suas virtudes, vistas sobretudo deste ângulo fundamental: a Princesa soubera, ela também, encarnar perfeitamente o que havia de melhor entre as brasileiras de sua geração. Era o tipo da grande dama brasileira de seu tempo, nobre, maternal, bondosa, que sabia fazer-se respeitar, sobretudo pelo amor. "

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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Nova investida totalitária

Nova investida totalitária



Para o “homem da rua”, os oito anos de permanência do PT no poder – com os dois mandatos presidenciais de Lula e a continuidade do governo Dilma Rousseff – podem ser resumidos em breves conclusões, do ponto de vista da vida política.

O outrora ético Partido dos Trabalhadores, uma vez alçado ao poder, teria abandonado seu idealismo e sucumbido aos interesses, vaidades e vantagens que o exercício do mando traz habitualmente consigo; formado por políticos profissionais, o PT teria passado a comportar-se de modo semelhante a “todos os que aí estavam”, não escapando sequer aos mecanismos da corrupção que atinge uma parte bastante considerável da classe política.

Nessa visão, Lula seria o símbolo vivo dessa trajetória político-partidária, um idealista que se teria deixado embair pelas benesses da vida burguesa, se deslumbrado com o poder e abandonado seus desígnios ideológicos.

Ler também Revolucionário ou burguês?

Ilusão perigosa
É compreensível que o grande público, que colhe a respeito da realidade política informações esparsas, sobretudo através da televisão, possa formar no seu espírito essa idéia, compartilhada tantas vezes até por opositores do PT. Porém, essa visão parece-me simplista, pouco objetiva e até ilusória. E nesta nota ilusória reside um perigo.

Analisado com objetividade (em seus escritos, nas decisões de seus Congressos, nas orientações dadas à sua militância, na elaboração de suas políticas públicas) o PT demonstra um caráter ideológico definido.

Dos princípios filosóficos que aceita, deduz seu programa político, social e econômico. Seu objetivo é um projeto de poder totalitário, que visa controlar a cultura e a ciência, reeducar o homem, dotando-o de nova mentalidade, redefinir a natureza em seus conceitos e finalidades.

A democracia representativa é aceita como uma etapa para alcançar o poder e a partir daí instrumentalizar os órgãos do Estado, em todos os níveis, condicionando a sociedade nos campos econômico e social, jurídico-institucional, educacional e até mesmo dos costumes.

Gradualidade tática
Sendo um partido minoritário, que só consegue alcançar o poder com amplas coligações – está aí a eleição da Presidente Dilma Rousseff para o comprovar de sobejo – precisa o PT utilizar-se da dissimulação, da manipulação gradual das circunstâncias, das adaptações transitórias, que lhe possibilitem alcançar seu fim último.

Uma das adaptações (dissimulações) mais características, a meu ver, foi a renúncia às teses radicais no campo econômico e a adesão (tática) ao modelo da economia de mercado. Mas, como fez questão de lembrar José Dirceu, logo no ato de posse do governo Lula em 2002, a todos aqueles (especialmente aos empresários) que tinham compactuado o recuo tático do lulo-petismo em matéria econômica, a finalidade última do PT e do governo continua a ser o socialismo.

As alianças espúrias, o enfraquecimento das instituições, a desmoralização da política, a neutralização da oposição (misteriosamente sempre disposta a colaborar ou a mostrar-se “inepta”), a disseminação da corrupção como instrumento de poder, fazem parte de uma tática e estão muito longe de ser o “desvirtuamento” do Partido dos Trabalhadores, como tantos são levados ingenuamente a pensar.

O “mensalão” é disso exemplo arquetípico. Para muitos desavisados, trata-se de “simples” corrupção voltada para a satisfação da cupidez pessoal. Entretanto, em sua acusação, o Procurador Geral da República, denunciou “uma sofisticada organização criminosa” instalada no Governo Federal e no Partido dos Trabalhadores, que estabeleceu “um engenhoso esquema de desvio de recursos de órgãos públicos e de empresas estatais” com o objetivo de garantir a continuidade do projeto de poder do Partido dos Trabalhadores, mediante a compra de suporte político de outros Partidos Políticos”.

Subjugar a liberdade de opinião
A gradualidade adotada pelo PT na instauração de seu projeto de poder, deve ser acelerada sempre que as circunstâncias pareçam comportar. Foi o que pudemos observar nestes últimos oito anos. Por diversas vezes o PT arreganhou os dentes de sua carantonha autoritária. É verdade que a reação sadia da sociedade o fez recuar, em várias ocasiões, mas o DNA totalitário do partido – na expressão já consagrada – permaneceu.

Não é difícil compreender que para poder avançar mais facilmente, convém ao projeto autoritário petista restringir – ou até eliminar – o debate público e o livre exercício da opinião. Por esse motivo, a liberdade de imprensa incomoda, apesar de muito jornalismo oficialista que campeia nas redações dos órgãos de imprensa; como incomoda o debate livre e o exercício de oposição, inerente ao regime democrático, nos meios eletrônicos (redes sociais, blogs, sites, etc.).

“Com a democracia e com imprensa livre, as autoridades não podem mais se esconder atrás de um ‘nada a declarar’ quando confrontadas com alguma denúncia ou crítica. Na verdade, na era da internet e das redes sociais, mesmo as ditaduras são constrangidas a dar explicações”, observou muito a propósito Carlos Alberto Sardenberg em artigo para a imprensa (Melhor que fiquem quietos, O Estado de S. Paulo, 10.out.2011).

Por isso o PT volta à carga e pretende “regular” a mídia e a Internet.

Desculpas suspeitas
Informa o jornal Valor (7-9.set.2011) que a executiva nacional do PT decidiu que o partido deve promover, no próximo mês de novembro, um seminário para discutir a regulação da mídia no país. O secretário de comunicação do partido, deputado André Vargas (PT-PR) acha que é necessário abrir a discussão. E logo acrescenta que “não deve haver medo desse debate; ninguém aqui quer falar em controle do conteúdo”; “confiamos que a mídia não vá interpretar errado esse seminário”. As ressalvas e desculpas de Vargas, fazem lembrar o indivíduo que ao entrar num salão de festas, cheio de convivas, logo começa a desculpar-se e a dizer que não pretende roubar ninguém. Sua preventiva acaba por denunciá-lo.

Mas prossigamos. A data escolhida pelo PT não parece ser ocasional. Ainda segundo o noticiário do jornal Valor, assinado por Caio Junqueira, o presidente nacional do PT, Rui Falcão, ressaltou que a data escolhida coincide com a primeira consulta pública que o governo federal deverá fazer sobre o novo marco regulatório dos meios de comunicação. Ou seja, na tática revolucionária, o debate promovido pelo PT com minorias, como os ditos “movimentos sociais” (a famosa “sociedade civil organizada”), funcionará como manifestação genuína da sociedade (cfr. PT promoverá debate sobre regulação da mídia).

Sai “controle”, entra “democratização”
Convido os leitores do Radar da Mídia a ler Notas & Informações do jornal O Estado de S. Paulo (13.out.2011), sob o título ‘Democratização’, não controle, em que a tática sedutora utilizada pelo PT neste lance está bem descrita:

  • "O PT já percebeu que pega mal falar de "controle social da mídia". Agora, o que reivindicam os petistas é a "democratização dos meios de comunicação". Claro, o termo "controle" tem uma desagradável conotação autoritária. É melhor defender a mesma ideia usando uma expressão mais simpática, sedutora. Afinal, não se pode ser contra a "democratização", seja lá do que for. Portanto, sai "controle", entra "democratização". Por exemplo, o presidente nacional do PT, Ruy Falcão, em entrevista à imprensa dias atrás, anunciou a realização, no âmbito dos debates sobre o marco regulatório da comunicação eletrônica, um seminário que deverá reunir em São Paulo "todas as entidades, organismos e parlamentares interessados na democratização dos meios de comunicação". Da comunicação eletrônica? Não, dos meios de comunicação, tout court.

    O esperto floreio de linguagem apenas camufla a irreprimível vocação autoritária do PT, que na verdade não admite uma imprensa livre criticando seus programas e seu governo e por isso quer "democratizar" os veículos de comunicação. Uma clara demonstração do uso que o partido faria da "democratização" dos meios de comunicação que preconiza são as recentes tentativas da ministra da Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres, Iriny Lopes, de interferir numa peça publicitária protagonizada pela modelo Gisele Bündchen e no enredo da novela "Fina Estampa", da TV Globo, sob a alegação de que em ambos os casos a condição feminina estaria sendo colocada numa posição de "subalternidade". Seria o Estado decidindo o que constitui ou não a dignidade da condição feminina.

    É notável também a insistência do PT em colocar num mesmo balaio duas questões absolutamente distintas, na tentativa de se valer da confusão para impor sua visão autoritária a respeito do controle da mídia. Uma coisa é o problema da atualização do marco regulatório da comunicação eletrônica, necessária em razão da enorme defasagem da legislação vigente em relação aos avanços tecnológicos na área. Outra coisa é a tentativa de regulação - censura, em português claro - dos conteúdos veiculados por todas as mídias, inclusive a impressa. E é isso que se tentará colocar em pauta no seminário anunciado pelo presidente petista.

    Esse seminário, quem sabe, poderá lançar luzes sobre o verdadeiro significado de "democratizar" a mídia. Se a grande imprensa brasileira não é democrática, como acusa o PT, isso significa o quê? Que falsifica a realidade em benefício de interesses escusos, por exemplo, quando denuncia escândalos que obrigam a presidente a demitir ministros? Ou quando participa do debate político e das campanhas eleitorais, criticando os excessos do PT?

    Se é isso que pensa o PT, está em clara divergência com a presidente Dilma Rousseff. Em primeiro lugar, pela razão óbvia de que ela foi eleita, apesar de não ter contado com o apoio da grande mídia. Mais do que isso, porém, porque Dilma, desde a campanha eleitoral do ano passado, jamais deixou de expressar, de maneira absolutamente cristalina, seu repúdio a qualquer tentativa de controle da mídia e a sua confiança na imprensa livre que existe hoje no País.

    Quando era candidata à Presidência, em outubro do ano passado, Dilma Rousseff declarou: "A imprensa pode falar o que bem entender. Eu, o máximo que vou fazer, quando achar que devo, é protestar dizendo: está errado o que disseram por isso, por isso e por isso. Usando uma coisa fundamental que é o argumento". Em seu discurso de posse, proclamou: "Prefiro o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras. As críticas do jornalismo livre ajudam ao País e são essenciais aos governos democráticos, apontando erros e trazendo o necessário contraditório". Em setembro, em visita aos Estados Unidos, ao assinar uma parceria com o governo norte-americano pela transparência e pela fiscalização das ações dos poderes públicos, garantiu: "Conta-se também com a positiva ação vigilante da imprensa brasileira, não submetida a qualquer constrangimento governamental".

    Dilma e o PT que se entendam. "
Fica no ar uma pergunta: Dilma e o PT precisam mesmo entender-se, ou o entendimento é perfeito e cada um joga o seu papel? O PT faz a tentativa de lançar o controle da mídia (aliás é o governo, pois o novo marco regulatório está sendo elaborado pelo Ministério das Comunicações) e Dilma Rousseff finge não ver. Caso a reação seja grande, ela voltará a fazer uma declaração ditirâmbica a favor da liberdade de imprensa e seu espírito “democrático” será atestado por todos os ingênuos de plantão.

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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

11 de setembro: never forget!

11 de setembro: never forget!



Em Nova York, a manhã de 11 de setembro de 2001 parecia ser apenas o início de mais um dia, numa das mais importantes, ou na mais importante cidade do mundo.

Em pouco tempo a surpresa e o terror atingiram Manhattan, por assim dizer o coração da nação norte-americana. As cenas dos aviões, pilotados por terroristas suicidas islâmicos, jogados contra o World Trade Center, ultrapassavam qualquer imaginação e mais pareciam cena de alguma ficção de Hollywood.

A realidade superara a ficção. Os atentados contra as Torres Gêmeas do World Trade Center visaram prédios simbólicos do poderio e do estilo de vida norte-americano e, por conseqüência, do mundo ocidental. Não se tratou de um ato de terror gratuito ou impensado.

Para além de espalhar, desde logo, o pânico, os atentados constituíram uma declaração de guerra (não principalmente bélica), que se revestiu de uma dimensão simbólica e pretendeu causar profundos efeitos psicológicos nos norte-americanos e nos ocidentais em geral.

Em poucas horas o cenário no “ground zero” era de uma destruição – sem exageros – apocalíptica. Destruição captada na impressionante foto que ilustra este post, tirada por Greg Semendinger, da New York City Police Aviation Unit. A história contemporânea dera uma guinada que marcou toda esta década.

Uma guerra para conquistar nossas almas
O que se evolava dos escombros das Torres Gêmeas, além das colunas ameaçadoras de fumaça, dos gritos lancinantes de dor, do silêncio acabrunhador da morte? Definiu-o, naqueles dias, a pena, totalmente insuspeita, da jornalista Oriana Fallacci, uma “laica sem tabus”, como ela mesma se definiu.

Num escrito, que qualificou de um grito para “tentar abrir os olhos de quem não quer ver, desentupir os ouvidos de quem não quer escutar, obrigar a pensar quem não o quer fazer”, a correspondente de guerra – que cobriu quase todos os importantes conflitos do nosso tempo –, invectivava muitos míopes no Ocidente que não queriam entender a guerra religiosa que procurava destruir nossa cultura, nossa arte, nossa ciência, nossa moral, nossos valores:

“Uma guerra a que eles chamam Jihad, Guerra Santa. Uma guerra que talvez (talvez?) não vise a conquista do nosso território, mas que certamente pretende conquistar as nossas almas. O desaparecimento da nossa liberdade e da nossa civilização. O aniquilamento do nosso modo de viver e de morrer. Do nosso modo de orar e de não orar, de estudar ou de não estudar, de beber ou de não beber, de vestir ou de não vestir...” (cfr. A Raiva e o Orgulho, Difel, Lisboa, 2002).

Totalitarismo islâmico e revolução anti-cristã
Mas, afinal, o que inspira o terrorismo islâmico e as correntes político-religiosas que o patrocinam?

Por que motivo tantos grupos da esquerda ocidental – inclusive da “esquerda católica” – não disfarçam sua simpatia por estas correntes e, embora não ousem apoiar abertamente suas criminosas ações, buscam sempre alguma razão que as tornem "compreensíveis"?

O que move tantos jornalistas “engajados” a considerar com aversão a chamada guerra ao terror (omitindo ou minorando qualquer êxito da mesma) e a realçar (com um mal disfarçado comprazimento) qualquer sucesso destas organizações do terror contra as tropas norte-americanas ou de outros países ocidentais?

O que une o totalitarismo islâmico e determinadas correntes políticas, ideológicas e religiosas do Ocidente?

Convido os leitores do Radar da Mídia a lerem um ensaio, bem fundamentado, de autoria de Luís Dufaur (um estudioso da matéria), publicado na revista Catolicismo (nov. 2001), sob o título: A verdade sonegada sobre o fundamentalismo islâmico. A leitura nos deixa entrever que o vírus da revolução anticristã ocidental, inoculado no maometanismo, gerou o monstro fundamentalista:

  • Desde os atentados de 11 de setembro, o grande assunto da mídia é o Islã. Suas múltiplas correntes — enormemente subdivididas — são citadas e comparadas. De forma superficial, especula-se sobre as moderadas e as radicais, e se investigam suas complexas rachaduras étnicas e culturais. Sumidades islâmicas, na verdade totalmente desconhecidas, são apresentadas ao Ocidente e os termos árabes são utilizados como se todo mundo os entendesse. Depois desse bombardeio psicológico, o leitor fecha o jornal — ou desliga a TV — com a sensação de não ter recebido uma informação objetiva e clara da realidade.

    Um aspecto capital da temática parece ser meticulosamente ocultado: o que é, na realidade, esse fundamentalismo islâmico? Identifica-se com Maomé e com o Corão? Caso não se identifique, o que é, então?

    De outro lado, por que a esquerda mais ardida no Ocidente, particularmente a chamada esquerda católica, disfarça mal sua simpatia pelos talebans fundamentalistas? Afinal, por detrás das aparências, existe um fundo comum que une a esquerda progressista ao fundamentalismo islâmico?

    Islã: mundo até há pouco desconhecido e pouco significativo para o Ocidente

    O afluxo de petrodólares, que deveria significar um avanço do progresso moderno nos domínios do Islã, parece não ter eliminado essa paralisia. Apenas um punhado de emires, sheiks e sultões esbanja milhões em luxos exibicionistas, em geral de mau gosto e freqüentemente imorais, enquanto a massa das populações — seguindo os ensinamentos do “profeta” — vegeta à sombra do festim dos hiper-ricaços.

    Tornou-se abismal a desproporção entre a organização e a pujança do Ocidente nascido da Civilização Cristã — embora hoje profundamente apodrecido pelo neopaganismo — e a desordem e imobilismo da pesada herança de Maomé. No século XIX, quase todas as terras muçulmanas estavam sob o controle de nações européias, ricas e dinâmicas.

    Se a paralisia não gera movimento, de onde veio esse dinamismo?

    No início do século XX, nesse magma secularmente esclerosado, eclodiu uma tendência nova chamada fundamentalismo. Ela é ativa, agressiva, modernizada nas suas técnicas, muitas vezes terrorista. E, subitamente, passou a ameaçar a ordem mundial ocidental neopaganizada, ex-cristã, “senhora do universo”.

    Diz o adágio popular que “ninguém dá o que não tem”. Como a paralisia não gera o movimento, dinamismo só poderia vir de quem o tivesse. Um rápido giro pelas biografias dos líderes islâmicos fundamentalistas mostra que eles, em sua maioria, formaram-se em universidades do Ocidente ou em equivalentes escolas ocidentalizadas no Oriente. Seus escritos reproduzem as mesmas idéias que corroem as bases cristãs das nossas sociedades ocidentais. É como se o vírus revolucionário ocidental tivesse sido aplicado num caldo de cultura estagnado, produzindo uma infecção explosiva, com características próprias, mas com a mesma origem ocidental.

    O chefe terrorista Bin Laden é um exemplo característico desse processo de laboratório da Revolução. Filho de milionários, foi educado no seletíssimo colégio Le Rosey, na Suíça. Sua juventude foi a de um play-boy do jet-set, em meio a luxos e escândalos nas capitais ocidentais e na Arábia Saudita1. Sim, do jet-set, tão a gosto das esquerdas, até das tupiniquins.

    Hassan el-Turabi, o ideólogo do regime perseguidor dos cristãos do Sudão, diplomou-se em Oxford e na Sorbonne. Ali Benadi e Abasi Madani, líderes fundamentalistas da Argélia, aprenderam suas doutrinas e técnicas subversivas na Europa. Os sequazes imediatos de Bin Laden também provêm de ambientes cultos e abastados. A lista é interminável...

    O Islã, enquanto crença religiosa, está espalhado por uma imensidade de povos que vão desde o Atlântico até a Polinésia. O fatalismo e a sensualidade exacerbada da religião de Maomé lançaram essa parte da humanidade, em larga medida, no miserabilismo mais radical. Até há pouco, o seu multissecular torpor era perturbado apenas por disputas locais.
    O estudioso francês Roger du Pasquier constata: “Os teóricos de maior autoridade no seio dos movimentos integristas e ativistas engajados do mundo muçulmano, apesar de sua recusa formal e superficial do Ocidente, manifestam na realidade uma contaminação de pensamento das concepções ocidentais modernas”. Que concepções? Ele esclarece: “As das forças subversivas que há dois séculos têm provocado tantas revoluções e violências no Ocidente e no Oriente, até na China” 2. Isto é, o socialismo e o comunismo, não em suas fórmulas já fracassadas, mas em versões mais atualizadas, como veremos. Retenha essa idéia, leitor, e verá que ela pode ser a chave para se compreender muitos dos acontecimentos atuais.

    Promotores destacados da Revolução anticristã no Ocidente vêm se tornando islamitas

    Há anos, figuras engajadas na Revolução político-social e cultural que abala os alicerces cristãos do Ocidente vêm passando para o Islã, sem renunciar às suas idéias. Por exemplo, Roger Garaudy, antigo responsável do Partido Comunista Francês para a relação com as religiões, agora prega o islamismo como via superior para atingir as metas utópicas de Marx e Lenine. Cat Stevens, pop-star do rock, também perverteu-se e financia uma ONG islâmica 3. O mesmo fizeram, entre outros, o ecologista Jacques Cousteau, o coreógrafo Maurice Béjart, os cantores Richard e Linda Thompson, o campeão mundial de boxe Cassius Clay, que ingressou nos Black Muslims, movimento filo-marxista liderado por Malcolm X, outro converso muçulmano.

    Primeiras tentativas de inoculação revolucionária no Islã

    Nos séculos da estagnação, houve tentativas de reacender o furor anticristão islâmico. Mas não passaram de casos restritos. Por exemplo, Muhammad Ibn Abdel Wahhab (1703-1787) formou uma confraria radical — o waabismo — que teria ficado desconhecida se, por ocasião da Primeira Guerra Mundial, os seus escassos seguidores não se tivessem aliado à Inglaterra contra a Turquia. Após o conflito, receberam como recompensa o reino da Arábia Saudita.

    Foi no fim do século XIX e no século XX, que cresceu a penetração das idéias revolucionárias ocidentais no mundo muçulmano. Djamal ed-Din Afghani (1839-1897), a partir de Londres, atiçou a insurreição iraniana. Muhammad Abduh (1849-1905), seu continuador, pregou idéias progressistas européias, de tipo anticolonialista. Na Índia, Sayed Ahmad Kahn (1817-1898), que ostentava o título de Sir inglês, criou o centro de pensamento nacionalista muçulmano, do qual saíram os pais do Paquistão (o país dos puros). Um outro Sir inglês, formado em Oxford, Heidelberg e Munique, admirador de Hegel, Nietzche e Bergson, Muhammad Iqbal (1873-1938), foi quem formulou a idéia e o nome do atual Paquistão. Ele elogiava o marxismo e tentou realizar a síntese do socialismo com a doutrina de Maomé. Seu discípulo, Abdul Ala Maududi (1903-1979), fortemente modernista, pregou uma terceira via entre capitalismo e comunismo, sendo considerado o pai do fundamentalismo paquistanês hodierno 4.

    Da noite para o dia: de Marx a Khomeini

    Na famosa revolução de Khomeini, no Irã, iniciada em 1979, numerosos militantes de esquerda tornaram-se fundamentalistas. O intelectual cristão-marxista Gahli Chuckri narra: “Entre os aspectos que ainda estão presentes ante nossos olhos, figura o fato de se ver pensadores conhecidos pelo seu passado marxista transformarem-se, num abrir e fechar de olhos, em islamitas convictos. Sim, pensadores que pertencem — pela sua ata de batismo — ao Cristianismo, transformaram-se, da noite para o dia, em muçulmanos extremistas; pensadores que pertencem, pela cultura, ao Ocidente e ao modernismo, viraram orientalistas fanáticos sem nenhuma formalidade nem restrição!” 5.

    O Partido Comunista Iraniano (Tudeh) aprovou a revolução dos aiatolás: O conteúdo do processo da evolução histórica toma hoje um aspecto religioso. Para os marxistas, é perfeitamente natural. Esta revolução anti-imperialista, antiditatorial e popular foi feita segundo as palavras de ordem do Islã e sob a direção de um chefe religioso célebre no Irã, o ímã Khomeini” 6.

    Voltando de Paris, Khomeini criou a organização terrorista Hezbollah. O discurso de fundação do organismo foi uma paráfrase do satânico brado de Marx e Engels — “Proletários do mundo, uni-vos”: “Até hoje — afirmou — os oprimidos estiveram desunidos, e nada se consegue na desunião. Agora que foi dado um exemplo da eficácia da união dos oprimidos em terra muçulmana, esse modelo deve ser difundido por toda parte. ... e tomar o nome de ‘partido dos oprimidos’, sinônimo de ‘Partido de Deus’, ‘Hezbollah’. Os oprimidos devem reinar sobre a terra, essa é a vontade do Altíssimo, de Alá” 7. Como se vê, é o velho marxismo vestido de muçulmano.

    Bruno Étienne, professor de islamismo na Universidade de Aix-en-Provence, na França, explica a afinidade entre Marx e o fundamentalismo: “A luta de classes, como Engels a tinha previsto, não desemboca na revolução senão quando ela pode se apresentar em termos religiosos; a finalidade do islamismo radical é bem terrena: criar um reino igualitário que derrube a arrogância dos proprietários” 8.

    Desvendando as profundezas do fundamentalismo

    Nada pesou tanto na gênese do fundamentalismo quanto a associação egípcia Fraternidade Muçulmana, ou Irmãos Muçulmanos. Ela foi fundada em 1928 por um modesto professor, Hassan al-Banna (1906-1949). “A ressurreição islâmica que se manifesta hoje no mundo árabe provém direta ou indiretamente da organização dos Irmãos Muçulmanos”, explica um site islâmico americano que publica a sua biografia 9.

    Numa obra-chave, al-Banna ensina que o dever dos Irmãos é “expandir o Islã a todos os recantos do Globo até que não haja mais tumulto nem opressão e que a religião de Alá prevaleça”. E que o slogan deles deve ser: “A morte nas vias de Alá deve ser a nossa mais prezada aspiração” 10.

    Na Fraternidade, sunitas e shiítas se acotovelam e mantêm uma unidade de ação. Em 1989, o regime de Teerã divulgou um opúsculo que acumulava exemplos de concordância e colaboração de sunitas e shiítas radicais, no seio dos Irmãos. Ele reproduz elogios rasgados da Fraternidade a Khomeini e, vice-versa, exalta al-Banna como grande artesão dessa unidade 11.

    Em seus primórdios, a organização inclinou-se pelas idéias nazi-fascistas, nacionalistas, anticapitalistas e antijudaicas, em moda na Europa de então. Tal componente nunca deixou de existir no movimento fundamentalista, em geral sendo acrescido de outros elementos 12.

    Sayyid Qutb — o ‘Gramsci’ do fundamentalismo — faz a releitura revolucionária do Corão

    Ninguém marcou tanto a Fraternidade Muçulmana quanto Sayyid Qutb (1906-1966). Ele representou para o fundamentalismo o que o italiano Gramsci foi para o comunismo. Fez com Maomé o que o pensador peninsular fez com Marx: uma releitura revolucionária.

    Nos Estados Unidos, Qutb conheceu o renascimento pentecostalista protestante, baseado num retorno aos chamados fundamentos. Daí o fato de o termo fundamentalismo ser aplicado ao novo islamismo, embora este jamais o empregue.

    Qutb revestiu de palavreado corânico as utopias revolucionárias ocidentais. É preciso, segundo ele, que o Islã volte à sua essência primeira, aos seus fundamentos. E reformulou tais fundamentos, parafraseando a doutrina anárquica da desalienação (ninguém deve estar submisso a ninguém).

    Em seu livro-base, ensina: “O Islã é uma declaração geral pela libertação do homem no mundo da dominação por parte de seus semelhantes; a recusa completa do poder de toda criatura, sob todas as formas; a recusa de toda situação de dominação por organizações e situações sobre seres humanos, sob qualquer forma que seja. Quando o poder está em mãos de seres humanos, eles personificam o Criador e, em conseqüência, seus semelhantes os aceitam. Agora isto é desconhecer e expropriar o poder de Alá, devendo ser expulsos esses usurpadores. Isto significa a negação do reinado dos seres humanos, para substituí-lo por um reinado divino sobre a Terra” 13.

    Qutb sabia que um reinado direto de Alá sobre os homens não é praticável. Propunha então um regime intermediário, em que uma organização pouco visível conduzisse os povos até a hora em que todo governo cessaria e os homens viveriam em contato direto com Alá. Portanto, uma concepção análoga à da “vanguarda do proletariado” de Lenine.

    As semelhanças entre o progressismo católico e o fundamentalismo islâmico

    Segundo o Corão, Deus revelou-se primeiro a Abraão. Tendo os judeus prevaricado, comunicou-se a Jesus. Os cristãos também falsificaram a revelação divina. Então, Deus manifestou-se a Maomé. O Corão seria a mensagem definitiva insofismável, e Maomé o último dos profetas.

    Qutb explica a “apostasia” dos cristãos seguindo o pensamento do progressismo ocidental. As primeiras comunidades cristãs, segundo ele, teriam tido um contato direto com Deus, sem intermediários, autoridades nem doutrinas racionais. Mas o reconhecimento de autoridades hierárquicas e de um Magistério teológico e pastoral racional trouxe acatástrofe. E acrescenta: “A maior calamidade foi o triunfo histórico do Cristianismo. Isto aconteceu quando o Imperador Romano Constantino abraçou a ‘nova religião’”. Além do mais, segundo Qutb, sucessivos concílios definiram verdades de fé e reforçaram a autoridade pontifícia 14.

    Qutb via defensores da “verdadeira religião” nos heréticos arianos, monofisitas e jacobitas, que foram excomungados pela Igreja. A “apostasia”, de acordo com sua tese, culminou na Idade Média. Qutb se enfurece contra o monaquismo medieval, a obediência e a castidade praticadas pelos monges e frades. “Foram introduzidos no Credo — acrescenta — dogmas abstratos incompreensíveis, inconcebíveis e incríveis, o mais surpreendente dos quais foi o dogma relativo à Eucaristia, contra o qual se revoltaram Martinho Lutero, João Calvino e Zwinglio, lançando as bases do protestantismo”. Ele também execra a Inquisição, que puniu Giordano Bruno com a morte, e Galileo Galilei com censura eclesiástica 15.

    Nas heresias e nas contestações à Igreja Católica, ele vê sinais precursores de um retorno à mensagem primitiva do Cristianismo, que estaria na íntegra no Islã. “A Europa rebelou-se contra o Cristianismo; a Europa rebelou-se contra os arbítrios dos homens de Igreja”, regozija-se ele. Mas a Europa revoltada ficou tão marcada pela Igreja, que dela não se pode esperar a “salvação”. O europeu, segundo ele, em todos os assuntos raciocina logicamente, faz distinções, por influência da pervertida Igreja 16.

    Missão do fundamentalismo: completar a Revolução anticristã

    Essa é uma das chaves para se entender todo o fenômeno do fundamentalismo islâmico. Estamos diante da etapa culminante do processo revolucionário, denunciado e analisado por Plinio Corrêa de Oliveira em Revolução e Contra-Revolução. Qutb reverencia os “princípios da Revolução Francesa e os direitos da liberdade individual, no início da experiência democrática norte-americana”. Porém, lamenta que “esses valores jamais se desenvolveram plenamente e jamais foram realizados por inteiro. Eles são insuficientes para enfrentar as exigências de uma humanidade em evolução”. A salvação, conclui o ideólogo dos Irmãos Muçulmanos, não virá do Ocidente, mas do Islã. Ele completará o que a rebelião contra o Cristianismo não conseguiu fazer 17.

    “Isto exige uma operação de ressurreição [islâmica que] será seguida mais cedo ou mais tarde pela tomada da direção do destino humano no mundo” 18. “O Islã está destinado para todo o gênero humano: seu campo de ação é a Terra, toda a Terra” 19, numa República Islâmica Universal, sob os eflúvios de autoridades religiosas encobertas pelo segredo.

    Erradicar da Terra qualquer vestígio da Cristandade

    Eis a finalidade do “retorno aos fundamentos”: enxotar da Terra o último perfume da Cristandade que ainda paira nos países outrora católicos. Isto é, os últimos reflexos sobrenaturais na ordem temporal, que se contam entre os frutos mais preciosos atraídos à Terra pelos méritos da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

    Qutb expõe uma visão bastante clara do processo revolucionário que, desde a decadência da Idade Média, vem corroendo a Civilização Cristã. Porém, acrescenta-lhe um desenlace trágico que muito poucos entreviram: no final da Revolução anticristã não vigorará um mundo de prazeres e liberdades, no qual a ciência e a técnica eliminariam as doenças e a guerra, mas um espezinhamento sinistro, material e mental, sob o látego do fanatismo fundamentalista islâmico.

    A revolução que ultrapassa o esclerosado comunismo

    Quanto à propriedade privada, o professor Olivier Carré assim resume as máximas de Qutb: “No Islã, o proprietário jamais tem o direito de usar ou de abusar do seu bem. No Islã, a propriedade privada é um meio social a serviço das utilidades comuns” 20.

    Mas, então, como explicar o fato de fundamentalistas islâmicos se declararem anticomunistas? O aiatolá Baqir as-Sadr — apelidado o Khomeini iraquiano, executado em 1980 — resolve a dificuldade. Ele sintetiza a doutrina comunista: “O objetivo inconsciente que o marxismo atribui ao movimento da História consiste na eliminação dos entraves no caminho do desenvolvimento das forças produtivas. Este objetivo alcançar-se-á pela abolição da propriedade privada e pela construção da sociedade comunista”. E, a seguir, introduz a crítica fundamentalista: “Então, a História deter-se-á após essa liberação, e todas as potencialidades e o impulso novo do homem deperecerão”. Para evitar que a evolução pare, explica o aiatolá, é preciso um horizonte novo que empolgue os homens para irem além do comunismo.

    Uma Teologia da Libertação para o mundo islâmico

    Esse horizonte novo tem que ser religioso. Diz as-Sadr: “Pôr Alá como objetivo da marcha evolutiva constitui a única estrutura ideológica que pode oferecer ao movimento humano uma energia inesgotável” 21. Nesta perspectiva, os comunistas clássicos representam um esclerosamento e devem ser eliminados. A tarefa agora será feita por religiosos.

    De quebra, o novo horizonte tem outra utilidade. No mundo muçulmano, a autoridade natural e religiosa dos chefes de clãs, tribos e etnias é levada em grande consideração. Para os revolucionários era impossível destruir esse resto de ordem natural apelando para doutrinas laicas modernas, “porque mais cedo ou mais tarde o movimento novo mostrará a sua verdadeira face de inimigo declarado da Religião. Isso trará um grande desperdício de energias e exporá a obra em curso aos perigos que provêm da maioria dos conservadores do mundo islâmico” 22. Essa tarefa só seria viável sob vestes religiosas. Aliás, mutatis mutandis, o mesmo sucede com o progressismo católico, que, para objetivos análogos aos dos fundamentalistas muçulmanos, lançou mão da Teologia da Libertação.

    Das “Mil e uma noites” às trevas infernais

    O fundamentalismo não visa reacender o mundo das Mil e uma noites, dos tapetes fascinantes, dos míticos emires e sheiks do deserto, dos minaretes esguios e elegantes, das mesquitas douradas, do Taj-Mahal. Esse universo de maravilhas reflete lados positivos desses povos que hoje languescem sob o jugo da falsa religião de Maomé. Pelo contrário, o fundamentalismo visa também extinguir essas potencialidades de alma que poderiam desabrochar em civilizações de fábula, caso se convertessem à única Igreja verdadeira, a Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Ele visa uma terra proletarizada, miserabilista, em contato com os abismos infernais. E para isso, por conveniência, recobre-se de aparências antigas e religiosas.

    Revolução igualitária ocidental inoculada no maometanismo: gerado o monstro fundamentalista

    Roger Garaudy, o ex-dirigente do PC francês que se tornou islâmico, narrou suas conversações com o ditador líbio Muhammad Khadafi, considerado no Ocidente sustentáculo do terrorismo internacional.

    Khadafi ensinou-lhe a “tradução política” do versículo II-136 do Corão: “É uma democracia direta sem delegação de poder e sem alienação. Nada há de se substituir ao povo, nem por meio de partidos nem de parlamentos. Democracia direta através de comitês e congressos populares, que são emanação direta das empresas, das cooperativas agrícolas, das universidades, das aldeias, dos bairros” 23. Em poucas palavras, uma atualização do modelo que os sovietes não realizaram, e que as esquerdas recicladas tentam alcançar sob diversas formas de autogestão.

    Em 1995, Garaudy publicou a obra Rumo a uma guerra de religião? — O debate do século 24, com prefácio do ex-frei e teólogo da libertação, Leonardo Boff. O ex-religioso franciscano elogiava Garaudy como profeta que, com D. Hélder Câmara, teria colocado as bases de uma convergência cristão-marxista anticapitalista. E acrescentava que o fundamentalismo islâmico vive do mesmo fogo libertário da Teologia da Libertação.

    Garaudy anunciou uma “guerra de religião”, não entre a Igreja Católica e o Islã, mas dos revoltados das religiões contra toda forma de autoridade, porque esta seria intrinsecamente cúmplice do capitalismo consumista e hedonista.

    Efetivamente, o fundamentalismo islâmico integra um vasto movimento que ultrapassa os limites do maometanismo histórico. O documentadíssimo Atlas Mundial do Islã Ativista constata que “o renascimento islâmico não é um fenômeno isolado, mas se inscreve num movimento global de recusa do materialismo mercador e midiático, que invade o Planeta há três décadas. Esse movimento tem uma dimensão natural: o da ecologia; e uma religiosa: o retorno ao fundamental” 25.

    O fundamentalismo é objetivamente aliado das forças do caos, que se manifestaram no Fórum Social Mundial realizado em Porto Alegre 26, nas arruaças de Seattle e Gênova 27 e na subversão eclesiástica progressista.

    O fundamentalismo — um fruto do que há de pior no Ocidente — tenta realizar uma síntese com o Alá de Maomé, ao qual se aplicam as palavras da Escritura: “Omnes dii gentium daemonia” (Sl 95-5), (Todos os deuses dos gentios são demônios).

    Essa sinistra convergência lembra a tese de um histórico artigo publicado em Catolicismo, de autoria do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira: “Se Oriente e Ocidente se unirem fora da Igreja, só produzirão monstros” 28. O fundamentalismo islâmico e o pavoroso atentado de 11 de setembro constituem uma espantosa confirmação dessa tese.

Alguém se perguntará que utilidade podem ter essas reflexões, dez anos após os ataques às Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York.

Antes de tudo vejo nelas uma utilidade profilática. A superficialidade de espírito de tantos de nossos contemporâneos, agravada pela sucessão trepidante e desordenada dos acontecimentos, tende rapidamente a esquecer aquilo que não deveria ser esquecido. Por este motivo me abalancei a intitular este post de “11 de setembro: never forget”.

O “nunca esquecer” — com que muitos norte-americanos procuram manter viva a memória da investida que sofreram —, me leva à segunda utilidade. Há dez anos foram as Torres Gêmeas o alvo do terrorismo islâmico. Hoje, as mesmas correntes revolucionárias que inspiraram os ataques do 11 de setembro de 2001, tentam seqüestrar a chamada “primavera árabe”. Nas águas turvas do acontecer político, tomam a dianteira e buscam fazer vingar suas ideologias e implantar seus regimes político-religiosos “jihadistas”, desfazendo os sonhos de “democracia” que pareciam embalar as revoluções do Egito, da Tunísia, da Líbia, da Síria, etc.

Aliás, o hábito de esquecer o que não devia ser esquecido, talvez já tenha afastado da memória de muitos a ameaça dirigida por Osama Bin Laden aos regimes árabes que aceitavam a legitimidade das instituições internacionais, por renunciarem “à única e autêntica legitimidade, a legitimidade que vem do Alcorão”: seriam infiéis que não respeitam a mensagem do profeta e estariam fora do Islã. A ameaça, proferida pouco após o atentado às Torres Gêmeas, uma década depois vai se concretizando.

Por estes motivos, 11 de setembro: never forget!

Notas:1. Cfr. “O Globo”, 25-9-2001; “O Estado de S. Paulo”, 30-9-2001.
2. Roger du Pasquier, Le Réveil de l’Islam, Cerf, Paris, col. Bref, p. 34.
3. http://www.catstevens.com/articles/00009/index.html
4. Cfr. du Pasquier, op. cit., pp. 56-64.
5. Ghali Chuckri, “Al Bayadir”, nº 11, 1-2-82, in Al Hoda — Teheran branch, El sunnismo y el shiismo: una querella artificial y una provocación pérfida, Teerã, 1989, p. 34.
6. Ehsan Tabari, Le rôle de la religion dans notre révolution, “La Nouvelle Revue Internationale”, nº 12 (292), dezembro 1982, pp. 88-89.
7. In Atlas mondial de l’islam activiste, La Table Ronde, Paris, 1991, p. 234.
8. Bruno Étienne, L’islamisme radical, Hachette, Paris, 1987, p. 327.
9. http://www.jannah.org/articles/hassan.html.
10. Six tracts of Hasan Al-Banna, International Islamic Federation of Student Organizations, Kuwait, s/d, pp. 16-18.
11. Al Hoda, op. cit.
12. Veja-se por exemplo: Shaykh Abdul Qader Al-Murabit, Para el hombre que viene, Ediciones Ribat, Granada-México-Chicago, 1988. O autor se auto-intitula sheik, mas é um escocês chamado Ian Dallas. Ele fundou em Norwich o Movimento Morabitun, nome de uma histórica confraria místico-guerreira do Norte da África — os almorávidas. Seus membros são, em significativo número, ex-hippies e cultuadores frustrados da droga. No livro, Abdul Qader justifica o III Reich, e julga que não este não obteve a “libertação” total do homem, devido à oposição judaica-capitalista-usurária. Não critica o comunismo pelo seu lado igualitário e nivelador, mas porque teria sido excogitado por judeus. A “libertação” do homem exige, segundo ele, a extinção do consumismo capitalista. E a via para isso, agora, seria o Islã.
13. Sayyid Qutb, Jalons sur la route de l’Islam, International Islamic Federation of Student Organizations, Kuwait, s/d, 293 pp., pp. 96-97.
14. Sayyid Qutb, Il futuro sarà dell’Islam, International Islamic Federation of Student Organizations (Kuwait) / The Holy Coran Publishing House (Beirut), 1980, 42-44.
15. Id. ibid., pp. 51-57.
16. Id. ibid., pp 63-64.
17. Id. ibid., pp. 63-67.
18. Id. ibid., p. 15.
19. Id. ibid., p. 100
20. Olivier Carré, Mystique et politique — Lecture révolutionnaire du Coran par Sayyid Qutb Frère Musulman radical, Les Éditions du Cerf / Presses de la Fondation Nationale des Sciences Politiques, Paris, 1984. p. 149.
21. Baqir as-Sadr, sem título, Al-Hoda Teheran branch, Teerã, 1989, pp. 9-10.
22. Baqir as-Sadr, id. ibid., p. 27.
23. Roger Garaudy, Appel aux vivants, Seuil, Paris, 1979, pp. 294-295.
24. Desclée de Brouwer, Paris, 1995.
25. Atlas Mondial de l’Islam Activiste, Institut de Criminologie de Paris — Centre de Recherche sur la Violence Politique, La Table Ronde, Paris, 1991, p. 14.
26. Cfr. Catolicismo, nº 603, março 2001.
27. Cfr. Catolicismo, nº 609, setembro 2001.
28. Cfr. Catolicismo, nº 106, outubro 1959.


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