terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Jarbas conta tudo

Jarbas conta tudo
Os escândalos políticos não incomodam mais, se incorporaram à paisagem e as práticas do governo Lula contribuíram para essa banalização.

Esse é, em síntese, o verdicto proferido pelo Senador Jarbas Vasconcelos, em importante entrevista à revista Veja (18.fev.2009), sob o título "Jarbas conta tudo".

Partido afeito à corrupção

Na mencionada entrevista, o senador ataca frontalmente o seu partido, o PMDB, por se ter transformado, em boa medida, em uma agremiação sem bandeiras políticas, oportunista, clientelista, afeita à corrupção, disposta a conformar-se aos desígnios do lulismo, enfraquecendo a oposição.

Jarbas Vasconcelos é insuspeito. Fundador do antigo MDB e eleito em 2002, defendeu o apoio do seu partido ao então recém eleito Presidente Lula, pois este se comprometera com as reformas essenciais para o País (trabalhista, tributária, previdenciária) e com um governo sob a égide da ética.

O desenrolar do primeiro mandato de Lula foi suficiente, segundo o senador, para mostrar que Lula não tinha qualquer compromisso com a ética e que as prometidas reformas não viriam.

Motor de histórico processo de limpeza da vida pública?

Em sua Carta ao Leitor, a revista Veja destaca a importância do testemunho de um personagem com intimidade com os fatos políticos, como Jarbas Vasconcelos. E recorda que o processo que culminou no impeachment de Fernando Collor de Melo, em 1992, teve precisamente início em uma entrevista a Veja "Pedro Collor conta tudo".

Por isso, afirma ainda o texto de Veja, o Brasil precisa acompanhar de perto o depoimento do Senador que tem tudo para ser "o motor de um profundo e histórico processo de limpeza da vida pública brasileira".

Convido-os, pois, a ler trechos da entrevista.

Corrupção a serviço de um projeto autoritário

Antes de passar à leitura desses trechos, permitam-me uma pergunta: a atual corrupção política será apenas um desvio individual de conduta de homens públicos?

Para mim, não. Na era Lula a corrupção se tornou algo mais, uma poderosa máquina de destruição das instituições, que mina o sistema político e visa a instauração de um projeto político de poder, com tintas autoritárias. Arnaldo Jabor a denominou - e muito bem! - de "corrupção revolucionária"!

Vamos, pois, à entrevista:

  • " O senhor é um dos fundadores do PMDB. Em que o atual partido se parece com aquele criado na oposição ao regime militar? Em nada. Eu entrei no MDB para combater a ditadura, o partido era o conduto de todo o inconformismo nacional. Quando surgiu o pluripartidarismo, o MDB foi perdendo sua grandeza. Hoje, o PMDB é um partido sem bandeiras, sem propostas, sem um norte. É uma confederação de líderes regionais, cada um com seu interesse, sendo que mais de 90% deles praticam o clientelismo, de olho principalmente nos cargos.

    Para que o PMDB quer cargos? Para fazer negócios, ganhar comissões. Alguns ainda buscam o prestígio político. Mas a maioria dos peemedebistas se especializou nessas coisas pelas quais os governos são denunciados: manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral. A corrupção está impregnada em todos os partidos. Boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção.

    Quando o partido se transformou nessa máquina clientelista? De 1994 para cá, o partido resolveu adotar a estratégia pragmática de usufruir dos governos sem vencer eleição. Daqui a dois anos o PMDB será ocupante do Palácio do Planalto, com José Serra ou com Dilma Rousseff. Não terá aquele gabinete presidencial pomposo no 3º andar, mas terá vários gabinetes ao lado. (...)

    Lula ajudou a fortalecer o PMDB. É de esperar uma retribuição do partido, apoiando a candidatura de Dilma? Não há condições para isso. O PMDB vai se dividir. A parte majoritária ficará com o governo, já que está mamando e não é possível agora uma traição total. E uma parte minoritária, mas significativa, irá para a candidatura de Serra. O partido se tornará livre para ser governo ao lado do candidato vencedor.

    O senhor sempre foi elogiado por Lula. Foi o primeiro político a visitá-lo quando deixou a prisão, chegou a ser cotado para vice em sua chapa. O que o levou a se tornar um dos maiores opositores a seu governo no Congresso? Quando Lula foi eleito em 2002, eu vim a Brasília para defender que o PMDB apoiasse o governo, mas sem cargos nem benesses. Era essencial o apoio a Lula, pois ele havia se comprometido com a sociedade a promover reformas e governar com ética. Com o desenrolar do primeiro mandato, diante dos sucessivos escândalos, percebi que Lula não tinha nenhum compromisso com reformas ou com ética. (...) Então eu acho que já foram seis anos perdidos. O mundo passou por uma fase áurea, de bonança, de desenvolvimento, e Lula não conseguiu tirar proveito disso.

    A favor do governo Lula há o fato de o país ter voltado a crescer e os indicadores sociais terem melhorado. O grande mérito de Lula foi não ter mexido na economia. Mas foi só. O país não tem infraestrutura, as estradas são ruins, os aeroportos acanhados, os portos estão estrangulados, o setor elétrico vem se arrastando. A política externa do governo é outra piada de mau gosto. Um governo que deixou a ética de lado, que não fez as reformas nem fez nada pela infraestrutura agora tem como bandeira o PAC, que é um amontoado de projetos velhos reunidos em um pacote eleitoreiro. É um governo medíocre. E o mais grave é que essa mediocridade contamina vários setores do país. Não é à toa que o Senado e a Câmara estão piores. Lula não é o único responsável, mas é óbvio que a mediocridade do governo dele leva a isso.

    Mas esse presidente que o senhor aponta como medíocre é recordista de popularidade. Em seu estado, Pernambuco, o presidente beira os 100% de aprovação. O marketing e o assistencialismo de Lula conseguem mexer com o país inteiro. (...) Ele fez essa opção clara pelo assistencialismo para milhões de famílias, o que é uma chave para a popularidade em um país pobre. O Bolsa Família é o maior programa oficial de compra de votos do mundo.

    O senhor não acha que o Bolsa Família tem virtudes? Há um benefício imediato e uma consequência futura nefasta, pois o programa não tem compromisso com a educação, com a qualificação, com a formação de quadros para o trabalho. Em algumas regiões de Pernambuco, como a Zona da Mata e o agreste, já há uma grande carência de mão-de-obra. Famílias com dois ou três beneficiados pelo programa deixam o trabalho de lado, preferem viver de assistencialismo. (...)

    A oposição está acuada pela popularidade de Lula? (...) A popularidade de Lula não deveria ser motivo para a extinção da oposição. Temos aqui trinta senadores contrários ao governo. Sempre defendi que cada um de nós fiscalizasse um setor importante do governo. Olhasse com lupa o Banco do Brasil, o PAC, a Petrobras, as licitações, o Bolsa Família, as pajelanças e bondades do governo. Mas ninguém faz nada. Na única vez em que nos organizamos, derrotamos a CPMF. Não é uma batalha perdida, mas a oposição precisa ser mais efetiva. (...)

    Por que há essa banalização dos escândalos? O escândalo chocava até cinco ou seis anos atrás. A corrupção sempre existiu, ninguém pode dizer que foi inventada por Lula ou pelo PT. Mas é fato que o comportamento do governo Lula contribui para essa banalização. (...) Esperava-se que um operário ajudasse a mudar a política, com seu partido que era o guardião da ética. O PT denunciava todos os desvios, prometia ser diferente ao chegar ao poder. Quando deixou cair a máscara, abriu a porta para a corrupção. (...)

    Como o senhor avalia a candidatura da ministra Dilma Rousseff? A eleição municipal mostrou que a transferência de votos não é automática. Mesmo assim, é um erro a oposição subestimar a força de Lula e a capacidade de Dilma como candidata. Ela é prepotente e autoritária, mas está se moldando. Eu não subestimo o poder de um marqueteiro, da máquina do governo, da política assistencialista, da linguagem de palanque. Tudo isso estará a favor de Dilma. "

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3 comentários:

Anônimo disse...

O senador Jarbas Vasconcelos foi extremamente claro, lúcido, ao abrir seu coração(vamos dizer assim). Percebe-se que suas palavras traduzem exatamente o que ocorre, extremamente realista, convincente,veraz.
CONSTATA-SE A FRAQUEZA(e quê fraqueza, dubiedade) DO QUE CHAMA-SE OPOSIÇÃO. Também estilhaços atingem uma imprensa dita isenta, mas com laivos de inclinação para o lado do PT. Omitindo-se e dourando a pilula.
Poderia ter sido diferente, senador Jarbas, se o partido que patrulhava tudo e todos como o PT,tivesse realmente cumprido o que pregava, principalmente no quesito ÉTICA, reforma tributária, ausência ou diminuição de escândalos, e outros tantos.
Parece uma nau de errantes,
governada por um capitão bêbado, e seus piratas de tantas roupagens que saqueam a Nação. Medíocre é pouco. O senador ainda foi benevolente.
(Si)

Gilberto disse...

O Senador Jarbas é lá de dentro, sabe o que está dizendo. Aliás, deve saber muito mais do que disse. O pior é que suas palavras caíram no vazio. O Governo e o PMDB combinaram de não comentar as declarações do senador para não esticarem o assunto. E a impressa, é claro, aceitou. Ou seja, a corrupção vai continuar, o governo Lula também, o silêncio da mídia e a indiferença do povo também. É a república!

schuch disse...

O senador é um politico valoroso, mas precisamente um feijao sadio no meio de tantos podres. Mas foram palavras vazias de pessoa indignada.
Eu realmente achei que não existia mais politico assim, achei que a corrupçao ja tivesse contaminado a todos.
Pena nobre senador, que vossa excelencia estará falando sozinho e aos ventos. Quem poderia tomar alguma atitude é o povo, mas o nosso povo tem o triste historico de ser conivente com corrupçao, roubos e drogas. Afinal sempre vai sobrar um pedaço de pizza né, ou umas migalhas...é uma pena.